Fora do jogo, o 365 a.C.
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Fora do jogo, o 365 a.C.

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

14 de junho de 2013 | 06h28

 

Fotos: Espacio de Color ®

 

Edu: Minha humilde vivência em Copas do Mundo e em outros torneios internacionais importantes me ensinou que muito do que parece ser, em um evento desse porte, de fato não é. Explico. As grandes obras viárias, a construção de hotéis, a maquiagem sofrida pelas cidades e questões ligadas ao trânsito e à infraestrutura de saúde e fornecimento de energia são importantíssimas, mas, acredite, não têm tanto peso específico no momento em que o visitante faz seu julgamento sobre a organização. É claro, são temas fundamentais para quem vive aqui, mas para o turista podem ser compensados por outros serviços. O que quer dizer, por outro lado, que nossos incontáveis gargalos sociais não serão e nunca seriam resolvidos por uma Copa do Mundo. Não acredito que alguém tenha essa ilusão.

Carles: O público que virá, provavelmente não tem tantos reparos assim em gastar ou consumir, nem responde ao perfil dos que tem a expectativa de encontrar por estruturas e serviços socializados. Mesmo assim, as comparações costumam ser inevitáveis e acredito que existe uma evidente desconfiança. Se considerarmos que existe a tendência mundial é a de reduzir a oferta de serviços públicos e que o Brasil aumentou consideravelmente seu investimento em infraestruturas, as sensações poderiam ser surpreendentemente positivas. Sai com vantagem quem tem um menor déficit. O exemplo é Londres, cidade cantada como ‘modélica’ quanto a oferta de serviços, mas na que se paga por tudo, e muito bem!!! Quanto aos imprevistos, parecem inevitáveis em um evento desse porte. Convém evitar os mais previsíveis.

Edu: O Brasil testa a partir deste fim de semana sua capacidade de construir o maior acontecimento do futebol e tem ainda, nessas questões de infraestrutura, gravíssimos entraves. Começa daqui a exatamente um ano e se pensarmos que o próprio comitê organizador afirmou que a Copa está 50% pronta é sinal de que a coisa anda feia mesmo. Mas sabe o que o torcedor mais preza? Não é o aeroporto funcionando redondo nem o trânsito livre ou um hotel de máxima categoria, embora isso mexa com seu humor eventualmente. Tanto o turista do futebol quanto quem trabalha no evento quer, principalmente, duas coisas: ser bem tratado pelas pessoas e ter segurança. Quanto ao resto, ele se vira. Não é o ideal? Mas não é desesperador, é o que temos.

Carles: É o que eu disse, é um público com um nível de exigência determinado e disposto a pagar por isso. Claro, quer se sentir seguro. Nesse ponto, além dos riscos reais, pesa um certo alarmismo sobre as questões de segurança no Brasil, difíceis de superar. Isso não vai mudar até a Copa, quem vai, vai desconfiado, e o evento é uma grane oportunidade para mudar ou pelo menos amenizar essa sensação. Se tudo correr com normalidade, haverá menos críticas. Se as expectativas forem superadas, pode haver uma melhora considerável da imagem, inclusive para os próprios brasileiros.

Edu: Não acredito, por exemplo, que as seis sedes da Confecup venham a apresentar problemas de hospedagem ou déficit de serviços, como restaurantes e bares, locais para visitação, programação cultural. Lógico que a alta dos preços, abusiva em alguns lugares, vai provocar reclamações. Mas o cara que aumenta acima do normal o custo do serviço vai se dar mal duplamente: perde o freguês imediatamente para a concorrência e não receberá o visitante durante a Copa no ano que vem. Um sujeito que vem de fora vai valorizar mais o fato de que alguém o ajudou, foi delicado e solícito, do que um congestionamento aqui e outro ali. O agravante, neste caso, é que a preparação dos voluntários foi muito deficitária. No Rio, por exemplo, os próprios jovens que se propuseram a ajudar estão sentido falta de suporte dos organizadores.

Carles: O pensamento condutor nesses casos deveria ser de que tudo que for construído ou melhorado na infraestrutura direta ou indiretamente implicada não deve ser cenografia para inglês ver, mas, sim, um legado social. Um ideal difícil de cumprir plenamente, mas recomendável. Por outro lado, os aspectos aos que você se refere, parecem-me dentro da previsibilidade. A quantidade de hóspedes e uma projeção da demanda de refeições são dados que não deveriam representar uma grande incógnita, pelo menos dentro de margens de erro razoáveis. Do contrário pode ser percebido como negligência e falta de planejamento, mesmo considerando que a responsabilidade em grande parte caiba à iniciativa privada, isso sim, sob incentivos da administração pública.  Talvez a maior dificuldade seja de teor político. À distância, o Brasil parece um paiol de pólvora, repleto de disputas políticas, de alianças esdrúxulas que dificultam a unificação de esforços e até uma avaliação objetiva dos resultados, pelas ganas ao benefício político. É um processo de amadurecimento desejável, mas de difícil compatibilização com os eventos.

