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Estilo europeu, técnico italiano, legião da Bundesliga; mas é o Japão

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

04 de abril de 2014 | 19h26

Carles: Japão chega ao Brasil na sua quinta participação consecutiva em Copas. Nas quatro anteriores, tanto na África do Sul 2010 como na que eles mesmo ajudaram a organizar em 2002, chegaram às oitavas, enquanto na França 1998 e na Alemanha 2006 não passaram da fase inicial. Outra vez o torneio é disputado fora da Europa, com vários dos principais jogadores japoneses estagiando na Bundesliga e comandados por um das velhas raposas italianas. É o cenário ideal para que os japoneses deem um passo a mais, quem sabe quartas?

Edu: Não é por acaso que a Bundesliga importa vários japoneses. Não são os times de ponta, mas existe uma identidade entre os alemães e os orientais de uma forma geral que permite uma rápida adaptação: são organizados, disciplinados, têm aquela postura hermética que os germânicos cultuam e, mais do que tudo, não criam problemas. É uma química que funciona bem em equipes médias como Nuremberg, Wolfsburg, Mainz, Hertha Berlim. E comprova a evolução técnica do jogador japonês, resultado do planejamento meticuloso que começou quando a J-League realmente decolou, na década de 90, muito por obra do nosso Zico, uma instituição por lá. Não é coincidência o fato de chegarem à quinta Copa consecutiva. No Brasil terão um forte apoio da colônia e não dá para descartar um bom papel do time de Alberto Zaccheroni.

Carles: É provável mesmo que exista um interesse por parte desse misterioso ente que está por trás do meticuloso planejamento em favor da evolução do futebol nipônico, para que alguns dos seus principais jogadores atuem nesse tipo de clube médio: Kiyotake no Nuremberg, Makoto Hasebe no Wolfsburg, os irmãos Sakai, Gaotoku no Stuttgart e Hiroki no Hanover 96, além de Ushida no Schalke 04 e que, assim, consigam certo protagonismo, em vez da típica contratação exótica como atrativo de audiência que acaba jogando pouco. Quanto ao apoio da torcida, suponho que, pelo menos com respeito à primeira fase, é realmente no terceiro encontro contra a Colômbia, em Cuiabá, na região centro-oeste, que exista a maior possibilidade de um apoio massivo. É assim?

Edu: Você conhece bem as inúmeras concentrações nipônicas daqui, formadas em cinturões agrícolas desde o auge da imigração, grande parte delas situadas em São Paulo e no norte do Paraná. Tanto é que o local de treinamento escolhido é a cidade de Itu, um dos mais densos núcleos da colônia. Mas vejo um entusiasmo bastante generalizado pela Seleção Japonesa e não acho que as distâncias serão problema para o pessoal acompanhar o time de Zaccheroni. Cuiabá talvez seja o ponto de convergência, mas certamente haverá grande número de torcedores já no jogo de estreia, decisivo no grupo, contra Costa do Marfim, no Recife. Uma partida das mais atrativas da primeira rodada, aliás.

Carles: Segundo a última classificação Fifa publicada em março, Japão aparece como a 48ª seleção e Costa do Marfim, 24ª. Entretanto, é possível que esse seja um indicativo bastante enganoso quanto às probabilidades de que passe uma ou outra seleção como segunda do grupo. Isso se considerarmos a Colômbia, que agora aparece como a quinta seleção do ranking, como a favorita absoluta. Enfim, é muita teoria para um grupo em que, na prática, pode acontecer de tudo. Inclusive não seria prudente descartar os imprevisíveis gregos que tecem uma história nem tão desprezível à base de suas típicas goleadas por um a zero para conseguir posicionar sua seleção como a 13ª melhor classificada.

Edu: Se a classificação da Fifa tivesse mais credibilidade, seria anunciada todos os meses numa festa com a pompa que a dupla do barulho Blatter-Valcke tanto aprecia. O que vemos em campo é outra coisa e, apesar dos craques marfinenses que estarão aqui, parece existir muito mais consistência nesse time japonês com estilo europeu, conduzido pelo incansável Kagawa, do United, e pelo temperamental mas bastante efetivo Keisuke Honda, do Milan, um canhoto fominha que quer fazer tudo no time, mas que costuma ser decisivo. Também dão firmeza ao meio de campo o interminável Yasuhito Endo, 34 anos e 136 jogos pela seleção japonesa, e o capitão e líder natural do time, já citado por você, Hasebe, do Wolfsburg. Sem contar jovens que estiveram naquele fatídico encontro com a Espanha na Olimpíada de Londres, como o ágil ponta Ryo Miyaichi, hoje no Wigan.

Carles: Curiosos os adjetivos que estamos acostumados a utilizar quando falamos dessa cultura milenar. Se bem que quase sempre tenham uma intenção positiva, frequentemente transmitem certa falta de criatividade ou capacidade artística, em favor de um espírito incombustível e incansável. Numa época em que os artistas da bola necessitam mais do que nunca, acrescentar a persistência e a constância aos seus malabarismos natos, é possível que o aperfeiçoamento técnico dos japoneses possam fazer com que seus combinados definitivamente cumpram um papel competitivo. Como você bem lembrou, um claro exemplo foi aquela prometedora seleção olímpica de La Rojita que tinha De Gea, Jordi Alba, Koke, Muniain, Azpilicueta, Isco, Mata, que foi surpreendida por Ryo e companhia e tiveram que voltar mais cedo para casa. Provavelmente porque aquela comissão técnica com Luis Milla à frente, tivesse como referência do futebol japoneses a inverossímil série de desenhos animados japoneses “Campeones”. Talvez esperassem encontrar pela frente Oliver Aton e Benji Price, que nem nome de japoneses têm.

Edu: O certo é que o Japão de hoje tem muito mais respeito no cenário internacional do futebol do que há 10 ou 15 anos. Não foram poucas as seleções de primeira linha, além da Espanha, que passaram algum tipo de apuro contra os japoneses. E no ambiente que vão encontrar por aqui, esteja certo, estarão bem à vontade. No mínimo, esta Copa vai render mais um atraente mangá.

 

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