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Estratégias contra a ‘síndrome de Falcao’

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

28 de janeiro de 2014 | 18h52

Edu: Uma discussão que não tem fim de vez quando ganha combustível por aí. É o caso dessa história de o jogador preferir o clube à seleção, ou se poupar de um lado para evitar lesões e não prejudicar o outro. Estamos a 135 dias da Copa e o bicho vai pegar nas competições europeias e mesmo na Libertadores. Chegou a hora de vermos quem é quem.

Carles: Imagino os 32 selecionadores, todos os dias, mandando mensagens para as suas principais estrelas, feito mãezonas: “Cuide-se, coma direitinho, não se esqueça do agasalho e cuidado com o zagueirão!”

Edu: Imagino também os empresários e a família dizendo que quem paga o salário é o clube, portanto… Mas o impacto varia muito, cada cabeça é uma sentença. É só ver as diferentes reações de três jogadores de seleções de ponta que estarão provavelmente fora. Giuseppe Rossi, então artilheiro do calcio, ficou visivelmente deprimido depois da lesão grave que o tirou do Mundial, assim como Radamel Falcao, que ainda tem uma pequena chance de disputar a Copa do lado de sua casa. Mas Teo Walcott, titular indiscutível da Inglaterra, por suas declarações estava muito mais preocupado com perder a Premier e a Champions com o Arsenal.

Carles: A mim pelo menos não surpreende. A tradição e a honra de poder servir a seleção nacional é mais evidente nos países sul-americanos e vai decrescendo de importância na medida em que nos dirigimos à Europa. Esse entusiasmo é bem mais reduzido nas culturas anglo-saxãs. Também acho que se a história tivesse tido outra trajetória no continente americano esse “amor” pelas cores nacionais possivelmente seria de uma outra intensidade. Do outro lado, tem o excessivo zelo por quem paga o salário que nem sempre merece tamanha dedicação. E tudo isso, lógico, tem o seu reflexo nos meios informativos. No caso hipotético de que a Premier continuasse em disputa durante a Copa, provavelmente o campeonato local teria espaços muito maiores que a disputa entre seleções.

Edu: Esse fator cultural, de latino ou não latino, é uma explicação padrão para quase tudo no futebol. Mas acho que envolve outras coisas além da  aparência de ‘amor’ às cores da pátria. O jogador de verdade sonha em disputar uma Copa, não é possível que não. O cara é escolhido entre centenas para uma seleção – esqueçamos as cores. Passa por um crivo pessoal, familiar, da mídia, da torcida, uma concorrência brava. Chega à seleção e pode disputar um Mundial, bem ou mal um obstáculo diferente na sua carreira, enriquecedor, muitas vezes transformador. Se o sujeito não quiser isso, é um jogador incompleto, será sempre incompleto. E não tem nada a ver com cantar ou não cantar o hino, ainda que muitos treinadores continuem batendo nessa tecla do patriotismo por não terem argumentos melhores.

Carles: Deixar de cantar o hino pode, de alguma forma, ser uma maneira de  manifestar desagrado contra políticas oficiais de segregação encobertas, por exemplo. No caso da seleção espanhola essa polêmica não tem vez já que o hino não tem letra. Não imagino gente como Xavi, Piqué ou Víctor Valdés cantando. Eles nunca se definirão como espanhóis e no entanto não se cansam de confessar publicamente a honra de terem sido selecionados entre todos os participantes da seu meio profissional. A maioria somos educados em meio à competitividade e o reconhecimento e o destaque parece uma vitória pessoal. Duvidosa é verdade, mas parece ter um saborzinho especial. Isso é fato. Mas também é fato que é menos dramático para um inglês não poder defender a seleção nacional do que para um brasileiro. Se bem que, no último domingo, fiquei impressionado com os 15.000 dinamarqueses presentes no Jyske Bank Boxen, na cidade de Herning, cantando o hino nacional à capela, antes da final do europeu de handebol contra a França. Sem dúvida um invento brasileiro, copiado pelos aparentemente frios nórdicos. Claro que por aqui esses eventos são marcados, estrategicamente, fora dos grandes centros urbanos, de preferência em redutos com maior sentimento nacionalista. Mesmo assim, não deixa de ser surpreendente.

Edu: Bom, o caso dos ingleses é patológico, porque como não ganham nada com a seleção se esforçam em mostrar esse desinteresse. E sobre se poupar ou não, a ‘síndrome de Radmel Falcao’, não vejo jogadores como Cristiano Ronaldo, Diego Costa, Ribery ou os alemães (quase todos) pensando em se poupar. Também não acho que Neymar se pouparia, mas depois dessa traulitada ele pode até mudar de ideia e fazer como seu companheiro mais célebres de Barça. No caso do Brasil, ao menos aqueles poucos que ainda têm que brigar por vaga estão se matando, Kaká, por exemplo, anda correndo como doido. O que você faria como jogador muito bem pago por seu clube, mandava ver de todo jeito ou daria uma segurada básica?

Carles: Sou latino e meio brasileiro, o que você acha? Sonho ou não sonho em pisar o gramado do Maracanã para disputar uma final? Nem que fosse acompanhado de alguma faixa, feito o doutor Sócrates. Quanto ao Neymar, acho sim que ele vai tratar de se proteger e isso pode lhe custar algumas críticas da torcida culé. E se não, tempo ao tempo.

 

 

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