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Emboscada tecnológica para os senhores da Fifa

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

23 de fevereiro de 2013 | 08h59


Edu: A Fifa, quando se trata de regras do jogo, tem uma cautela que contrasta com a agressividade com que fecha seus acordos publicitários – é terrivelmente lenta para reagir. Essa história de que o futebol vive da polêmica alimentou os argumentos do pessoal da Suíça durante décadas, como antídoto a quem defende o uso da tecnologia para deixar mais transparente a aplicação das regras. Aí veio a Copa da África e derrubou tudo, principalmente por causa do famoso gol do Lampard que não valeu, contra a Alemanha. Então a Fifa descobriu que quatro olhos enxergam mais que dois e colocou mais um árbitro em cada linha de fundo. Veio a Eurocopa de 2012 e o tal árbitro da linha de fundo não viu um gol claríssimo da Ucrânia contra a Inglaterra. E então…

Carles: A polêmica como atrativo é desculpa esfarrapada, sabemos disso. Também é fato que os velhinhos da Fifa resistem-se às mudanças. Mas, em matéria de dirigente conservador, dizem que Platini (presidente da Uefa) faz o Blatter parecer uma Pussy Riot. Monsieur Michel seria um dos mais resistentes a mudanças que parecem irreversíveis.

Edu: O fato é que agora decidiram que a Copa das Confederações e a Copa de 2014 terão a tecnologia da linha do gol, o tal ‘olho de falcão’, sistema de câmeras que já funciona no tênis. É um sistema de implantação bastante cara, mas inevitável nestes tempos. E o simpático Platini, que obviamente esbravejou, justificou sua resistência dizendo que ‘um gol não vale tanto dinheiro’.

Carles: Está claro que o Platini tem um escorpião na carteira. Agora, inclusive, as condições econômicas dão certa razão a ele. Mas o principal meio de arrecadação dos clubes segue sendo a televisão além de principal ponto de discórdia: todos os fins de semana os telespectadores vem um jogo e os presentes no estádio, incluindo juiz e auxiliares, outro. É querer fazer o ridículo. O ‘challenger’ ou ‘ojo de halcón’ acrescentou um espetáculo paralelo e bem emocionante. A torcida acompanha a repetição e volta a vibrar com a jogada. Volta a torcer, aplaude. Acho genial. E o fato de regulamentar os pedidos de verificação faz com que se criem critérios, dosificando e aumentando a importância da estratégia.

Edu: A repetição detalhada de imagens é um recurso que os esportes americanos usam com naturalidade há tempos e já foi incorporado na própria dinâmica do jogo. Um torcedor hoje nem se incomoda de ter que ver interrompida a ação do jogo, desde que a regra seja cumprida.

Carles: É a sensação de justiça para quem saiu de casa, tomou chuva, vento, custou para estacionar para ver seu time. Nem toda evolução passa necessariamente por dispendiosos e mirabolantes recursos tecnológicos, os famosos sprays dos árbitros brasileiros são muito admirados por aqui. É um recurso criativo.

Edu: Ao mesmo tempo, a Fifa estará criando um problema sério, que talvez tenha sido a razão de tantos anos de resistência à modernidade. Com esse precedente, digamos, ‘jurídico’ do uso da tecnologia, como ficam as outras jogadas polêmicas? E os impedimentos ajustados que decidem jogos? E o toque de mão sorrateiro que resulta em um gol decisivo, como o de Henry contra a Irlanda nas eliminatórias da Copa de 2010, que levou a França para o Mundial, eliminando os irlandeses?

Carles: Para o toque de mão, proponho uma junta de psicólogos para julgar se houve intenção ou não (não é o caso do Henry). E a lei do impedimento, convenhamos, precisa de uma reestruturação, é muito subjetiva e arcaica, o Futsal já deu exemplo. Ou isso ou a solução segue sendo mesmo o recurso audiovisual, instrumento utilizado com toda a comodidade pelos comentaristas e que poderia ser utilizado ao vivo, como parte do jogo, uma espécie de tira teima. O problema volta a ser o custo de implantação proibitivo para muitos, a curto e médio prazo. Mas os grandes patrocinadores e as grandes empresas não têm problema de dinheiro, vamos ter que passar o chapéu.

Edu: Até concordo com você sobre mudanças estruturais que tornem a regra menos subjetiva. Mas a tecnologia para lances corriqueiros, que acontecem quatro ou cinco vezes por jogo, pode ser um desastre para os atrativos básicos do futebol – ritmo, clima de tensão, dinâmica. Um gol duvidoso, se a bola ultrapassou ou não a linha, é fato raro e pode ser resolvido facilmente com a tecnologia. Mas a tecnologia em lances comuns transformariam uma partida de futebol numa novela interminável, uma chatice.

Carles: Neste caso, só vejo uma saída, a volta da honra ao campo de jogo. Lembra no futebol de rua quando a gente resolvia tudo sem juiz mesmo? Parece impossível, mas a verdade é que nada mais passa desapercebido. Mais cedo ou mais tarde, a gravação de imagens realizada desde uma dúzia de pontos do estádio vai mostrar que o jogador tentou enganar todo mundo. No fundo é uma questão moral da sociedade que premia a esperteza, por cima da honradez.

Edu: Aí já entra no departamento de sonhos. Honra nesse ambiente? Em todo caso, os velhotes da International Board é que têm que encarar essa confusão. Vai haver confusão, seguro que vai. Eles que se virem, ganham bem pra isso.

 

O gol de Lampard contra a Alemanha que não foi: 

 

TV francesa debate o gol da França  contra a Irlanda com mão de Henry, pela classificação para a Copa 2010 e o uso da tecnologia:

 

O célebre lance do “no me jodas Rafa” durante o Zaragoza-Barcelona de 1996:

 

Como os ucranianos viveram o lance em que John Terry tirou a bola de dentro da meta inglesa:

 

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