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Futebol e Dadaísmo

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

30 de março de 2013 | 08h52

Carles: Em uma entrevista com Rivaldo quando esteve jogando em Angola, a jornalista Rut Vilar da revista Líbero não pôde deixar de relacionar as queixas dele próprio quando esteve em Barcelona, com as de Cristiano Ronaldo em Madrid recentemente, declarando que não se sentia feliz. Considerando que os jogadores de futebol não são um exemplo de consciência social nem laboral e muito menos os citados exemplares, até que ponto existe uma relação entre inconsciência e felicidade no entorno do trabalho profissional?

Edu: Não sei exatamente que jogador foi o pioneiro nessa afirmação – Ronaldo Fenômeno, Rooney e o intratável Ibraimovich também vieram com essa justificativa em passado recente. Mas o fato é que virou moda o cara explicar uma má fase, ou o não reajuste do contrato, ou uma crise com o técnico com o argumento de que ‘não estou feliz’. Não acho que um atleta profissional, mesmo o de ponta, tenha toda essa consciência. Os problemas são mais mundanos mesmo – dinheiro, vaias da torcida, indiferença dos dirigentes. O cara quer é ser mimado sempre. Basta perguntar ao jogador que tem dificuldade de encontrar uma vaguinha no time se ele tem tempo de pensar se está ou não feliz…

Carles: Provavelmente não é a sua prioridade mesmo, mas a sensação de desequilíbrio pessoal relacionada com a insatisfação não é privilégio das grandes estrelas. Você não acha que deveríamos discutir, por um lado, o absurdo que possa ser que seres sociais receberam quantias desproporcionais por divertir-se num campo de jogo e, por outro, o atual estado de coisas nas relações do trabalho, as obrigações e a consciência sobre as próprias responsabilidade?… Não é por acaso que existe uma tendência a que o perfil de chefe favorito, incluindo os das equipes esportivas profissionais, seja o típico aspone, muito próximo ao capataz.

Edu: Os segmentos da sociedade que ainda sentem indignação com as aberrações nas relações trabalhistas – nos quais me incluo e a você também – discutem isso desde a Revolução Industrial, Carlão. Ok, precisamos mexer na sociedade, e muito. Falta ação e sobra debate…

Carles: O debate nunca sobra…

Edu: Como o futebol poderia ser diferente? Não acho que o sujeito que ganhe uma exorbitância no futebol tenha que ter mais ou menos consciência social do que o executivo de um banco internacional. Os dois são resultado das mesmas bizarrices do mercado. A diferença está em que um fez MBA, tem berço de ouro, bons cartuchos e ninguém sabe exatamente quanto ele ganha. Outro está ali todos os dias, de alguma forma dando a cara para bater – e de maneira muito mais transparente. Isso não é desculpa para a inconsciência social, lógico. Mas o jogador de futebol entra na selva com a mesma ganância que qualquer sujeito que traça como meta ‘vencer na vida a qualquer custo’.

Carles: Ou seja, a resposta ao sofisma sobre a felicidade e a ignorância é simplesmente a ganância? Ou em todos os casos enquadrados no sistema vigente profissional, do executivo ao atleta, isso que costumamos chamar de infelicidade deve-se à perda de conexão entre a função real de cada um na sociedade e todas as outras, as que vão se colocando na mochila pelo caminho? E não pelo incômodo da carga, mas pela falta de sentido de ter que carregar esse sobrepeso.

Edu: Simplesmente a ganância? Não tem nada de simples. A ganância explica metade das coisas no nosso mundo e tem relação indireta com a outra metade. É uma justificativa Carlão, não uma explicação que me satisfaça… Onde você quer chegar exatamente?

Carles: Eu quero chegar onde já chegou faz tempo um monte de gente, não é nenhuma novidade, falaram disso Platão, Sócrates, Karl Marx, Engels e Charles Chaplin, em ‘Tempos Modernos’, enquanto apertava parafusos numa fábrica sem conhecer a finalidade daquilo. Não quero chegar a nada novo, senão refrescar o que muitos esquecemos todos os dias. E nada melhor que durante uma conversa sobre futebol.

Edu: Tenho a impressão de que estamos falando mais ou menos as mesmas coisas, mas vamos lá. Vou voltar aos jogadores de futebol e tentar sintetizar o que penso sobre a noção que eles têm de consciência trabalhista. Há tanta gente despreparada cultural e intelectualmente que fica difícil pinçar o futebol desse contexto. O futebol é a sociedade. É composto de gente do tipo que encontramos na sociedade. E ponto.

Carles: Em nenhum momento eu disse o contrário…

Edu: A diferença é que o jogador está mais na mídia, tem um certo status, que no fim das contas se revela frágil quase sempre, mas aí já é tarde, o mal está feito. Os defeitos e as poucas virtudes são comuns à sociedade. O futebol tem meio bilhão de trabalhadores no mundo. Outro bilhão e meio é composto das pessoas que vivem nesse entorno – famílias, consumidores, setores produtivos com ligação indireta. E há mais uns 2 bilhões que são meros adeptos, seguem sem muita rotina o futebol. Isso é uma megassociedade da qual os jogadores de ponta são uma minúscula partícula. Portanto, não representam uma classe especial embora considerem que sim, e devem ser cobrados como qualquer um de nós.

Carles: Bom resumo da nossa conversa. Estou de acordo: o futebol é parte da sociedade e uma amostra evidente dos seus mecanismos mais perversos (e dos menos idem). Outro ponto em que coincidimos: a diferença é que o mundo esportivo de alta competição está mais exposto que a grande maioria de contextos laborais. O que eu propus foi só um exercício simples e até lúdico de conscientização, aproveitando essa exposição diária do microcosmo esportivo fazendo uma projeção ao “mundo real dos mortais”. Ou seja, estamos basicamente de acordo (também não disse que não a isso, hehehe)

Edu: Que bom. Da minha parte encerro por aqui porque a essas alturas o leitor já se mandou para algo mais divertido em pleno Sábado de Aleluia.

Carles: Não teria por que, posto que o assunto aqui é ressurreição e essas coisas.

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