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Ideias para acabar com a preguiça

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

28 de outubro de 2013 | 20h42

Edu: Um dia, não tenho ideia de quando, ainda abriremos um post falando dos novos e promissores técnicos daqui. Mas, enquanto eles não aparecem, resta falar dos que estão em moda por aí. É uma geração bem arejada, que sabe trabalhar com a mídia e com as pressões dos grandes adversários, mas que, principalmente, tem uma visão bem lúcida e ideias cristalinas sobre as propostas táticas aplicadas a suas dinâmicas de grupo. Para um deles você sempre tem chamado a atenção por aqui, ‘Cholo’ Simeone, e o outro é Rudi Garcia, o francês que fez a Roma voltar a ser grande.

Carles: Esse Garcia do Rudi é por parte de pai, também ex-jogador e de origem espanhola. Eles talvez sejam os treinadores de moda não só pelos grandes resultados dos seus times nas ligas espanhola e italiana, respectivamente, mas porque estão tirando máximo proveito de grupos de jogadores nem tão caros. Aliás, ambos começaram a temporada, perdendo peças importantes, Falcão, Marquinhos…

Edu: A Roma também perdeu Lamella, Oswaldo e o goleirão holandês Stekelenburg. O que parece semelhante no trabalho dos dois é o fato de aliarem seus convicções técnicas com a questão motivacional, sem precisar daqueles discursos de autoajuda insuportáveis. Rudi conseguiu dar um horizonte novo para caras visivelmente acomodados, basta ver o que ele fez com Totti, que virou falso centroavante, revigorado e que anda falando até em querer jogar a Copa no Brasil. E De Rossi está mais participante do que nunca, atingiu sua maturidade. Se você pensar que Simeone recuperou Villa, deu consistência a uma zaga de caras apenas discretos como Miranda e Godin, pôs na roda alguns jovens como Koke e Oliver e, principalmente, transformou Diego Costa em um atacante maduro e letal, o coquetel está pronto. Não é por acaso que a Roma tem nove vitórias em nove jogos e o Atlético, nove em dez.

Carles: Eles estão em ligas que atualmente cultuam o projeto tático e vêm de outras ligas onde há menos em jogo, se bem que a argentina costuma ser bem competitiva, tradicionalmente, também se valoriza a mão do treinador. Por alguns motivos, a cultura futeboleira da vossa vizinha considera o treinador algo mais do que um entregador de camisas. O técnico motivador nada mais é do que uma versão contemporânea e um pouco mais amável daqueles técnicos caudilhos de outros tempos, cheios de artimanhas e que baseavam o seu comando em falar grosso. O que eu quero dizer com isso é que talvez o motivo para que no Brasil ainda não possamos falar desse tipo de treinadores não é só culpa da (falta de) formação desses profissionais, mas principalmente do entorno, o que inclui não só as diretorias, mas também jogadores e torcedores, sempre desconfiados com os técnicos estudiosos e adeptos do trabalho tático fundamentado. Aposto com você e com quem for que o ‘Cholo’ fracassaria rotundamente por aí.

Edu: Não tenho tanta certeza, porque a impressão que temos aqui neste momento é que os próprios jogadores e clubes têm uma imensa ansiedade por coisas novas, só falta coragem para a ruptura. Claro, um argentino com o temperamento de Simeone poderia causar alguns tremores no começo. Mas do que estamos precisando é justamente desses tremores. No caso de Rudi, apesar da debilidade do Campeonato Francês, o que ele conseguiu fazer há dois anos no Lille foi revolucionário no contexto interno. E é um treinador – como também o ‘Cholo’ – que sabe extrair novidades de qualquer material humano minimamente capaz. Esse é um dos quesitos essenciais para um técnico moderno que não tenha à disposição uma estrutura do tipo dessas que, numa bela tarde de quarta-feira, jogam pela janela cem milhões de euros por um midiático qualquer.

Carles: A liga francesa é um laboratório ideal, permite desenvolver um projeto com riscos relativamente baixos. A trajetória de Rudi é, por enquanto, ascendente, parece até planejada e veja a comodidade da Roma, que assinou com ele por duas temporadas, enquanto sei de muito medalhão, com fracassos acumulados e comprovadamente de braço-curto, como diz um amigo meu, que só fecha se for por cinco temporadas. Simeone e Atlético são um velho caso de amor, ele tem a cara do clube e agora o time tem a cara do argentino, que já vinha de alguns bons vestibulares, Racing, Estudiantes, River, San Lorenzo, Catania, uns com melhor resultado que outros.

Edu: Se tem uma coisa que eles não admitem é acomodação, basta ver o estilo energético dos dois, algo que eles impõem em seus times, ao contrário de uma geração de técnicos preguiçosos que vai deixando a coisa andar por inércia, com seus staffs gigantescos – um comportamento, diga-se, que muitos técnicos daqui aprenderam com os daí. E, olha, além dos dois, há outros na faixa dos 40 que avançaram muito nas propostas modernizadoras de tipos como Guardiola e Klopp. Para citar alguns: Philippe Montanier, ex-Real Sociedad e agora no Rennes, Mauricio Pochettino, que vocês conhecem bem e que colocou o Southampton na frente do United na Premier, Hyppia, aquele ex-zagueiro da Finlândia, hoje treinando o Leverkusen, sem contar os com um pouco mais de idade, mas também com boas ideias, como Michael Laudrup. É uma mudança de paradigma no perfil personalista de treinadores que estiveram nos principais palcos ao menos nos últimos 15 anos.

Carles: Nessa nossa particular cruzada pela dignificação do posto, podemos falar de cada um deles com calma. Mas de forma geral são todos produtos novos com amplo conhecimento do velho futebol. E é exatamente essa fusão que eles aplicam, tendo em consideração que o futebol agora exige muito mais trabalho e não só em campo, mas de mecanização e aperfeiçoamento. Insisto que essa pequena revolução que está permitindo que alguns clubes deem um salto à frente do resto, é questão de vencer barreiras culturais e humildade para reciclar um montão de informação. Por aqui, estamos cansados de ver alguns clubes de países onde o futebol é menos tradicional e, portanto, fez menos escola, virem disputar encontros europeus. Os treinadores são muitas vezes pessoas com um alto nível de educação, mas ao assistirmos um treino do time, é uma sequência de jogadas ensaiadas com bolas cruzadas. O problema é que durante o jogo, a porcentagem de domínio de bola no meio de campo desses times é nulo, o que garante escassas ocasiões para realizar as tais jogadas. Essa geração de treinadores à que você se refere não só dedica muito tempo a estudar alternativas de jogo para os próprios times. como também a formas de induzir e condicionar o posicionamento do adversário.

Edu: Não tenho dúvida de que é uma nova e sadia cultura de treinador, algo que os jogadores brasileiros, talvez, ajudem a trazer para cá, já que a maioria dos técnicos tupiniquins não se preocupa com qualificação e reciclagem. Certamente por acharem que já sabem tudo. Mas não perco a esperança.

Carles: Seguramente esses jogadores levam consigo um pouco dessa consciência, mesmo. O maior exemplo foi aquela pequena, mas importante, revolução realizada num certo vestiário, antes da final de Copa das Confederações.

 

 

 

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