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‘El Niño’, superestimado e com modesto repertório

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

28 de fevereiro de 2013 | 06h25

Edu: Então me responda: que pasa con ‘el Niño’ Torres?

Carles: Relaciono a decadência do herói de Viena com o recorrente “fracasso” de muitos futebolistas que oferecem um repertório muito pequeno de recursos.

Edu: O cara era determinante no Atlético de Madrid. Está certo que muitas defesas na Espanha que marcam em linha facilitam para um cara como ele. Mas sempre foi diferenciado, parecia bastante inteligente dentro da área. Demonstrou um pouco disso no Liverpool também. E na ‘Roja’. Então nos enganamos todos? Aquilo era uma ilusão? Um ‘espejismo’ como vocês dizem?

Carles: Não nego que ele tenha demonstrado inteligência e certa eficiência naquilo que se esperava dele. Só que jogadores como ele dependem muito do resto do time, do esquema, das próprias condições físicas e, naturalmente, decaem quando passam a ser muito conhecidos pelos adversários. Provavelmente isso suceda com todos os jogadores, mas o efeito é muito mais dramático nos jogadores, como disse, de menor repertório. Tanto o Liverpool, o Atlético como a ‘Roja’ da época em que Fernando brilhou, eram times que não tinham a posse de bola e aproveitavam as defesas adversárias que jogam adiantadas, ideal para ‘el Niño’. É certo que ele teve momentos bons no Liverpool, sob condições relativamente diferentes, mas sinto que, como agravante, ele perdeu a autoconfiança gradualmente, o que agravou a situação. Além do problema de ter que se adaptar a times mais trabalhados taticamente.

Edu: Por um tempo achei que tinha relação com a forma como ele era tratado na Espanha. Por um lado, era bastante mimado e, por outro, cometeram a heresia no Atlético de colocar um cara de 20 anos como capitão do time. E em um time por natureza pressionado pelo complexo de inferioridade em relação ao rival mais forte de Madrid. Um tipo de pressão parecida com a que o Santos faz com o Neymar.

Carles: Não concordo com essa tese porque ele sempre demonstrou ser um cara bastante maduro. Você já viu ele envolvido em algum escândalo dentro ou fora de campo? O jeito de moleque e alguns visuais que ele adotou, na verdade, falam pouco dele. Eu acredito mais na falta de percepção dos dirigentes que o contrataram e num provável decréscimo de condição física, essenciais para o jogo mais brilhante de Torres. Ele precisa de muito espaço para se deslocar, para fazer diagonais, como nos times que você citou.

Edu: Mas é pouco para um cara que é internacional. Então ele só serviria para jogar contra o Zaragoza ou o Depor? Aí teria espaços. Me parece mais um caso de supervalorização que nós que convivemos com o futebol sabemos que acontecem com frequência. Caímos em muitas armadilhas. Mas insisto: essa pressão de fazer o garoto amadurecer depressa teve certamente alguma influência. Ele pensou que era muito mais do que realmente é.

Carles: Pode ser. Talvez a consagração prematura acabe abortando a possibilidade de aperfeiçoamento. Isso é comum em qualquer profissão, não? Se ele fosse menos mimado talvez tivesse se esforçado em ampliar sua gama de recursos que, insisto, é escassa. Nem acho que seja uma enganação, mas craque nunca foi, o que não quer dizer que não tenha sido um jogador importante para os clubes e para a seleção. Se a seleção espanhola seguir nessa linha de toque, sem dar lugar a esquemas alternativos, mesmo que eventuais, não creio que ele perdure demasiado. Ultimamente é o jogador ao que se deu mais chances!

Edu: Você falou da falta de visão dos dirigentes, e é verdade. Mas certamente também faltou o técnico ideal para essas situações. Um cara que cumpra com sua função essencial – a função propriamente técnica no rigor da palavra -, de orientar, chamar a atenção para as falhas e para as potencialidades, insistir em algumas necessidades e posturas, passar ao jogador mais variações táticas. Enfim, uma figura rara no futebol.

Carles: É certo, mas você não acha que o futebol moderno pede jogadores mais versáteis que o Fernando Torres? O especialista é raça em extinção e não só no futebol.

Edu: É mais um desejo que uma realidade. Há e sempre haverá mercado seguro para os especialistas. Esteja certo.

Carles: Principalmente nos chamadas equipes de segunda linha, as que passam 90 minutos esperando que as circunstâncias sejam as planejadas pelas suas parcas possibilidades para dar o bote. Por isso acho que o contra-ataque está subestimado. Poderia ser um recurso circunstancial e não o único recurso de um time durante toda uma temporada.

Edu: Eu já acho que o contra-ataque é um recurso de técnicos incapazes. É um recurso válido, sim, mas normalmente é considerado como a arma principal. São eles, esses técnicos, que vêm aí a única saída.

Carles: O Atlético de Madrid de Torres utilizava o contra-ataque com bastante frequência, o Liverpool jogava com as linhas de defesa e meio-campo juntas e o ataque mais isolado, enquanto a seleção da Espanha campeã da Eurocopa de 2008 juntava muitos efetivos no meio de campo e fazia a bola circular esperando os deslocamento de Torres e Villa para armar o ataque em velocidade. O problema é utilizá-lo como único recurso. Nisso, estamos de acordo.

Edu: A questão dos esquemas e do contra-ataque são temas para muitos posts no futuro, concorda?

Carles: Sem dúvida. Muitos e muitos posts.

Edu: Concluindo sobre a associação que fiz sobre Torres e Neymar. A diferença entre os dois é clara: o Neymar tem mais recursos, muitos mais. Mas um mau técnico ou um mau esquema pode anular essas habilidades.

Carles: Não acredito que “só” um mau técnico possa anular as possibilidades de jogadores como Neymar, que não tem nem comparação com Torres. Neymar faz parte de um grupo em que estão, entre outros, Iniesta e Cristiano Ronaldo. Agora, outras razões sim podem limitar as possibilidades de projeção do brasileiro.

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