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Illa e Paulinho: escolhas difusas

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

07 de julho de 2013 | 07h32

Carles: Em plena efervescência do mercado de contratações, dois casos especialmente chamam a minha atenção. A possível ida de jovem Illarramendi ao Real Madrid e a transferência de Paulinho ao Tottenham. Os dois têm em comum a zona de jogo e o fato de que são eles que estruturam seus times. No caso do jogador basco, os companheiros já andaram apelando publicamente para um possível pacto de vestiário, para que ninguém deixe por enquanto o time que vai jogar a Champions. No caso de Paulinho, nem se questionou sua saída, como se fosse um direito adquirido, a caminho da canaã futebolística. É assim mesmo?

Edu: Não só eu mas muita gente acha que Paulinho é muito mais do que o Tottenham. Não sei se é uma ponte, ou se foi mal aconselhado, mas Paulinho não teria feito só por dinheiro porque oportunidades anteriores tinham aparecido e envolvendo quantias bem salgadas. Para um jogador que teria lugar em qualquer grande time europeu, é difícil entender por que os Spurs, que nem estarão na Champions. Quanto a Illaramendi, que impressiona pela personalidade e liderança apesar de muito jovem, vai trombar com uma concorrência um tanto forte em Madrid, isso se Xabi Alonso ficar. Mas, em princípio, é melhor do que todo mundo ali – Khedira, Modric, Casemiro e quetais.

Carles: Xabi Alonso vai passar por uma cirurgia de púbis e o Madrid precisa alguém para a posição, e que eventualmente possa acompanhá-lo mais tarde. Tanto Paulinho como Illarramendi eram opções do clube madrileño, já que ambos fazem a transição perfeitamente. Jogam com bola e sem bola. As opções mais caras como Verrati ou Pogba não parecem negociáveis por PSG e Juve respectivamente. Com a confirmação de Paulinho no Totttenham, Illa passa a ser a melhor opção. A barreira pelo visto, não é o dinheiro, mas todo esse cenário ético. O que estaria por trás de uma eventual operação ponte com Paulinho?

Edu: Não tenho ideia, é mais um chute, mas com alguma lógica. Ao Corinthians o negócio pareceu simples e justo. Havia uma cláusula para a transferência e o Tottenham aceitou pagar. Ponto final. Mas para Paulinho ficou essa dúvida da possível falta de visibilidade jogando pelo quinto ou sexto time da Premier. Não é desprezível, mas um jogador de 24 anos, com esse perfil moderno e que se adapta a qualquer estilo de jogo, merecia mais. Por isso surgiu a hipótese especulativa da ponte, talvez para outro time inglês, talvez para a Alemanha.

Carles: Vou insistir na questão ética, que pode pesar na decisão de Illarramendi fazer o contrato da vida dele ou escolher pelo incerto, por um time em formação, mas o time da terra e de toda a vida. Um caminho que anteriormente fez o próprio Xabi Alonso, só que com escala em Liverpool, o que amenizou um pouco a possível ira dos conterrâneos por uma traição indo justamente ao clube que simboliza esse poder centralizador espanhol tão incômodo para os bascos. Como vocês vêm essa questão dos princípios dentro de um contexto tão mercantilizado?

Edu: Questão ética envolvendo Illarramendi ou Paulinho? Se for o caso de o basco teoricamente ‘trair’ suas raízes, acho de uma ingenuidade abissal pensar que ainda possa existir algo de pureza de espíritos no mundo do futebol. Seria bonito, mas não é. Ok, ele tem uma história em San Sebastián, mas poderia estar abrindo mão até mesmo de chegar à Roja para a disputa da Copa se negasse a transferência para Madrid. É uma decisão pessoal: ser eventualmente considerado traíra ou decolar na carreira. O futuro vai julgar. Se for o problema de Paulinho, por enquanto é difícil saber. Talvez o Tottenham tenha até pretensão montar um timaço para acompanhar Bale, por exigência do português André Villas Boas. Nesse caso Paulinho teria optado por um projeto promissor. Se não, terá feito uma bobagem um ano antes do Mundial. Acho que o episódio Paulinho ainda não pode ser visto como uma afronta à ética.

Carles: Eu me referia mesmo a Illa. Não acho que ficar em San Sebastián impeça que ele jogue na seleção. As atuações dele na sub 21 mesmo estando na Real e sem disputar a liga europeia, já chamaram a atenção de meia Europa. Acho (ou espero) mesmo que ainda exista esse espírito de entrega à causa regional, claro, sem loucura. Se a Real não estivesse na Primeira Divisão e disputando vaga na Champions não haveria dúvida da necessidade de encontrar uma saída do clube. De alguma forma, o futuro de Paulinho também depende de uma demonstração de lealdade, mas de outro jogador. Se Bale decidir investir no projeto do clube que o revelou, mesmo sendo galês, pode ser que esse Tottenham tenha “muy buena pinta” para a próxima temporada. Enfim, são duas boas oportunidades de dizer não às grande ofertas milionárias em favor de projetos esportivos, digamos, simpáticos.

Edu: No fim, há um lado bom para os dois casos. Illaramendi pode crescer muito nas mãos de Ancelotti, que é um técnico do tipo preparador, construtor, muito paciente. E Paulinho, que apesar dos 24 anos, já teve experiências duras no mundo do futebol, pode até crescer jogando em um time médio, mas que lhe dê por um lado estrutura, que parece não ser o problema, e por outro, liberdade tática. Ele já comprovou que precisa de rédea solta para render o que sabe. Talvez Villas Boas tenha notado isso.

Carles: Torço pelos dois. Paulinho no Tottenham e Illa na Real. Na Real Sociedad, que fique claro.

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