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Expectativa por Neymar vai além da conta

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

27 de julho de 2013 | 06h08

Edu: Neymar embarca hoje para sua nova vida. Provavelmente em função da expectativa gerada nos últimos meses, ‘El Pais’ publicou ontem um curioso artigo ¿Siguen vidas paralelas Apple y Barça? no qual o autor faz um paralelo entre a Apple sem Steve Jobs e o Barcelona sem Pep Guardiola. Numa linha de raciocínio um tanto pirotécnica, ele tenta mostrar que tanto a gigante americana quanto o clube catalão buscam neste momento não apenas uma grande novidade – não um iPhone revigorado ou mais um título da Champions, algo que ambos já apresentaram algumas vezes nos últimos tempos. O que eles querem agora é algo mágico, que transborde as expectativas, o que segundo Javier Martín, o autor, o Barça já encontrou em Neymar e a Apple continua buscando.

Carles: Provavelmente o maior acerto da comparação está na semelhança da construção das marcas. Ambas não se conformam em oferecer aos seus seguidores ou clientes aquilo que é meramente tangível. A escolha de um e de outro está de alguma forma relacionada com um certo inconformismo (se é que ter um Ipad possa ser chamado de inconformismo). Os seguidores dos dois parecem gostar de ser reconhecidos pelo seu gosto pelas rupturas, mas o complicado é produzir rupturas o tempo todo. Depois de um tempo, toda inovação passa a ser o habitual e fica difícil que esse compromisso seja mantido ou renovado. No caso do Barça, a aposta é por Neymar em vez de tentar solucionar os problemas crônicos da defesa, como lembra o artigo. A Apple contratou Paul Deneve, exdirigente da Yves Saint Laurent, produtora de glamour. Pelo jeito, a maior preocupação por lá não é propriamente o desenvolvimento tecnológico.

Edu: A ideia de algo que surpreenda, que cause um frisson especial, parece ter sentido em marcas conceituais tão valorizadas como essas duas. Mas é claro que essa é uma visão radical de mercado, não necessariamente do mundo do futebol comum, do torcedor propriamente. O fã do Barça quer novidades, claro, mas quer títulos sempre, algo que pela tese do nosso amigo Javier se tornou banal. Títulos nunca serão banais. Vá perguntar ao torcedor Barça se vencer o Real Madrid e ser campeão é algo dispensável para ver o que ele responde.

Carles: Dá um desconto para o Martín porque a praia dele é tecnologia. Se bem que às vezes ele força a barra para traçar o paralelo entre destinos, é interessante como estabelece os parâmetros dessa ambição em comum através números, de títulos no caso do Barça e das vendas da Apple. Ambos caíram e mesmo assim os níveis são invejáveis. Quiçá porque os tetos que os dois estabeleceram para si mesmos são bastante complicados de repetir. Apple chegou a ser a marca de maior valor do planeta superando clássicos (e talvez esse seja o problema deles) como Exxon, Coca-Cola ou Microsoft. O Barça foi campeão de tudo, considerado o melhor time do mundo pela maioria da gente de todos os continentes! Títulos não são banais, lógico. Nem vendas, suponho. Mas essas são “só” as obrigações e aí, provavelmente, reside o diferencial de ambos com relação ao resto, surpreender e ir mais além das melhores expectativas.

Edu: Dizer que aquilo que o Barça de Guardiola fez gera uma obrigação é bonitinho como retórica, mas o futebol não é assim e quem vive disso sabe muito bem, o torcedor inclusive. É claro que a Apple ao analisar em seu balanço anual não vai se bastar com o lucro de sempre e quer surpreender nas propostas para, no fim das contas, lucrar mais, e não para parecer lindona nas fotos. Por outro lado, o torcedor do Barça – talvez não a mídia, mas o torcedor sim – sabe muito bem que aquele ano sideral de Guardiola foi um disparate, uma exceção, e que o mundo do futebol não é assim, que há outros tipos de satisfação que não os mecanismos de ganância da digníssima Apple. Por outro lado, concordo que Neymar é uma aposta em algo inovador, mas que fique claro: é uma aposta, não é garantia de nada.

Carles: No final de 2012, a cotação de uma ação da Apple era de 705 dólares e seis meses depois caiu em 45%. No seu ano sideral, Pep conquistou todos os títulos possíveis. Não fiz as contas, mas a queda do número de títulos no resto de quinquênio também é considerável e, mesmo assim, ele deixou saudades entre os fiéis ‘culés’. Pelo que comentamos até agora, dá a impressão de que os piores inimigos, tanto de blaugranas como dos moços da maçãzinha, seriam eles mesmos, pelos números estratosféricos alcançados nas temporadas de pico. Só que Google e Real Madrid seguem trabalhando e acho que é justamente isso que nossos protagonistas precisam, ter de novo a referência do “inimigo” que, por momentos, eles próprios riscaram do mapa. Ter os rivais de volta pode ser a melhor notícia para retomar o curso. Neymar já é uma realidade, testada e reconhecidamente válida. Já os últimos projetos da Apple…

Edu: A vantagem – ou desvantagem – da Apple é que o chefe não está mais aí para reclamar da falta de criatividade dos novos executivos. Enquanto, no Barça, Guardiola já deu sinais de que vai continuar boquejando.

Carles: Pois eu acho que o fantasma de Jobs segue pairando sobre a empresa que fundou. Não que eu creia nisso, mas o mito criado em torno dele só fez crescer quando a empresa experimentou sua primeira ausência, de amargas recordações. Com a volta dele, a Apple não só se recuperou como alcançou seus maiores êxitos e popularizou-se sem perder a velha aura. Desta vez, é irreversível. No caso do Barça, tudo se resolveria com a volta de Guardiola. Claro, ele teria que estar de acordo e, para isso, conviria que as coisas na Alemanha não fossem demasiado bem. Só para lembrar, enquanto Jobs esteve fora da Apple, alcançou uma série de relativos fracassos, se bem que criou a Pixar que realmente só foi rentável na mão de terceiros. Não serão ambos casos paralelos também na interdependência?

Edu: Se for assim, pobre Tata Martino…

 

 

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