Edu: Esse é, de longe, o maior problema em um processo de gestão desse porte: o curto circuito dos interesses políticos. Uma outra questão, ligada à tecnologia, também pode trazer dificuldades. Se algo não funcionar em telecomunicações em alguma das sedes poderá prejudicar em especial os profissionais. Jornalista é bastante intransigente com isso, com razão. Mas também nesse caso, tudo tem jeito se por perto estiverem especialistas tanto na área técnica quanto no tratamento e no atendimento às necessidades dessas pessoas.

Carles: Também sou intransigente com isso. As conexões não podem falhar, são o único contato com o espetáculo d que que disporá o espectador virtual, que multiplica por milhões o número e turistas. Internet tem que oferecer, no máximo, a precariedade à que estamos acostumados por aqui. Não pior. Portanto, considero uma questão prioritária. Há ainda questões preocupantes como o trato da polícia com a massa de público à entrada dos estádios. Por mais que se treine, existe uma marca cultural, miliciana e militarizada, assimilada pela população mas estranha à maioria dos visitantes. Isso não vai desaparecer do dia para a noite.

Edu: Quanto aos estádios, vejo preocupações bem menores. Haverá problemas, é certo. Provavelmente uma ou outra seleção irá reclamar do gramado. Até na organizadíssima Alemanha, em 2006, houve dificuldade de fluxo de público e quedas de energia e comunicação em um ou dois dos estádios novíssimos de então. Isso não exime, mas de certa forma justifica o que pode ocorrer em praças esportivas recém-inauguradas. O fato é que os estádios de Belo Horizonte, Brasília, Salvador e Fortaleza, por exemplo, já foram bem testados nas últimas semanas e os organizadores têm elementos para fazer a coisa funcionar sem grandes dificuldades, inclusive questões de acesso e segurança do público e de quem trabalha – jogadores, imprensa, pessoal de apoio e produção. Se não fizerem, é por pura incompetência administrativa.

Carles: Tem razão, as falhas acontecem nas melhores famílias, só que estas já têm o perdão prévio, pelo menos quanto às questões básicas. Em alguns casos, a expectativa já é a pior possível, em parte por preconceito, em parte graças a motivos reais. Só que nem começou o evento e tem muita gente prevendo o pior. Por isso eu acho que a eficiência deve ser maior do que a da Alemanha ou da Inglaterra. Nem que seja para calar algumas bocas.

Edu: Pois é, há uma certa incerteza quanto ao Maracanã, não do lado de dentro, mas nas cercanias, alguns acessos difíceis, uma preocupação também notada no novíssimo estádio de Recife. Mas os responsáveis prometeram uma blitz nos últimos dias para corrigir deficiências no que diz respeito à sinalização e aos serviços de informação e orientação por conta dos voluntários.

Carles: Apesar das promessas, provavelmente muita coisa ficará para ser resolvida ou remediada em cima da hora. E sempre haverá jornalistas buscando uma visão exclusiva do evento, como as fotos dos operários uniformizados cochilando em meio às obras que um jornal britânico publicou. Isso somado ao atraso no cronograma é como somar dois mais dois. Nessas horas, ninguém considera aspectos climáticos ou culturais tais como a dificuldade dos operários em voltar para casa no meio da jornada para almoçar e descansar um pouco. É mais apetitoso reforçar as insinuações sobre um estereotipo, carregado de preconceitos quanto à negligência, a indisciplina e ao caos.

Edu: Aos organizadores, o que resta, então, é que tudo isso esteja mais ou menos equacionado, que o pessoal especializado e treinado realize suas tarefas de relacionamento humano – fornecimento de serviços, informações, orientação, tradução, apoio logístico. Mas todos ficaremos em alerta quanto ao problema sério da segurança. Não é problema exclusivo do Rio, onde no amistoso contra a Inglaterra houve alguns incidentes, envolvendo inclusive um jornalista britânico. Ontem mesmo, o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, manifestava abertamente sua preocupação com a segurança pública, o que é um péssimo sinal quando falta apenas um ano para a Copa. Se o trânsito complicar, se houver problemas de acesso, se os hotéis e restaurantes subirem seus preços, o turista-torcedor vai chiar, mas é o que ele faz sempre, em qualquer lugar. Ainda assim, insisto, são problemas que podem ser amenizados com um bom tratamento e muita informação. Agora, se houver um assalto, um furto que seja ou incidentes mais graves – dos quais não estamos livres neste país -, aí sim a Confecup estará comprometida e, obviamente, com reflexos diretos em 2014.

Carles: Sejamos positivos, pois.

 

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