As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Inglaterra e seus fantasmas

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

10 de outubro de 2013 | 10h18

Carles: Resumindo e corrija-me se eu me enganar, entre os europeus classificados ou praticamente, quer dizer, os que já estão fazendo cotação de hotel no Brasil, temos Bélgica, Itália, Alemanha, Holanda e Suíça. Isso significa que Croácia e Portugal virtualmente garantiram a repescagem. Suécia e Áustria; Hungria e Turquia; Islândia, Eslovênia e Noruega brigam entre elas por estarem também. Que Bósnia e Grécia ainda têm tudo por decidir no grupo G e que, se Espanha e Inglaterra fizerem os deveres mínimos de casa, podem começar a perguntar preços de passagem para o Brasil, na recém irmanada British-Iberia. Nesse caso, França e Ucrânia (ou Montenegro, ou Polônia) se somariam à repescagem. Espanhóis e ingleses jogam duas partidas em casa e já veremos se em alguma delas com a participação de Diego Costa ou Januzaj.

Edu: Ainda não será esta a vez dos ‘alienígenas’. Essa Inglaterra, na qual nem o mais dedicado súdito da rainha tem confiança, será o fiel da balança disso tudo, inclusive da repescagem. Os ingleses têm um histórico de fiascos que permite imaginarmos qualquer situação e ainda mais agora, mesmo jogando em casa, porque os adversários são cascudos, jogam algo parecido ao estilo inglês. Amanhã, será Montenegro, que gira em torno de Vucinic, o atacante da Juve que é capitão desse time, e principalmente do motorzinho criativo Stevan Jovetic, que fez grandes jogos pela Fiorentina no ano passado e agora está no Manchester City. Depois, na terça-feira, os ingleses recebem a Polônia de Lewandowski. Mas tenho a impressão que os maiores adversários são seus próprios fantasmas.

Carles: E se depender do glorioso Jack Wilshere, só vão contar com os próprios fantasmas. Ele não quer nenhum espectro de sangue não britânico o que me parece, em principio, um mau negócio, porque parece que esse time além de tudo, voltou a perder la “chispa”, voltou a ser burocrático, com um meio envelhecido e um tanto desmotivado e, ultimamente, demasiado dependente da velocidade de Theo Walcott lá na frente, que aliás é baixa por uma cirurgia no abdômen.

Edu: Ter ciuminho do adolescente Januzaj é dose, mais uma demonstração de insegurança de um jogador que deve ser titular se a Inglaterra estiver na Copa, mas que ainda está devendo na seleção. Esse ataque gratuito é mau sinal. Januzaj nasceu na Bélgica, tem origem armênia e pode optar por cinco ou seis países (Inglaterra inclusive), mas sonha um dia defender o Kosovo, terra de seus pais. A Inglaterra é capaz de tudo e de nada e mais ainda nesse grupo em que quatro times têm chances reais, porque a Ucrânia, que joga em casa amanhã contra a Polônia e depois fecha a eliminatória contra o vento, San Marino, é fortíssima candidata no mínimo à repescagem.

Carles: Não se trata de uma singela homenagem aos pais, mas de um posicionamento, um reforço à causa de Kosovo, já independente, mas sem o reconhecimento por parte da FIFA. Se tiver mesmo a Copa do Mundo biônica em Catar, desconfio que, pelo menos nas eliminatórias, vamos ter times como Kosovo ou Catalunya. Voltando à de 2014, sigo tendo sérias dúvidas sobre alguns favoritos, a classificação europeia sempre reserva surpresas de última hora, justamente por essas questões de afinidades e pertencimentos, incertos e difusos em alguns casos. Nem sei se o veterano e quase espanhol de Vallecas, Andrija Delibašić joga amanhã por Montenegro.

Edu: Em princípio, sim, é um dos líderes do time. Montenegro, por sinal, estaria em sua primeira Copa com bandeira própria e a Ucrânia iria para sua segunda. Se Wilshere quis injetar algum anabolizante patriótico em seus companheiros britânicos com sua falastranice, certamente não tem ideia da forte consciência de nacionalidade desses povos, cujas seleções a Inglaterra está enfrentando. São sociedades que conviveram muitas décadas com várias vertentes políticas e etnias e que, agora, retomaram suas trilhas independentes, ainda que com cenários internos distintos. Mas se o tema for orgulho nacional, ingrediente que sempre entra em campo nessas ocasiões, tenho sérias dúvidas sobre quem sairá perdendo. Me parece que a moçada de Roy Hodgson anda meio despersonalizada e vai depender da boa vontade dos veteranos, Lampard, Gerrard e Rooney, se é que os três terão condições.

Carles: Sempre resta aos ingleses a esperança do melhor Rooney ou pelo menos dos seus lampejos para levar a Inglaterra à Copa. Imagino, como temos comentado, que para a FIFA não é uma Copa qualquer e tem muito simbolismo na presença dos inventores do futebol na terra dos reinventores. Sobre as possibilidades de cada um neste grupo, é bom lembrar que vai ser uma tarde-noite de transistores, enquanto os ingleses enfrentam seus pesadelos antepassados em Wembley, suas chances passam também e muito pelo enfrentamento entre Ucrânia e Polônia. Será muito diferente jogar contra uma Polônia ainda com chances ou totalmente eliminada, na terça.

Edu: Sim, porque esse Ucrânia e Polônia de amanhã é tão vital quanto o que o jogo de Londres. Os vencedores da sexta-feira estarão cômodos na terça, já que Montenegro, caso passe pelos ingleses, fecha a eliminatória em casa contra a Moldávia, ou seja, contra ninguém. Mas uma combinação de outros resultados, dois empates por exemplo, só alimentará o suspense. Wembley reviverá sua velha eletricidade no ar, em conexão direta com o estádio do Metalist.

 

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.