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Jeitão argentino de ser

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

05 de janeiro de 2014 | 19h29

Carles: Dá a impressão que Valencia perdeu parte da identidade quando deixou de ser a última capital da Segunda República Espanhola, nos anos 1930. De lá para cá, parece conformar-se em ser uma ordinária imitação da capital do reino. Assim tem sido na política, nas comunicações e no esporte. A última, o desesperado clube local decidiu copiar a fórmula argentina do Atlético, importando treinador campeão que inclui um preparador físico especialista em transmitir vigor e entusiasmo ao elenco. Para muitos, trata-se do último suspiro do time “che”. Ontem você já deixou claras suas previsões nesse tema, fiasco, é isso?

Edu: Quanto ao Valencia, sim, porque me parece que o problema é falta de jogador não de modelo tático. Se Pizzi, que foi um atacante bastante tosco mas eficiente, conseguir remodelar o time para adaptar ao seu jeitão, tudo bem. Mas, até onde sei, não tem dinheiro pra isso, certo? Aliás, o que menos tem é dinheiro. Até pode pintar um Valencia mais compacto e competitivo, mas não tem milagre possível. E, confesso, não é um estilo que me agrade muito esse dos times com feição argentina, apesar de o Atlético ter mostrado boas coisas. Vivo procurando o lado atraente e sempre encontro o mesmo – um ou outro jogador habilidoso (no Atlético são Turan e Koke) e, de resto, muita mecânica, muita física, muita disciplina tática. Não é todo dia que dá gosto ver.

Carles: Sem dúvida que, à primeira vista, as principais contribuições de Simeone são a organização, o estilo solidário, quase operário que diferencia o futebol argentino do brasileiro. A intensidade com que os times argentinos enfrentam os jogos também se vê claramente no time formado por El Cholo. Mas tem outra coisa que eu acho até mais importante e que pode ser a luz no fim do túnel do Valencia, que obviamente almeja fazer um papel digno, nada de disputar títulos. O que Simeone conseguiu foi recuperar a autoestima de muitos jogadores que andavam meio encostados ou fazer outros renderem muito mais do que vinham fazendo. Isso, projetado ao caso do Valencia, poderia significar dispor de jogadores como Banega, Feghouli, Jonas e Bernat e até o clone de Albelda, Oriol Romeu, para formar uma estrutura razoável que permitisse aspirar a postos europeus, numa liga nivelada por baixo. Acho até uma aposta razoável essa do esquema argentino, misto de trabalho físico e psicanálise, especialidade da casa.

Edu: Não consigo deixar de ver aí uma imensa contradição com o tão badalado estilo espanhol de toque, turbinado pelo seu ídolo supremo, Pep Guardiola, e transferido à seleção. O ‘Atlético argentino’ não tem nada a ver com ele em estética, apesar de ser competitivo. Mas competitivos no sentido de brigadores os italianos também são, como os ingleses, os gregos e os turcos. E não há nada de especialmente atraente neles. Mesmo, mesmo, o Atlético adora um contra-ataque, que é exatamente a antítese do modelo Pep e do modelo La Roja. Tenho esse reparo a fazer, mas não significa que Cholo não tenha os seus méritos, justamente pelo que conseguiu extrair daqueles jogadores, que atuam sempre com o ponteirinho da intensidade lá em cima, tensão máxima, o que exige essa equipe de preparadores muito competente. Só não é meu sonho de consumo.

Carles: Nem o meu, mas não deixa de ser uma solução competitiva. Além do que, os resultados deram ao treinador o suficiente cacife para poder ir pedindo os reforços, inclusive permitindo-se os seus primeiros pecados capitais, como a recém incorporação de Sosa, aposta pessoal ou espécie de nepotismo, dependendo do ponto de vista. Por diferentes razões, tanto o Cholo como Pizzi têm agora nas mãos suas respectivas diretorias, exatamente o caminho inverso que faz o treinador do Barça, sobre cuja continuidade seguem levantando suspeitas. A dúvida continua sendo qual é o verdadeiro estilo do Tata? Próximo ao de Guardiola? Sem dúvida, não parece ter nada a ver com o estilo dos conterrâneos.

Edu: Tata, quando no Newell’s, montou um padrão parecido de competitividade argentina, mas tinha, por outro lado, jogadores de nível, principalmente no meio de campo, que mantinham bom padrão de toque e habilidade. No Barça, o problema maior, me parece, é deixarem ele trabalhar, que é mais ou menos o que você está dizendo, não é isso? E tem a grande diferença de perspectivas: o que quer o Barça e o que querem Atlético e Valencia? Se o Atlético quer ser além de uma alternativa muito eventual aos grandes, precisa fazer mais, precisa meter medo, tomar iniciativas e, para isso, não sei se o elástico sempre esticado no máximo de Simeone será suficiente. Um dia pode espanar geral – um pouco como aconteceu com o Corinthians de Tite. Quanto ao Valencia, se for um início de caminho, perfeito que se comece devagar. E também é preciso saber até onde se quer chegar e me parece que não é muito longe.

Carles: O problema é que, no Valencia, a margem de erro é praticamente nula. Não se deu chance de continuidade a nenhum projeto e nenhum dos treinadores conseguiu ganhar o tempo necessário para impor um projeto. Simeone obteve um pouco dessa moeda de câmbio para trocar por tempo e até pode se permitir algum que outro fracasso, algo muito corrente na história e na identidade do Atlético de Madrid – o clube é conhecido como “el pupas” , ao pé da letra, “o machucado”, que poderia ser traduzido como “o sofredor”. Só para você ter uma ideia da situação do Tata, já começou a soar o nome de Scolari, velho amigo de Rosell. Claro que isso é para depois da Copa, o tempo que o argentino tem para ganhar a confiança “culé”, salvo no caso de uma grande tragédia de resultados.

Edu: Essa do Scolari é a grande bravata do fim do ano. Se um dia um time como o Barça contratar o Scolari vou a pé de Madrid até as Ramblas em roupa de banho e em pleno inverno. Seria o fim dos tempos. Mas não deixa de ser um sinal do que espera pelo Tata. Na Catalunha também se vive de absurdos.

Carles: Pode ser pressão mesmo, mas com o Rosell tudo é possível. Em todo caso, não custa você ir procurando desde já, um daqueles maiôs que cobrem o corpo todo.

 

 

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