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‘Hay cosas que te ayudan a vivir’

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

18 de junho de 2013 | 18h44

Edu: Hoje, logo cedo, uma grande amiga que nos acompanha fielmente no 500aC me perguntou, ainda com o que lhe resta de lucidez e bom humor diante dos últimos acontecimentos: “Será que se eu sair pela rua dizendo que sou a favor da Copa e da Olimpíada no Brasil vou ser linchada?”

Carles: Se realmente as manifestações forem uma mostra de amadurecimento político, pode falar para ela sair e gritar o que quiser, sem medo. E não se trata de ser ingênuo imaginando que por trás de cada bandeira defendida não existam interesses menos nobres dos que aparecem escritos nas faixas, mas reconhecer que toda manifestação é legítima, orquestrada ou não, já que encontrou algum tipo de resposta popular, com a justa dimensão do momento histórico e político, nem mais nem menos.

Edu: É um começo, Carlão, um magnífico começo, nada que nos aproxime dos ‘Indignados’, mas alguma hora certas barreiras teriam de ser quebradas, e foram pela molecada. É, claro, um movimento de longo prazo, um tanto difuso, que ainda precisa de maturação e de todos os cuidados, principalmente porque daqui a pouco os interesses da cidadania vão se misturar aos da política e aí não sabe para que lado isso tudo irá. Qual a ligação com o futebol? Total, porque o futebol é vida real, ao contrário do que muitos idiotas ainda pregam. Foi ótimo ver, por exemplo, Dani Alves e David Luiz defendendo hoje as manifestações.

Carles: Politizada já está, algo inevitável nos tempos que correm. Não, não é comparável aos “Indignados”, a vivência política é absolutamente distinta em cada um dos casos. Acompanho de longe, as informações chegam confusas, inclusive pelas redes sociais. Leio gente que está atirando para todos os lados e em tudo que se mexe, desorientado. Mas por trás dessa confusão vejo que o maior desejo é o de participar, de não perder o trem da história. Sou o primeiro em reconhecer o grande papel que Lula e sua sucessora, Dilma, fizeram e estão fazendo pela reconstrução dessa história, quebrada tantas vezes por intervenções nefastas. A chave, mesmo com algum déficit político, é procurar não excluir ninguém desse processo, seja quais forem suas ideias. Desde uma perspectiva histórica, o aparente caos deste momento tenderá à ordenação, em que o futebol possa ser reconhecido como um traço cultural digno, diretamente ligado à identidade e parte de um contexto social cheio de assuntos pendentes com gigantesca importância.

Edu: É compreensível que, em meio a tantas prioridades, o pessoal inclua em seus protestos os gastos com a Copa, com a Olimpíada e eleja seus vilões políticos usando o esporte como arma e não como traço cultural. Há muita desinformação, falta de dados, muito por culpa dos próprios governos envolvidos, em todas as esferas.  Mas prefiro, nessa nossa conversa, me reportar a uma parte da mídia chamada especializada, que, neste momento, se apressa em gritar o famoso ‘Não falei???’ São os urubus do futebol, que um conterrâneo seu, escritor e jornalista, Vicente Verdu, chamava elegantemente de ‘inimigos morais’ do futebol, figuras que estão dentro da engrenagem e se aproveitam dela de alguma forma, mas que, nessas horas, saem com discursos indignados para ficar bem na foto.

Carles: Segundo outro conterrâneo meu que anda justamente por aí, o sociólogo Manuel Castells, todos os movimentos sociais na história são principalmente emocionais, não são pontualmente indicativos, o de São Paulo não é sobre o transporte. Em algum momento, há um fato que traz à tona uma indignação maior. E é exatamente essa a questão. Aquilo que você costuma denominar “futebol de mercado” não é uma prioridade em si mesmo, mas serve de pretexto para que os cidadãos possam construir uma base de proximidade e convivência, à margem das instituições. Por isso a Copa do Mundo ou os Jogos Olímpicos passam a ser consideradas pelo cidadão como “coisas desse governo que não me representa”, enquanto o “eu não falei?” desinforma e não passa de puro oportunismo. É algo típico nessas horas, momentos de maior fragilidade do projeto, em que aparece a maior parte dos erros, os evitáveis e os não tanto, e os resultados ainda não chegaram.

Edu: O que parece mais sério não é o fato de muitos cidadãos comuns reagirem irados aos gastos ou à pouca transparência, o que é normal em um país onde a informação é sempre vendida pela metade, ou por falta de bons profissionais ou por diferentes interesses dos veículos e dos próprios governos. Grave mesmo é que os chamados especialistas não venham a público e cumpram uma função que as esferas oficiais não estão cumprindo, que é a de explicar, destrinchar, mostrar efetivamente o que se gasta e o que se ganha com uma Copa e não apenas brandir um número estratosférico de alguns bilhões de reais para ganhar manchetes e apostar no caos. A missão de comunicar é árdua, é pegar na enxada, não admite preguiça. Por outro lado, é duro de aguentar o sujeito que ficou detonando a Copa esse tempo todo aparecer com a maior cara de pau, ostentando uma credencial no pescoço e usufruindo dos estádios, dos privilégios para a imprensa, sem nenhum pudor.

Carles: Só não entendo a sua surpresa com esse tipo de “comunicadores”, sabendo que há muito tempo eles decidiram realizar uma versão da informação condicionada e atrelada a grupos, esses sim poucos transparentes. E o direito à credencial está embutido no preço dessa decisão, não?

Edu: Tem razão, não deveria me surpreender com esses tipos. Mas a idade, você bem sabe, nos deixa mais teimosos ainda. Provavelmente não sabem distinguir o que existe de mais precioso no futebol das outras coisas indecentes e nada palpáveis da vida – inclusive as que custaram muito mais do que todo dinheiro utilizado em todas as Copas do Mundo. O melhor de tudo é que o futebol está aí, apesar dos pesares, ou como diria o grande Fito Paez, que por sinal nasceu na terra de Leo Messi, Rosario: “Hay cosas que te ayudan a vivir”. O futebol – como a música – definitivamente é uma delas.

Carles: “Me voy… ya sé, no te hace gracia este país…”

 

 

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