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Iniesta, retrato da excelência

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

17 de junho de 2013 | 19h45

Edu: As coisas que mais marcaram na primeira rodada da Confecup foram uma indisfarçável comoção pelo desempenho da Espanha (tanto aqui, como aí), visível alívio brasileiro e dúvidas sobre quem será o principal coadjuvante, Uruguai, Itália ou Nigéria.

Carles: Vamos pelo que eu tenho mais próximo, a Seleção Espanhola, que confirmou as duas grandes suspeitas sobre o seu desempenho neste futuro próximo – que é capaz de desenvolver o melhor jogo entre os participantes e que chega ao torneio com as suas forças limitadas. Se essa capacidade física que, parece, dura meia partida, for suficiente, pode ser o grande candidato ao único título importante que lhe falta. O mais provável é que, frente a adversários como Itália ou Brasil, serão necessários mais do que 45 minutos de excelência.

Edu: A ‘Roja’ provocou entre os analistas brasileiros um turbilhão, uma liquefação geral, derreteram-se, renderam-se. Achei um certo exagero, porque já vimos outros jogos mais imponentes da Espanha e contra adversários mais ambiciosos, como foi aquela final da Eurocopa contra a Itália. Mas quando vi os jornais espanhóis pós-jogo, era o mesmo tom: ‘Recital de Iniesta’, ‘La Roja baila en Brasil’…

Carles: Eu mesmo fui surpreendido pelo primeiro tempo deles contra o Uruguai. Talvez, e repito algo que já disse aqui, pela certa desconfiança que antecedia essa estreia. Apesar da capacidade e ligeireza com que se criam e se destroem os mitos no futebol, quando surge um caso ganhador e com a estética do futebol da ‘Roja’, há um sentimento generalizado por reconhecer uma possível decadência. Só que a temporada foi extenuante, física e psicologicamente, e surgiram os primeiros desentendimentos entre os componentes da família Del Bosque. Demasiado lastro para os  “bajitos jugones”.

Edu: Mais da metade da Seleção Brasileira também teve temporada extenuante na Europa, o mesmo para muitos mexicanos e praticamente todo o elenco do Uruguai. Portanto, espanhóis e italianos não têm o monopólio do cansaço. É o ônus da Confecup e de todos os torneios internacionais que se disputam nesta época do ano, visível em todos os jogos no segundo tempo. Mesmo assim, a superioridade técnica da ‘Roja’ é tanta que é bem possível ganhar todos os jogos com um primeiro tempo exuberante. Sim, há o Brasil pela frente, a pressão da torcida, o ambiente… Mas aí vamos reduzir esta Copa a só um jogo que interessa. E tenha certeza de que o caminho brasileiro até lá será bem mais árduo.

Carles: O jogo pragmático, quem diria, desta vez está do lado brasileiro. Como aquela Itália que desclassificou o time brasileiro mais inspirador para os espanhóis na Copa de 1982, justamente em Sarrià. Reincido no peso da pressão da temporada para os espanhóis, que, além de tudo, digam o que digam, tem um plantel em transição, com grande parte de jogadores no ocaso da carreira de alta competição. Não é o caso de Iniesta, a quem o reconhecimento segue devendo algo. Apesar do privilégio de se aproximar da unanimidade no território espanhol, aplaudido em praticamente todos os estádios. Imagino que, domingo, confirmou pessoalmente o carinho que a torcida brasileira lhe dedica. Mais do que justiça com uma equipe, esse esporte coletivo tem agora a chance de ser justo com alguém a quem, se não faltou futebol na última década, faltou volume na voz para poder se igualar a seus pares mais midiáticos. Mesmo que esse reconhecimento seja vox populi, as instituições e os meios altamente comercializados, insisto, devem  algo a Andrés.

Edu: Futebol coletivo é justamente o que fundamenta a excelência da Espanha, Carlão. Essa é a diferença gritante com relação a todo o resto. Tem padrão, com entrosamento. E craques para completar. O velho Cesar Menotti que pregava ser ‘mais fácil criar dentro da ordem’, quando se trata de futebol, estava cheio de razão. Iniesta é a prova viva. Num padrão que funcione minimamente, ele se encarrega de quebrar algumas lógicas e destruir adversários. E tenho dúvidas de que Iniesta se adaptaria a esse meio comercializado. Provavelmente nem iria querer. O negócio dele é jogar bola.

Carles: Exatamente é essa a essência dos iniestas e xavis, que lhes permite adaptar sua capacidade técnica individual de certo requinte a um jogo coletivo, com a capacidade de priorizar a funcionalidade do jogo colaborativo e reservar a filigrana para o momento de real necessidade. E isso, além de permitir o desfrute ao torcedor, surpreende os adversários e multiplica a eficiência.

Edu: Se chegarmos a esta final Brasil-Espanha, veremos um encontro curioso de estilos, em que o passado de um se confunde com o presente do outro, prevendo um futuro heterodoxo. Será engraçado ver as peripécias de Felipão para segurar os ‘bajitos jugones’. Mas aí também talvez as áreas mais vulneráveis da ‘Roja’ sejam melhor testadas.

Carles: Mas antes e para ver esse confronto, plagiando Marcelo, “a Seleção Espanhola tem que chegar à final” ou, ao menos, à semifinal.

Edu: E o Brasil idem.

 

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