As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Estatísticas, impossível viver sem elas

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

26 de julho de 2013 | 06h31

Edu: Há poucos dias, um amigo jornalista que mora há quase 20 anos na Flórida insistiu em me perguntar, em uma conversa por e-mail, quando o futebol brasileiro vai utilizar as estatísticas como instrumento de eficácia técnica em todo seu potencial, como fazem os esportes americanos. Respondi que muitas comissões técnicas já se valem desse recurso, mas que, em geral, ainda prevalece um certo dogma de que o conhecimento adquirido, ou seja, a vivência, a intuição e o bom senso continuam sendo as principais armas dos treinadores. Só tenho muitas dúvidas sobre se essa é uma questão apenas restrita ao corpo técnico, ou se deveria ser incorporada nos mecanismos de gestão do clube, que passaria a exigir de seu treinador a adoção desses métodos. Não sei se funcionaria por aqui.

Carles: Na medida em que o esporte de alto rendimento deixa de ser uma atividade meramente artística e se profissionaliza, é inconcebível não utilizar dados, controles estatísticos e analíticos sobre desempenho, capacidade, repetições positivas e negativas. E não só da própria equipe, mas dos adversários. O contrário disso é sujeitar enormes investimentos e estruturas ao bel prazer de um senhor que pode ou não estar inspirado, que tem bons e maus dias. Demasiado risco, responsabilidade muito concentrada, não acha? Deve existir uma certa resistência, compreensível até, mas não tenho dúvidas de que é a tendência.

Edu: Sim, evidente, mas é bom deixar claro que estamos falando aqui de estatísticas um tanto mais trabalhadas, porque aquelas básicas, dos passes errados, do lado do campo que adversário mais usa, do  juiz que é caseiro ou rigoroso, essa viraram de uso comum por qualquer dinossauro do futebol brasileiro. O que ainda é pouco utilizado é o dado qualitativo de longo prazo, aquele que reflete médias individuais ou coletivas por vários meses ou temporadas e define, por exemplo, se determinado jogador a ser contratado vai ou não se enquadrar em todas as suas características na necessidade atual do clube, ou se o adversário do fim de semana tem variações de comportamento quando joga dentro ou fora de casa, sob chuva ou calor e com árbitros mais rigorosos ou condescendentes. Tenho a impressão que mesmo em alguns centros da Europa essa sofisticação ainda engatinha.

Carles: Não sei exatamente que equipes técnicas utilizam os métodos estatísticos mais sofisticados, mas não é difícil adivinhar. Basta observar o desempenho de algumas das grandes equipes nas últimas temporadas para saber quem já adota esses métodos. Obviamente que utilizar esse tipo de ferramenta implica não só convencer muitos treinadores céticos, mas também muitos dos dirigentes, pelo alto custo da infraestrutura e da equipe. Também é fato que o uso das estatísticas é só um complemento, um apoio que não dispensa o talento, a aplicação e capacidade de aprendizado dos jogadores e da comissão técnica.

Edu: Como a nossa praia é futebol, algumas coisas ficam difíceis de explicar para alguém que vive imerso na cultura esportiva americana, como esse amigo que é especialista em NBA e beisebol. No futebol, a incerteza é o ponto de partida e a maior graça do jogo. Na maioria dos esportes americanos, a incerteza é só mais um componente. Mas em todos os casos há o reconhecimento de que o talento está acima das estatísticas. Acontece que, no beisebol, por exemplo, um time faz 162 jogos em sete meses, sem contar os playoffs, o que torna as médias ponderadas muito mais significativas (algo que foi muito bem retratado no filme Moneyball). No futebol, ao fim de um campeonato de 30 e poucos jogos, um gol contra, uma falha do goleiro e um juiz incompetente podem colocar tudo a perder, inclusive as estatísticas. Não, não vamos condenar os números por isso. Mas não custa relativizar.

Carles: Todos os processos, inclusive ou principalmente os humanos, são contabilizáveis, passíveis de tabulação e análise. Não acho que o futebol, soccer para o seu amigo, seja menos ponderável ou muito mais imprevisível do que o beisebol. Bom, um pouco mais talvez, acho que os esportes preferidos pelos norte-americanos se parecem um pouco mais aos jogos de tabuleiro. Tem algo mais de automatismo, de atividade cíclica. Mas também dependem do comportamento humano e sua certa imprevisibilidade. Não acredito que no futebol os métodos estatísticos sejam menos aplicáveis ou possam ser menos condicionantes, sempre e quando os profissionais técnicos estejam dispostos a reciclar-se ou assessorar-se para tirar o melhor proveito desse recurso.

Edu: Menos aplicáveis tenho certeza que não são, mas menos condicionantes acho que sim, até pela questão cultural, pela dificuldade de envolver jogadores, preparadores e todo o staff nesse segmento um tanto assustador. Algum tempo atrás, um francês, que se não me engano também foi treinador, Damien Comolli, foi contratado pelo Tottenham para montar um esquema que dados qualitativos. Ficou algo como três anos por lá e mexeu um pouco com a cultura do clube. Depois despertou o interesse do dono do Liverpool (John W. Henry), que por sinal era o mesmo dono do Boston Red Sox, do beisebol norte-americano. Damien repetiu o trabalho no Liverpool e entre suas contratações turbinadas pelos dados estatísticos esteve Luis Suares, por seus números assombrosos segundo o francês. Pouco depois, porém, ele deixou o clube porque pretendia radicalizar nas influências estatísticas e brigou com todo mundo. É um exemplo bem significativo.

Carles: Somos assim mesmo, essa é a história da humanidade, primeiro rejeitamos a novidade e no lustro seguinte não podemos viver sem ela. Existem já no mercado algumas empresas que desenvolvem packs prontos, softwares de cadastro e controle de dados para futebol. O mesmo programa permite editar vídeos e obviamente gera relatórios estatísticos, gráficos, tabelas, etc. Só não sei se algum deles tem algum campo para introduzir o número de vezes que o jogador morde o adversário durante a carreira.

Edu: Depois de Luis Suares, certamente haverá uma mudança de parâmetros do quesito mordidas. Para concluir a conversa com o nosso amigo brazuca-americano, lembrei que uma coisa ficou clara na final da Confecup e que ninguém me tira da cabeça: para enfrentar aquele jogo, Felipão digeriu toda a bagatela de dados que Parreira levantou em seu estudo sobre Barça- Bayern para poder neutralizar a ‘Roja’. E se Felipão aceitou isso, o mundo não está de todo perdido. É sinal de que em breve não estaremos tão longe assim da obsessão ianque pelas estatísticas.

Carles: Duvido que mesmo aderindo ao sistema, o vosso jurássico treinador tivesse conseguido tirar partido tão imediato. Prefiro a teoria da sinergia com a torcida e o inegével talento dos craques brasileiros. Também não descarto que alguns dados estatísticos possam ter ajudado. A verdade é que o ideal seria encontrar um equilíbrio entre a importância dos fatores mais subjetivos e o uso dos dados, ou os treinadores, obcecados pelas estatísticas, podem deixar de olhar para o campo e não tirarem mais os olhos do monitor ou do tablet. Isso poderia premiar a regularidade mas em contrapartida, a genialidade, tão ligada ao risco, certamente teria os dias contados no jogo.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: