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Entre a indolência e ‘Allons enfants de la Patrie…’

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

20 de março de 2014 | 21h41

Carles: Quando a última Confecup acabou, tive a sensação de que as circunstâncias tinham nos aproximado um pouco mais ao nosso então carrasco, pela semelhança com a ardida derrota da Seleção Brasileira para a França em Saint Denis, na final da Copa de 1998. Aliás, aquela foi uma das raras seleções francesas com o tal espírito competitivo, confirmado dois anos depois com a conquista da  Eurocopa e, desta vez, para tirar toda sombra de dúvida e/ou suspeita, foi fora de casa, na Holanda,  e com uma empolgante virada na final em cima dos italianos, com o gol de empate nos descontos e o da vitória na prorrogação, autoria do franco-argentino Trezeguet.

Edu: A França é um desses raros países cujo futebol tinha todos os elementos para ser atraente e angariar simpatias, mas por diversas razões não emplaca em matéria de popularidade. Não sei se é por falta de um estilo, ou pela tradicional petulância francesa no panorama político, ou ainda pela falta de identidade de muitos de seus jogadores. Deve ser por tudo isso e mais um pouco. Mesmo assim, convenhamos, é um time que tem menos respeito do que merece se fôssemos pensar só na questão técnica e na qualidade dos jogadores.

Carles: Certamente eles têm o “respeito” ao que você se refere, na medida que eles mesmos pretendem. E volto a bater na tecla do nacionalismo, um sentimento ideologicamente muito próximo à direita que na França tem cabida em determinados núcleos (poderosos, é verdade) e lugar cativo na casa dos Le Pen. Por isso os sentimentos ligados à seleção nacional não emplacam dentro da França e muito menos fora.

Edu: É, mas a Seleção Francesa tem um elenco com diversidade racial e religiosa como poucas, o que por princípio seria um sinal de abertura para o mundo, democracia em estado primal. Ali convivem franceses de raízes (o capitão Lloris, Cabaye, Giroud) com chegados de todos os cantos da Europa e da África. A base, tanto a mais antiga quanto a novíssima geração, tem componentes de origem polonesa (Koscielny), muçulmanos (Ribéry), descendentes de espanhóis (Valbuena), de famílias oriundas no Magreb (Benzema) e uma multidão de filhos legítimos da África Negra, se bem que nascidos na França quase todos: Paul Pogba e Guilavogui (Guiné Bissau), Blaise Matuidi (Angola), os reservas Steve Mandanda e Eliaquim Mangala (Congo), Sagna e Mamadou Sakho (Senegal) e tantos outros. O próprio treinador, Didier Deschamps, nasceu no País Basco francês, ou seja, tem praticamente um pé na Espanha. Já seria suficiente para ter mais empatia com o mundo do futebol, mas não é assim.

Carles: A democracia é relativa quando as tais amostragens da diversidade étnica estão restringidas aos guetos ou regiões marginais, de onde saem alguns privilegiados para servir ao exército ou aos combinados esportivos. As elites nacionalistas toleram esses invasores porque são eles que marcam a diferença, fazem os gols e dão vitórias a suas cores, a sua bandeira. Muitos dos jogadores  de origens diversas aos que você se refere são os que não cantam a Marseillaise ou os que lideraram alguns motins dentro da seleção.

Edu: É verdade que a péssima impressão que ficou da era pós-Zidane – tantos nas duas Eurocopas (2008 e 2012) quanto na última Copa – foi de alguma forma superada com habilidade justamente pelo trabalho meticuloso e realista de Deschamps. O volante que foi capitão do time campeão do mundo em 1998 conseguiu, com simplicidade e se valendo da imagem de respeito que construiu como jogador, colocar uma certa ordem na casa depois do nefasto período Domenec. Aliás, você pode falar com propriedade, porque acompanhou de perto a temporada  que ele serviu ao Valencia em seus últimos tempos como jogador.

Carles: Foi no ano de 2000, claramente em fim de carreira, tanto que no verão do ano seguinte decidiu pendurar as chuteiras. Então, ele já tinha atitude de treinador. Deschamps era o capitão daquele time da final contra o Brasil e como jogador é o sexto com maior número de partidas disputadas com a seleção, depois de Thuram, Thierry Henry, Marcel Desailly, Zinedine Zidane e Patrick Vieira. Claro que Jean-Marie ou Marine, dos Le Pen, diriam que Didier é o único autêntico francês dessa lista.

Edu: Como selecionador, Deschamps aposentou algumas laranjas podres e deu espaço a um grupo mais jovem, sem desprezar porém estrelas do nível de Ribéry, do goleiro Lloris e mesmo de Benzema, que ganhou de presente toda a paciência do mundo para tentar renascer.

Carles: Esse renascer, se houver, será graças ao empenho de Florentino, fã privilegiado de Karin, e ao trabalho que el presi encomendou a Ancelotti e não ao “clima efervescente” que se respira na concentração de les Bleus. Aliás, esse pouco entusiasmo de servir a seleção, quiçá pela pouca representatividade de uma sociedade que não reconhece uma única identidade, faz com que eles costumem enfrentar dificuldades para se classificar. Como em 2009 com Titi Henry controlando a bola com a mão antes de dar o passe do gol da classificação marcado por Gallas. Outra vez nos descontos e no último jogo.

Edu: A verdade é que ficamos todos um tanto revoltados com a famigerada classificação para a Copa de 2010, graças a esse gol irregular que derrubou a Irlanda, o que talvez explique muito da antipatia que o time francês angariou. Tecnicamente, não deveria ser tão medíocre, mesmo naquela Copa, mas aí entraram outros fatores, como a soberba e o impacto nocivo de Domenec, que nem tinha conhecimento para controlar as sobras do vestiário nem tinha autoridade para posar de déspota, como tantos de seus antepassados. Deu no que deu. O fato é que, na ponta do lápis e na análise fria dos últimos desempenhos, a França tem um grande elenco, apesar de ainda não ter formado um grande conjunto. E, além de tudo, está em grupo dos mais fáceis nesta Copa.

Carlos: Se desta vez, a seleção bleus (que em alguns aspectos parece-me ter alguma afinidade com o espírito brasileiro), meio contra-natura resolver competir, pode até fazer um bom torneio. Não será por falta de bons jogadores, principalmente jovens como Pogba, que vem demonstrando um grande amadurecimento pessoal e técnico.

Edu: Paul Pogba está entre os quatro jogadores franceses que considero fadados ao sucesso no Brasil. É um todo-terreno que sabe ser volante tradicional, armador e até centroavante se for o caso, com uma pegada física impressionante. O segundo é seu companheiro de setor, Matuidi, um jogador total, cuja desenvoltura e aproveitamento dos espaços me lembra muito o desempenho de Paulinho (nos tempos de Corinthians, claro). Também aposto em Lloris como um dos grandes goleiros do Mundial, um jogador no auge de sua forma técnica e física aos 27 anos, com muita personalidade e que suporta um verdadeiro tsunami a cada jogo porque atua por trás da horrenda zaga do Tottenham. Por fim, mais por inércia do que outra coisa, é preciso ficar atento a Ribéry, porque com craque ninguém pode bobear.

Carles: Provavelmente vai depender da atitude desse grupo de variadíssimo perfil  e se eles realmente estão dispostos a levar a sério coisas como ‘Allons enfants de la Patrie… le jour de gloire est arrivé… ces féroces soldats’.

 

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