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Futebol em estado puro, elétrico e imprevisível

LUISITO, CELESTE OLÍMPICA, ENGLISH TEAM: NUNCA DUVIDEM DE UMA COPA

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

19 de junho de 2014 | 20h37

Edu: Pois se havia alguma suspeita, o futebol se encarregou de transformar esta Copa em uma competição elétrica, às vezes alucinante – um Mundial de verdade, que permite até alguns desvios de rota como a campeã do mundo eliminada logo cedo e a mais digna Inglaterra dos últimos tempos virtualmente fora também.

Carles: A campeã do mundo está até agora procurando o botão onde aumenta a rotação. O English Team teve a coragem que não teve a Espanha, começar a renovação antes da Copa e ofereceu dois dos melhores jogos da Copa. Ironia do destino, estão com pé e meio fora e o veterano Gerrard teve que que se render à genialidade do companheiro de clube que com seus gols revive o fantasma celeste.

Edu: Fizemos alguns dias antes da abertura um post, “Que espécie de futebol veremos nesta Copa”, no qual se enquadram ao menos 70% dos jogos disputados até agora. Falávamos principalmente de um Mundial com fusão de estilos, que privilegiaria a intensidade, mas que não renegaria os talentos. Houve um coquetel de tudo isso em especial no jogaço de hoje na Arena Corinthians. Com o alerta mais vivo do que nunca: não brinquem com a Celeste. Ao qual eu acrescentaria: nunca duvidem de Luisito Suarez. Nem da Copa.

Carles: Decisivo e agradecido, fez questão de apresentar em sociedade o fisioterapeuta da Celeste, a quem considera responsável pela possibilidade de jogar a Copa. Grande jogo também de Cavani, muito mais trabalhador que espetacular e com destaque aos dois tempos distintos dos charruas, marcados perfeitamente pelas escolhas de Tabárez. No primeiro, querendo a bola com Nico Lodeiro em campo (jogando em casa!!!) e, no segundo, muito mais do jeito uruguaio de ser, simbolizado pelo estilo Pereira, com nove jogadores de campo por trás da linha da bola.

Edu: Um amigo que mandou para as redes sociais uns flagrantes do estádio conseguiu mostrar parte do encantamento geral da plateia pela qualidade da partida, inclusive por parte dos ingleses – que certamente afogarão a derrota sem maiores traumas nos bares da Vila Madalena. O público interagiu intensamente com as mais dramáticas cenas do jogo, o gol-desabafo de Rooney, a entrega física de jogadores como Arélavo Ríos e Godin, o choro compulsivo de Luisito, o abraço ao fisioterapeuta Walter Ferreira. E olha que nesse grupo ainda falta um arrebatador Uruguai-Itália, com a Costa Rica à espreita.

Carles: Arrisca um palpite nesse grupo?

Edu: Claro que não, ainda tenho um restinho de juízo.

Carles: O jogo de amanhã entre os co-líderes Itália e Costa Rica se não for decisivo, deve por as cartas em cima da mesa. Uma vitória não classifica ninguém ainda mas ter seis pontos nesse grupo seria uma proeza. E um empate só faria oficial a volta dos ingleses para casa. Se esta Copa teve algo de diferente foi que a curva de emoção não foi ascendente, como de costume, em que a fase de grupos costuma ser morna e com tempo para os adversários se estudarem. Desta vez quem especulou, dançou. Em parte, pela grande quantidade de seleções campeãs, em parte pelos critérios e pelo próprio sorteio Valcke-Fernanda Lima. A sensação com menos de duas rodadas jogadas é de que já levamos mais da metade da Copa com muito espectador esgotado, não de ver bom futebol, mas pela intensidade com que se está jogando e pelas poucas chances para recuperar o fôlego.

Edu: E há um conjunto de ingredientes que poderiam dificultar, mas que estão funcionando como doping positivo: as dificuldades de clima e de deslocamento, a variação dos cenários, o encontro de torcidas que revivem velhas rivalidades. A mesma febre energética que se viu em São Paulo acompanhou o embate de Brasília, entre Colômbia e Costa do Marfim, com jogadores ligados no 220. Não tenho dúvida de que as desconfianças histéricas de meses e meses acabaram funcionando como um revigorante para a demanda represada de entusiasmo que vemos agora.

Carles: Eu mesmo desconfiei de uma Copa tão espalhada geograficamente, mas sou obrigado a dar a mão à palmatória e reconhecer que o tour e a possibilidade de mudar de cenário, relacionar-se e apresentar-se diante de públicos tão diferentes, parece, só tem estimulado as delegações. Pelo menos, a maioria delas.

Edu: A ponto de a torcida de um concorrente improvável, a do México, ter visivelmente intimidado a maioria composta pelos donos da casa no empate contra o Brasil em Fortaleza. A impressão é de que os não latino-americanos viverão um inferno a cada jogo, como provaram as invasões de argentinos e chilenos no Maracanã (contra Bósnia e Espanha), de colombianos em Brasília e de uruguaios hoje em São Paulo. É futebol em estado puro.

Carles: Apesar de alemães, italianos e holandeses manterem o tipo até aqui, e que os belgas e franceses ainda não decepcionaram, é praticamente impossível que o troféu mundial que nunca saiu do continente, decida, desta vez, sair para uma excursão transoceânica de quatro anos. A coisa definitivamente, fica entre vizinhos.

Edu: Quero ver você manter essa certeza com mais uma meia dúzia de jogos. E, de qualquer jeito, a festança estará garantida, sem hora pra terminar. Para a rapaziada que está rumando para a Vila neste momento esteja certo que dá no mesmo quem ganha ou deixa de ganhar.

Carles: Nesse clima, imagino que até a espanholada vai entrar na festa e comemorar. Só para compensar a longa viagem.

 

 

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