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Filho bolão, papai longe disso

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

25 de janeiro de 2014 | 18h55

Carles: Pergunto: 1º) Se a principal causa da grande celeuma Barça-Neymar foram mesmo as “comissões” do papai Neymar – um “por fora” bastante generoso e independente do tamanho de cada fatia do passe do jogador – e a possível conivência de Rosell em troca da decisão de Neymar de vir ao Barça; 2º) Se o “seo” Jorge foi apanhado com a mão na massa no caso dos Messi e as suspeitas sobre sonegação de impostos. Por tudo isso, é razoável pensar que os papais ainda têm muito que aprender com os agentes na hora de apagar as pegadas?

Edu: Tem todo o jeitão de que foi isso mesmo. Aí tem uma mistura de superproteção, falta de gente qualificada e confiável para gestão de carreiras, ganância e outras doenças desse tipo. Sempre ficamos em dúvida se o jogador está ou não está preparado para enfrentar a Europa e aí logo percebemos o quê: o carinha vai lá e faz a parte dele muito bem, enquanto o entorno familiar, que teoricamente deveria dar suporte emocional, pisa na bola feio. E às vezes nem é por má fé (mas às vezes é).

Carles: Bom se não é má fé, pelo menos é ambição, e muita! Porque os salários estabelecidos num contrato desses parecem suficientes para mudar consideravelmente a vida de toda uma família, como dizia no outro dia o “seo” Iniesta, sem a necessidade de comissões em transferências mirabolantes.

Edu: Depois que o novo presidente do Barça abriu o jogo e divulgou as cifras supostamente exatas da compra do Neymar, tenho a impressão de que ainda muita água vai rolar nessa história. Neymar Senior sempre pareceu um tipo centrado, mas nessas horas, com um Barça pela proa pressionado pelo Real Madrid, nunca se sabe onde pode chegar a ambição do sujeito. Como sabemos que não tem santo nessa brincadeira…

Carles: Bartomeu, o novo presidente culé e homem de confiança de Rosell, deixou claro que antes de esmiuçar as contas, precisaram conversar com papai Neymar para que este desse a sua permissão. O que leva a crer que, num princípio, não havia intenção de total transparência e deixa a dúvida de se ainda tem algo debaixo desse tapete. Provavelmente não, visto a repercussão até aqui do caso. Imagino que com a Receita Federal do Brasil tudo bem, né? Quanto a valores declarados, quero dizer.

Edu: Opa, tudo bem nada. Tem muita gente querendo ver isso esclarecido, eu também, e você e as torcidas todas. O Santos está ‘mosqueado’ porque acha que foi o marido mais enganado da história e também deve pedir alguma explicação, justificativa, investigação, sei lá. O staff de Ney no mínimo deveria, por iniciativa própria, esclarecer tudo isso, sob pena de o dique estourar e sobrar tudo nas costas do garoto.

Carles: Desconfiei mesmo que a coisa ia longe. Tomara que tudo fique esclarecido e que o Brasil possa se livrar dessa fama de paraíso de impunidade e de terra de ninguém. E no caso do Barça, fica longe no tempo aquele clube que fechava com os futuros craques assinando num guardanapo de papel, como foi com Messi, em tempos de Carles Rexach e de Josep Maria Minguella. Se não chegavam a ser modelos de conduta, lembro bem como se recusaram, por exemplo, a trazer o zagueiro Cris do Corinthians – que acabou no Leverkusen e depois fez carreira em Lyon – justamente por causa de uns misteriosos “por fora” que então pareciam muito estranhos e que dão a impressão de terem se normalizado na era Rosell.

Edu: Por enquanto a única ‘terra de ninguém’ é o reduto de Rosell e companhia, que cometeram os delitos, porque do lado de cá até agora são só suspeitas, agravadas por esse estigma da impunidade que virou sobrenome dos brasileiros, principalmente sob certos pontos de vista. E o ‘por fora’, você sabe muito bem, é supranacional, depende de seres humanos corruptos e corruptíveis, mais do que de sistemas. Estamos caminhando para um assunto movediço para os dois lados.

Carles: Acredito em você e por isso acho que é hora de acabar com essa injusta fama unilateral. Meu medo é que justamente casos como este façam ressurgir os velhos estereótipos de corruptos e corruptores que há séculos perseguem as relações entre o novo e o velho mundo, tão reforçados pela desinformação e preconceito, como os de um velho e rançoso cinema B em que todos os golpistas em fuga do mundo compravam uma passagem para o Rio. Espero que tudo isso fique definitivamente enterrado junto com Biggs.

 

 

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