As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Iker e o alto custo do silêncio

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

21 de agosto de 2013 | 06h38

Edu: Iker no Barça?

Carles: Seria a grande vingança, mas eu não acredito.

Edu: Nem eu. É impressionante como o futebol espanhol é suscetível a esses códigos de convivência frágeis e nada profissionais. Casillas virou uma ferida que compromete todo o resto. Até outro dia, Ancelotti era o pacificador, o hábil diplomata, um pastor de vestiário. Hoje, é questionado por Deus e o mundo. Tocou em Casillas e pronto, tudo desabou.

Carles: Mas não foi você que, neste mesmo espaço, reivindicava o jogador-bandeira? Claro que nada nem ninguém pode obrigar a que Iker seja titular, mas a sensação é de que as coisas no Madrid seguem sendo conversadas pelos cantos e decididas nos corredores. Nada parece ser muito transparente e não sabemos nem a metade do que transtorna a relação entre o goleiro e a direção.

Edu: Uma coisa é o jogador-bandeira outra bem diferente é que ele seja usado como ferramenta de intriga, ou como bucha de canhão, sei lá. O que parece é que as coisas por aí ganham uma dramaticidade que não admite princípio, meio e fim. Tem que purgar sempre. E se Ancelotti concordou com o antecessor em que Diego Lopez simplesmente está melhor? Não basta? Por essa razão, o italiano virou o novo anticristo?

Carles: Pode ser que Diego esteja melhor, mas não a ponto de a escalação de Iker representar risco de derrota para o Madrid. Óbvio que deve jogar aquele que estiver melhor mas a sensação é de que, neste caso, sucede algo mais do que simplesmente aplicação de critérios técnicos. Fica difícil não desconfiar de que existe outro objetivo por trás, o de não dar muita cancha para o Casillas. O treinador que chega parece que já vem alertado para a ameaça do poder de Iker e tem que adotar estratégias para marcar o terreno.

Edu: Ele tem toda essa liderança a ponto de representar uma ameaça? Você mesmo disse algumas vezes que a personalidade do capitão não é tudo isso. E, visivelmente, não parece que ele seja mais influente do que Sérgio Ramos, por exemplo. Raúl, que era plácido e bom moço, tinha muito mais magnetismo do que Casillas e era mais participante nas coisas do clube, o que talvez incomode o chefão. Levantei este tema justamente porque acho que a origem de tudo está no gabinete da presidência, ainda sob o impacto da cizânia gerada pelo técnico anterior. Daqui de longe, parece claro que Florentino e Iker não se bicam mais e que Ancelotti entrou de gaiato.

Carles: Tudo isso para chegarmos à mesma conclusão? Também acho que o problema é com a presidência. Provavelmente, a influência de Ramos é essa que vemos todos. Pelo visto, a de Casillas vai mais além da visível. Não só Ancelotti, mas Diego Lopez também entrou de gaiato. É esse o problema, não é só o fato de escalar o que está melhor. Imagino que qualquer torcedor quer ver o seu time ganhando e isso passa por escalar os melhores. É um tema político, não resta dúvida, e se já parecem insuperáveis os problemas por deixar o ídolo da torcida na reserva, imagine uma possível saída do clube? Pior se as coisas não forem bem para o time, sem o ídolo. Quero estar a anos luz do Bernabéu !!!! Florentino não tem tantas balas assim para se dar ao luxo de errar mais um tiro. Continua dirigindo o clube como quem dirige uma empresa de construção. Ainda não percebeu que, no caso do Madrid, tudo se magnifica, com ou sem dramatismo.

Edu: Provavelmente a cartolagem daqui tem mais esse tipo de manipulação grotesca a aprender dos europeus. Quem sabe se Juvenal Juvêncio tivesse jogado Rogério Ceni aos lobos, o São Paulo estaria mais tranquilo para sair do buraco. Será que o jogador-bandeira serve só para isso depois de uma certa idade? O que o Barça fará com Puyol e Xavi daqui um tempinho?

Carles: Vai depender de como eles utilizem seus quinhões de poder. Não sei o quanto custou ao Casillas criar essa imagem de bom moço, aquele que, dizem, toda sogra quer ter como genro. Pode ser que ele venha nos ludibriando a todos. Não tenho dúvida de que existe uma grande parte de construção de personagem público à base de simpatia e mostras de solidariedade, trabalho do qual Florentino participou ativamente e que, agora, parece incomodá-lo. No caso de Puyol sobressai a imagem do sujeito dedicado, que nunca se rende. De quem não abandona seu estilo interiorano, para quem tanto faz aparecer apenas de toalha diante da rainha, com naturalidade, ou vestindo um short durante uma apresentação solene da UEFA. Xavi também conta com uma imagem de bom moço, mas que se sempre se posiciona. Tanto os blaugranas como Casillas mostram facetas que agradam à massa. Só é difícil saber até que ponto chega a encenação. O goleiro desfruta da sua gentil liderança num grupo em que o coletivo nunca pareceu tão valorizado como pelo rival. Pode ser que isso marque a diferença. Mas é só uma possibilidade.

Edu: Esqueci e toquei num de seus pontos fracos, Puyol, o pai de todos os bons exemplos. Mas concordo que é difícil saber onde acaba a encenação e começa a dura realidade. O que acho, de verdade, é que os próprios futebolistas se desvalorizam ao compactuar com tudo isso, ao preferirem que todos concluam o que parece ser e não o que é. É o tipo de postura tão perversa quanto a gerada pelo nosso vilão preferido, o futebol de mercado. Seria muito mais digno se Casillas abrisse o jogo, colocasse todas as cartas na mesa e arcasse com as consequências, do alto de seu posto de melhor goleiro do mundo. Porque de tipos como o Florentino a gente nunca pode esperar uma atitude dessas.

Carles: Você propõe que ele abra o jogo e conte uma verdade que pode respingar no imperador, nos súditos e em toda a corte? Risco zero.

Edu: Então, ele que pague pelo silêncio.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: