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Grandes lutas, pequenos frascos

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

14 de setembro de 2013 | 11h34

Edu: Ainda ecoa por aqui a abordagem que o zagueiro Paulo André, do Corinthians, fez há duas semanas no Fórum Nacional do Esporte, durante um debate com o presidente da CBF. Como tem uma retórica tosca, sempre convém a Marin ler os seus discursos, mas o homem quase engasgou quando Paulo André interrompeu para perguntar que planos a CBF tinha para melhorar a gestão dos clubes. O detalhe da história é que a mídia até hoje ressalta o simples fato de um jogador em atividade ter questionado o ‘senhor CBF’ e quase nada sobre o objeto da discussão em si.

Carles: Avis rara, o Paulo André, mas os meios difusores não deixam de não nos surpreender, não é mesmo? Ninguém engana todo mundo durante todo o tempo, já dizia um desses heróis de papel. Soube de algo assim por cima, mas não sabia que ele tinha desafiado o cartola dessa forma, cara a cara. Depois da engasgada, teve resposta, enrolação ou “depois a gente conversa que isso é assunto para longos devaneios”?

Edu: É para longos devaneios e certamente por isso a imprensa preguiçosa se fez de morta. O fato é que Paulo André é um cara muito querido por aqueles jornalistas que posam de ‘engajados’, mas raramente põem o dedo na ferida, preferindo a babação de ovo em torno de um cara que tem coragem de falar, é articulado e parece um dos poucos lúcidos nesse deserto de ideias. É algo que deve incomodar o próprio Paulo. Marin, obviamente, escorregou com aquele estilo de fazer política do auge do Malufismo, que você conheceu bem. Mas, como sempre, perdem-se ótimas oportunidades para se levantar outras questões para as quais o comando do futebol não tem respostas. Se nem o pretexto da Copa do Mundo levantou essas discussões por aqui, imagine a manifestação isolada de um jogador que sequer tem um respaldo sólido sua categoria.

Carles: Conheço muita andorinha que se não faz, começa algum que outro verão. Boa notícia ter gente como Paulo André num mundo tradicionalmente míope para as questões sociais, mesmo que específicas. Inclusive diria que o rapaz nada mais fez do que mostrar preocupação com o seu próprio setor de atividade, algo que deveria ser motivo de reflexão de todos os que vivem dessa teta, a começar pelos jornalistas especializados. Se ele não chegou a tirar nada do Marin e a repercussão quando à essência foi zero, o único que ele conseguiu, pelo que vejo, foi solidificar a própria imagem de “rebelde”. Isso também pode trazer algum que outro problema para ele que não tem o suficiente prestígio como futebolista para estar acima do bem e do mal. O que eu quero dizer, tendo em conta que a direção do futebol no país está nas mãos de gente com um passado turvo, não pode haver algum tipo de represália, principalmente quando a poeira do assunto baixar? E mais, a questão de fundo não teve nenhum eco sequer, mesmo que tímido?

Edu: Nessas alturas, quem tem moral para represálias? E suponho que, pelo seu jeito de ser, Paulo André não está nem aí com essa possibilidade. Nem a questão de fundo nem a questão de superfície tiveram o eco adequado. Se fosse só para ficar no fato de um jogador ter peitado um dirigente, no mínimo a mídia deveria ir atrás dos colegas, os que estão em atividade porque os aposentados podem falar qualquer coisa porque não têm nada a perder. Por que a imprensa não foi atrás dos líderes do diversos clubes? É preciso saber o que gente como Rogério Ceni, Seedorf, Alex, Gaúcho (afffh), Fred e sei lá mais quem acha dessa postura. É óbvio que muitos iriam pipocar, mas também é preciso ressaltar quem pipoca. E quanto ao tema de fundo, menos ainda. Ou você acha que a maioria do pessoal tem interesse em discutir responsabilidade social na formação de atletas e na gestão dos clubes? Temo que esse pode continuar indefinidamente sendo um assunto bissexto. Às vezes nem é por má fé, e sim porque pouca gente tem qualificação para essa discussão e prefere a crítica fácil, a porrada sem consequências, porque acaba livrando a cara dos ‘engajados’. Mas prometo que vamos levantar seguidamente essa bola neste nosso espaço.

Carles: Hoje o pessimista é você. É um bom sinal que pelo menos alguém questione e você sabe muito bem que num sistema social em que até a opinião é estratificada, como é o caso do Brasil, se o assunto vira tema do Jornal Nacional é o primeiro passo para a frivolização, daí vira campanha assistencialista com o tom piegas da vênus platinada e perde toda e qualquer contundência. O que eu acho é que a repercussão deve ser medida mesmo é pelos veículos alternativos, esses que cada vez mais gente lê e, pasme, informa-se. As grandes lutas vêm nos pequenos frascos. É importante o apoio de jogadores aposentados, sim, desde fora da roda viva eles têm melhores condições de refletir. Alguns procuram se preparar melhor nesse aspecto quando deixam o futebol, como é o caso de Cañizares por aqui.

Edu: Mas você não pode enfrentar as coisas de forma tangencial sempre. Intuitivamente, e também porque tem alguma consciência política, o que Paulo André propôs foi que o mundo do futebol atente para questões muito básicas que não são tratadas a fundo. É lógico que parte da imprensa tentou alguma coisa para seguir no tema, mas foram tiros curtos, que acabam com duas ou três intervenções no Facebook, meia dúzia de tuitadas e já passamos ao tema seguinte, o jogo do dia, o gol do Neymar. É importante a participação dos aposentados, só que não envolve a classe de jogadores de futebol, como também é importante que a história brote no Jornal Nacional. É preciso uma frente ampla quanto a esses temas, sem que se caia na esparrela das campanhas elitistas ou cruzadas pessoais, como foi o caso do intratável Ricardo Teixeira. Se quem provoca a reflexão não for a fundo, novos Marins e Teixeiras vão continuar tocando essa bagaça. E os ‘engajados’ também continuarão por aí, comodamente. Até que surja outro Paulo André.

Carles: Bom, enquanto isso, eu sigo confiando mais na eficiência da trincheira. Preconceito? É mais do que provável, mas os grandes veículos seguem merecendo minha desconfiança porque nunca empregam justamente a profundidade que você pede para tratar do assunto e, esse meu parceiro, é o primeiro passo para a diluição. Pelo menos no mundo que eu conheci. Mas espero ansioso por esse outro em que o Cid Moreira toque na chaga da perversão dos sistemas.

Edu: William Bonner, você quer dizer?

Carles: Pra você ver há quanto tempo não assisto.

 

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