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Efeitos laterais

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

12 de junho de 2013 | 12h00

Carles: Estivemos tão preocupados com a obsessão de Scolari e sua turma com a robustez da linha medular que talvez tenhamos relevado um pouco a importância que possam ter os laterais nesse time. Domingo eu vi um Marcelo mais magro, quase em forma física e revigorado. Dani Alves ainda está devendo na Seleção, mas é um cara positivo e poderia ser um bom momento para se reivindicar. Existe ainda a possibilidade de aprofundar ainda mais o jogo do time com jogadores em grande forma como Oscar e Lucas. Será que finalmente não será esse o caminho? O Brasil só estaria cumprindo sua sina, a dos laterais.

Edu: Mais uma vez temos o que é possível e o que é real. O possível leva em conta que o Brasil tem hoje os melhores laterais em muitos anos, talvez desde a dupla Cafu-Roberto Carlos, se bem que os de hoje são mais habilidosos e menos seguros. Marcelo é um superlateral, criativo, imprevisível. Suas falhas na marcação são, na minha visão, totalmente irrelevantes perto do resto que ele propõe ao time. E Dani precisa de algumas correções, tem errado passes por ansiedade e não consegue se livrar de algumas repetições que funcionam no Barça mas não na Seleção. O real, porém, é que não há nada montado para eles no ataque, só um excesso de cuidados defensivos, refletido pelos gritos histéricos de ‘volta!’ que o Felipão dá a todo instante. Aí, o potencial dos dois vem abaixo.

Carles: Sempre resisti a reconhecer a importância de Marcelo, mas estou inclinado a pensar que o jogo dele pode ser o único capaz de quebrar a rotina de um modelo repetitivo. Não acho as deficiências defensivas dele irrelevantes, mas sim que as suas possibilidades ofensivas compensam o que não deveria ser um problema para um esquema com o clássico volante de cobertura. Assim mesmo, os dois também estão entre os danificados pela desgastante temporada espanhola. Seus times fizeram o desfavor de devolvê-los não no melhor de suas formas. Um por excesso de jogos, o outro por falta. Assim mesmo, insisto, os movimentos de Marcelo são sempre inesperados e ele acaba fazendo uma função no ataque que nenhum outro jogador do plantel faz. Nem ponta, nem meia, rapidez com a bola nos pés e nas combinações.

Edu: Mesmo sem estar totalmente ‘fino’, Marcelo parece hoje o cara mais imprevisível da Seleção, na falta do melhor Neymar. Ali por aquele lado podem surgir algumas novidades, sempre que deixem que ele se espalhe um pouco, o que não é muito o perfil do time. Mas Marcelo é um tanto insubordinado, não consegue se segurar – é de longe sua maior virtude, a ousadia. Se Paulinho tivesse um pouco dessa rebeldia, teríamos duas boas surpresas chegando ao ataque.

Carles: É o que eu queria dizer, a insubordinação é a maior virtude e, segundo a perspectiva, seu maior defeito. Mesmo assim, ainda é incerta a titularidade de Marcelo, pelo que entendi. Parreira é partidário da maior rigidez e disciplina tática de um Filipe Luiz que não é nem sombra daquele jogador que foi no Depor até sofrer uma séria fratura. É isso, Filipe é o favorito de Parreira? Memórias da caserna ou “melhor não arriscar escalando dois laterais ofensivos.” Porque, estando bem ou mal, segurar o Dani lá trás também vai ser missão impossível.

Edu: Não sei te dizer se o Parreira é o maior advogado de defesa do Filipe Luiz, ou se é o próprio Felipão – e não é por cautela, é medo mesmo, é estilo de ser, estilo de jogo. O certo é que Dani e Marcelo são uma imposição do futebol brasileiro – da torcida, da mídia, dos colegas jogadores. Se não acontecer uma desgraça pelas laterais não há como mexer neles sem arcar com uma reação irada de todos os lados. Ainda mais num time que tem tão poucas opções de criatividade. Quanto ao Dani, que é melhor marcador que o Marcelo, acho que ainda falta um pouco mais de autocontrole do meio para a frente. Já que ele não é um cara de linha fundo – como você já ressaltou aqui – precisa dosar essas diagonais para não sair trombando com Oscar e Hulk, como já aconteceu nos amistosos.

Carles: A verdade é que Dani foi o jogador mais prejudicado pelo jogo do Barça, que foi, pouco a pouco, restringindo o seu repertório. Se recordarmos, no Sevilla andou jogando bem de ala e até de meia direita clássico. Ele fez boas temporadas no Barça, mas foi ficando cada vez mais limitado. Tudo piorou para ele quando Messi abandonou sua posição na beirada do campo. Antes disso, pudemos ver uma ala direita das mais poderosas já vistas. E como você diz, o ‘descondicionamento’ desses movimentos tão mecanizados leva o seu tempo. Quem sabe para a Copa e com ele jogando no Mônaco ou no PSG a seu bel prazer?

Edu: De qualquer jeito, pelos lados do campo correm dois caras que inspiram confiança no torcedor e têm grande respeito dos adversários. Não duvido que ambos tenham marcação especial contra qualquer adversário.

Carles: Vidas paralelas nas laterais… o Brasil com Barça-Madrid, a Espanha com Madrid-Barça. Só que nós ainda temos a esperança de não ver Don Alvarito na direita da “Roja”.

Edu: Sinto que o Marquês vai testar Azpilicueta. Já veremos.

Carles: Com a bênção de Casillas. Dos males o menor.

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