Em campo, algum sonho e muitas dúvidas
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Em campo, algum sonho e muitas dúvidas

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

14 de junho de 2013 | 18h04

Carles: No post anterior falamos que o Brasil começa a escrever uma parte importante da sua história, em torno à organização de dois eventos esportivos e sobre as dúvidas que tudo isso gera. Isso, fora de campo, porque, dentro, está em jogo o prestígio de pentacampeão mundial. A algumas horas da estreia e também com muitas dúvidas, pergunto: por que vocês acham que pode dar certo?

Edu: Vamos lá. Primeiro, por exclusão, por não acreditar que nenhuma das Seleções participantes da Confecup chegue como bicho-papão. A Espanha, como já dissemos tantas vezes aqui, tem jogadores desgastados pela temporada massacrante e, pelo jeitão do pessoal, não prioriza tanto assim o torneio, que funciona mais como ambientação para o ano que vem.

Carles: O que, em princípio, não acho uma má ideia. Mas sempre de olho na perda de prestígio, de quem defende os títulos de atual campeã de tudo e que pode afetar a autoconfiança e o desempenho do time. Vencerá o bom jogo mas camisa também pesa, você sabe disso. Por outro lado, parece que existe um plano da Confederación Española de Fútbol para  maior preservação de “La Rojita”, a sub-21, um time de jovens talentos, quase todos jogando já em times de primeira linha. Acho que a renovação para a Copa 2014 será inevitável.

Edu: Aí tem a Itália, se bem que Prandeli é mais ambicioso e saberia capitalizar um bom resultado aqui para um time que vem crescendo gradativamente. Porém, também não chega como uma força imbatível. México e Uruguai são times instáveis, podem complicar, mas podem nem ligar. Nesse cenário, o Brasil, que tem obrigações maiores e óbvias, pode dar certo.

Carles: A irregular Azzurra empatou com o voluntarioso combinado do Haiti, se bem que esses amistosos… Obrigações do Brasil, todas. As expectativas não são as mais altas, verdade? Mas isso também pode  ser uma condição favorável.

Edu: O fator surpresa… Há bons jogadores no time de Felipão, ainda que não exista um esquema claro, uma proposta ambiciosa e definida de jogo. Ali tem gente que pode marcar diferenças, entre os quais destaco Oscar, Marcelo, Lucas e Paulinho – além de Neymar, claro, se mudar sua postura. Como sempre, acredito mais na possibilidade de esses jogadores assumirem o time na hora H, a velha e boa autogestão. É um torneio de poucos jogos e contrariar algumas das manias da comissão técnica, desde que o resultado seja bom, não vai causar tanto dano assim, pode ser a solução.

Carles: E, claro, contando com o inestimável apoio da torcida, elemento que pode ser decisivo. Nessas horas, surge a unanimidade entre uma população que ultimamente vem se mostrando mais plural. Mas Seleção é sempre Seleção. Pelo menos enquanto houver mínimas chances de triunfo.

Edu: Ainda acredito na demanda de entusiasmo que a Seleção Brasileira pode provocar. Não será como em outros tempos, mas uma vitória boa na estreia e um jogo convincente contra mexicanos e italianos pode fazer o povão fechar com a Seleção – e aí a coisa muda de figura. Já é possível sentir que a indiferença foi superada. Há uma certa excitação com os novos estádios, a mídia inevitavelmente expõe tudo à exaustão e não é difícil que uma partida bacana, com gols e leveza, conquiste o torcedor clássico, que anda precisando de um pouco de energético.

Carles: Agora, minha pergunta ao advogado do diabo, por que pode dar errado?

Edu: Em primeiro lugar pela falta de padrão. Temo que nunca a Seleção Brasileira terá padrão de jogo com a atual comissão técnica, a não ser que Felipão assuma sua veia retranqueira e coloque logo três zagueiros, três volantes e convença o time – e o País – de que a saída é ganhar de  1 a 0 no contra-ataque. Não acredito que ele tenha essa ‘ousadia’. Assim, veremos um time de maioria jovem que pode pagar caro pela confusão tática. Nesse sentido, times como Espanha e Itália, e mesmo o México, sabem como tirar proveito das precipitações do Brasil.

Carles: Aí, o que era vantagem vira fator de pressão, começa a cornetagem, o desânimo, a culpa do Felipão, da Dilma, do Lula, do Marin, do Charles Miller, do Neymar… Quem experimentou o gostinho amargo da conversa no cafezinho da segunda-feira de manhã, no trabalho depois de uma derrota da seleção, não esquece.

Edu: Haverá pressão e exigências, internas e externas, cornetagem sempre. E a parte mais nova desse grupo é capaz de sucumbir a alguns exageros ou da mídia ou da própria torcida, que não tem sido muito econômica na pegação de pé. Neymar personifica esse grupo de jovens vulneráveis, a ponto de sair da condição de principal jogador para a de principal incógnita do Brasil na Confecup. O pior é que quem poderia dar respaldo não é confiável. Felipão posa de durão, mas é o primeiro a sentir a pressão, tanto que mexe no time indiscriminadamente durante os jogos, despreza o mais rudimentar processo de entrosamento para dar vazão às suas idiossincrasias, como o desejo incontido de multiplicar volantes e zagueiros. Na comissão técnica, falta sensibilidade para perceber que essas ações instáveis deixam os mais jovens – e mesmo alguns veteranos – ainda mais inseguros.

Carles: Podemos dizer que é um time de transição que não conta com o prazo devido para atingir um padrão. Existem urgências esportivas e de outra ordem nacional que pressionam o time a conviver e engolir algumas deficiências crônicas, além aquelas próprias de um time imaturo.

Edu: Deficiências pontuais. O time, além de não estar pronto, tem setores que ainda nos levam do incerto ao não sabido. Pouca gente contesta Julio Cesar, até o momento em que ele falhar – e ele sempre falha – num lance decisivo. David Luiz definitivamente não é um zagueiro confiável, precisaria rever alguns ‘tiques’ técnicos que têm prejudicado sistematicamente seu futebol. Tem altura, mas falha na colocação, tem presença física, mas se precipita na antecipação. É um zagueiro que tem jeito, mas precisa reinicializar, eu diria. Há também uma crônica reincidência em erros de passe, algo que o Brasil sempre teve de bom. Os campeões de bobagens nesse quesito têm sido Dani Alves e Hulk, sendo que o caso do lateral é mais grave por frequentar uma região do campo que, imediatamente, propicia um contra-ataque ao adversário. Como não existe treino de fundamentos na Seleção, os erros de passe têm que ser resolvidos na base da conversa. Será?

Carles: Em algumas horas, começaremos a conferir.

 

Foto: Espacio de Color ®

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