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Gramados decentes, por favor!

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

31 de agosto de 2013 | 09h26

Edu: Temos aqui um histórico menosprezo com a qualidade dos gramados, o que é um contrassenso se pensarmos nos estilos clássicos de jogo dos brasileiros, fundados na leveza, no toque e no passe. Pouca gente tem costume de ressaltar com todas as letras, e insistir nessa questão, que um bom gramado pode ser a diferença entre a vitória e a derrota, ou melhor ainda, a diferença entre o bom jogo e a pelada. Temos péssimos gramados, essa é a verdade, incluindo os de alguns novos estádios da Copa. É um das coisas que a Europa ainda tem a ensinar.

Carles: Provavelmente está relacionado com a tradicional falta de respeito às melhores condições de trabalho para qualquer profissional e já não falo de salário, mas de salubridade, iluminação, ergonomia. Quando e se isso começar, imagino que os primeiros agraciados serão os trabalhadores de “elite”, as grandes estrelas do futebol, por exemplo. Por ver o lado bom, tem o desenvolvimento de uma capacidade de superação, que fica demonstrada quando os jogadores chegam por aqui e, via de regra, encontram tapetes verdes onde podem demonstrar todo o seu talento. Geralmente, os clubes europeus trocam a grama uma vez por ano e por exigência dos treinadores, principalmente os times com a tradição de jogar com a bola no chão. Existem empresas especializadas, a profissão de jardineiro é algo levado muito a sério por aqui. Inclusive, pelo que eu sei, o gramado do novo Maracanã está sob a responsabilidade de um pessoal de Garrotxa na região de Girona, Catalunha.

Edu: Então, a Copa poderia ser um marco, não há situação mais oportuna do que essa. O gramado do estádio da abertura, em São Paulo, está sendo cuidado já há algum tempo, com sistemas de resfriamento, entrelaçamento e manutenção sofisticada, que nunca foram vistos por aqui. Mas é caso raro, talvez como o do Maracanã, que já está um tanto judiado depois da Confecup e agora com o Campeonato Brasileiro. Convenhamos que não passa de um cuidado aqui, outro ali. Não existe um marco regulatório para os gramados, a não ser umas providências insignificantes perto do que vemos pelos estados e em cidades do interior. Vai muito além das condições de trabalho, algo sobre o que nem mesmo os jogadores se manifestam muito. Fica aquela impressão de que ‘quem é bom joga em qualquer lugar’, uma falácia. E o torcedor também sofre com a qualidade do jogo.

Carles: É obvio. Se quem é bom joga até numa plantação de batatas, imagine sobre um veludo… É de se supor que as condições de umidade e as temperaturas façam variar as medidas necessárias para o tratamento e conservação dos gramados brasileiros comparado com os espanhóis. Só que eu diria que é a favor dos de vocês, parafraseando o velho e bom Melo Palheta,  nessa terra, em se plantando tudo dá… Outra coisa é a cultura de se cuidar da terra e dos seus produtos que, sem dúvida, é tradicional por aqui. E um mínimo planejamento, suponho. O Barça, que normalmente aproveita o verão para fazer a muda, este ano prorrogou um pouco e aproveitou esta semana para realizar a operação: na manhã seguinte ao jogo de volta da Supercopa da Espanha e aproveitando que, na sequência, o time joga fora emendando com a semana seguinte sem rodada. Como sempre, a grama vem em rolos, em caminhões refrigerados desde Bordeaux, na França, e basta isso, de duas a três semanas para a retirada e instalação do novo. Claro, com a pertinente supervisão e manutenção posterior.

Edu: Não consigo imaginar que não tenhamos por aqui algo parecido com esse know how tecnológico. Basta procurar, pesquisar. E a questão do clima, pelas inúmeras variações do imenso território, poderia ser um impedimento, mas não é, pelo que dizem os especialistas. É evidente que a grama do Nordeste tem que ser de outro tipo daquela utilizada nos gelados estados do Sul. Parece, Carlão, que é mais um problema conceitual, da pouca importância que os clubes dão a isso. É como o asfalto nos grandes centros urbanos: está ruim, então vamos remendar e tocar em frente porque a vida precisa seguir. No aspecto técnico é o mesmo desleixo. Aliás, quando um treinador ou um jogador usa o gramado como argumento, sempre fica aquela impressão de chororô por causa de uma derrota. Ninguém se toca de como o gramado pode ser decisivo num jogo de futebol.

Carles: Se você levar por esse caminho, vou ter que começar a reivindicar em nome dos até o outro dia esquecidos pesquisadores e um adormecido (um sono que começou justamente quando aqueles senhores de óculos RayBan anunciaram que o gigante tinha acordado) desenvolvimento de tecnologia própria. E falando nesses senhores, não posso evitar recordar o nosso Real Madrid, time do generalíssimo. Anotem aí: o gramado do Barnabéu vem da Alemanha, Holanda e Eslováquia, são necessários 484  rolos que chegam a Madrid em 22 caminhões para cobrir os 105 por 68 metros do campo. São empregadas umas 40 pessoas e o custo gira em torno aos 350 mil euros. Acho que é um investimento que vale a pena, se considerarmos que garante o espetáculo e é bem mais econômico que um só jogador, e daqueles considerados medíocres.

Edu: Vai dizer a um cartola daqui que é melhor trocar o gramado do que contratar algum cabeça de bagre por empréstimo para ver o que ele prefere… A verdade é que a exigência de qualidade dos gramados deveria fazer parte das regras do jogo, no mínimo como apêndices da regra, como acontece hoje com a questão dos uniformes, as exigências sobre a pressão da bola, o formato das traves etc. Mas, antes de tudo, os técnicos e jogadores deveriam participar dessa questão mais ativamente, estabelecer com os clubes um controle de qualidade periódico, inclusive quanto aos campos de treinamento. Quando muito, o que vemos hoje é o técnico preocupado em molhar o campo ou deixar de cortar a grama para tornar o jogo mais rápido ou mais cadenciado.

Carles: Como já te disse, aqui, os treinadores, mesmo que sob a forma de pressão, atuam sim, e especialmente porque é o emprego deles que está em jogo. Nessa questão da manutenção da grama do jeitinho que favoreça mais o jogo do seu time, também está presente a intervenção do treinador. Muitas vezes, como vimos Xavi pressionando algum administrador ou jardineiro no intervalo de um jogo, é motivo de preocupação também dos capitães. Assim mesmo, não me parece uma má ideia que seja regulamentado, pelo menos quanto às condições mínimas. Imagino que, então, passará a ser interesse de poderosas multinacionais, como no caso dos uniformes e bolas e, diretamente ou não, deixará de custar a bagatela de 350 mil ‘tacos’.

 

 

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