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Futebol e tradições distorcidas

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

24 de março de 2013 | 08h03

CarlesSei que a sua visão do futebol é bem romântica, então imagino que você nunca estaria de acordo que ele é um dos mais poderosos instrumentos de colonização, corruptor de identidades, não é?

Edu: Acho exatamente o contrário quanto a identidade. Sobre colonização, eventualmente concordo.

Carles: A minha pergunta se deve a que, segundo uma pesquisa realizada pela Facultad de Comunicaciones de la Universidad de La Havana, a maioria dos cubanos menores de 40 anos mostraram maior entusiasmo com o futebol do que com o beisebol, tradicional esporte daquele país. Qual deles estaria mais ligado à identidade cubana? Sem dúvida o futebol foi adotado pela indústria cultural para ser um produto globalizado, de fácil assimilação e consumo. Mas o beisebol poderia ser uma clara influência norte-americana, responde ao típico modelo esportivo ianque, fundamentado na atividade física, mas sob uma estratégia quase de tabuleiro.

Edu: Você disse tudo: o futebol ‘foi adotado’ pela indústria e não ‘nasceu’ para ser indústria. Defendo há muito tempo a ideia de que existem dois tipos de futebol, o ‘essencial’ e o ‘de mercado’. O segundo não vive sem o primeiro, mas o primeiro continuará sobrevivendo sempre, tem vida própria, independente do que o mercado possa fazer.

Carles: Então você concorda com a hipótese da minha primeira pergunta… o futebol é (ou pode ser) um poderoso instrumento de distorção das identidades e das raízes. Impositivo, na medida em que se possa considerar invasivo, como todo convencimento através da massificação.

Edu: Massificado e, portanto, invasivo, talvez. Mas não vejo necessariamente como instrumento de distorção de identidades. O futebol pegou onde havia identificação com um esporte de tonalidade popular, ou seja, alguma ligação de raiz, cultural. Por que você acha que o futebol até hoje não pegou em lugares como Estados Unidos, Canadá e parte do Caribe, ou mesmo na China, em que pese a fortuna despejada para sua massificação nesses lugares? Não é um problema cultural, de identificação? Não é uma barreira de raiz? Se o futebol massificado, ou futebol de mercado, não dependesse da identificação, os Estados Unidos seriam o país com maior número de praticantes se levarmos em conta as muitas tentativas de se forjar aquele mercado. Acontece que, ali, falta a essência.

Carles: Vai pegar, vai pegar, não se preocupe. É claro que as aptidões naturais facilitam a implantação, além de outros fatores. O futebol é simples de seguir, não tanto de praticar, por isso pode ter sido o grande escolhido. Quanto aos norte-americanos, seguramente, não se consideram suficientemente populares para o “soccer”, que claramente menosprezam, como uma prática menor. Contudo é inegável que existem focos pelo país, ligados às colônias europeias e latino-americanas, que sustentam a escassa prática do futebol por lá. Nesse caso segue havendo uma conexão com as raízes culturais. É um nítido caso de resistência à imposição, valendo-se justamente do futebol (ou soccer).

Edu: Claro que existem focos, e muitos. O futebol feminino ali é um dos mais desenvolvidos do mundo. Mas, Carlão, é muito complicado ser tão artificial como você está dizendo e dar certo, digamos, tecnicamente, trazer resultados e, portanto, a visibilidade que impulsiona o mercado.  Agora, é claro que o futebol tem mais chance de pegar e talvez essa seja a razão que ajude a explicar a sua tese do início da conversa, sobre Cuba. Mas pense na América do Sul do início do século XX. O futebol chegou aqui por uma via colonialista, os ingleses. Aqui, na Argentina, no Uruguai. Era uma prática elitista, porque ninguém sequer conhecia as regras, a não ser os estudantes privilegiados que passavam pelas escolas britânicas. Por que pegou no povão? Por que não ficou restrito à elite? Por imposição cultural? Por causa de algum marketing rudimentar que existia então e nós desconhecemos? Claro que não. Pegou porque o pessoal descobriu uma manifestação com a qual se identificava. Ao contrário, aos poucos, a elite é que foi sendo excluída e se tornou cada vez mais minoria nesse esporte.

Carles: Sem dúvida que então houve uma maior propensão à aceitação. A indústria cultural engatinhava. Talvez possamos considerar a imitação como motivadora ou a tentativa de ascensão social já que era o esporte das elites. Mas eu não discuto a fascinação que o futebol desprende. Isso é inegável. O crescimento na América do Sul tem pouco ou nada de impositivo. Faz parte da gênese de um esporte que nasce na Europa, mas que alcança a puberdade, fase em que desabrocham a curiosidade e a criatividade, no continente americano. Poderíamos dizer que é um ressurgimento ou reinvenção sem o qual o futebol não seria o mesmo. Poucos negarão que é o maior esporte de todos os tempos. Eu não me atrevo a negar essa evidência. O problema é que ele desloque tradições e obstrua a possibilidade de que jovens conheçam a prática poliesportiva e possam escolher dentre a pluralidade. Isso acontece mais em alguns países que em outros.

Edu: Nesse caso, vejo uma dinâmica natural e legítima, embora seja de se lamentar. Claro, o garoto que conhece só o futebol pode ter deixado de ser um excelente nadador ou praticar  outro esporte mais ‘saudável’. Mas qual é a solução para isso? Se os sistemas educacionais funcionassem de uma forma mais plural – e nesse ponto os americanos sabem fazer -, os esportes seriam ensinados na escola, no mundo inteiro. Talvez seja a única saída. Talvez…

Carles: Nas escolas, nos centros culturais e esportivos municipais de cada bairro. Não sou contra o futebol, mas defendo a mesma oportunidade para que os moleques conheçam e possam se apaixonar por outros esportes. Provavelmente, ainda assim o futebol teria todas as chances e ser o vencedor. Um justo vencedor.

Edu: Me parece que o maior romântico aqui é você.

Carles: Nunca neguei.

 

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