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Jogador-bandeira, um símbolo que resiste ao capital

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

28 de abril de 2013 | 20h59

Edu: Uma figura em extinção por estes lados ainda é bastante cultuada nos times daí, na Espanha até mais que em outros lugares. É o que vocês chamam de jogador-bandeira, aquele símbolo do clube, formado na ‘cantera’, que incorpora todos os valores de identificação que a torcida tanto gosta. Alguns times, como o Barça, têm até mais de um, como Xavi e Puyol. Talvez só a Inglaterra ainda tenha tantos jogadores-bandeira como a Espanha – Terry no Chelsea, Gerard no Liverpool e Giggs no United.

Carles: Imagino que isso esteja associado à superlativa vinculação com as raízes. Nas férias, a maioria dos espanhóis mantêm o hábito de voltar aos “pueblos” de origem deles mesmos ou os pais, onde conservam a casa da família com as características das construções originais. Mas nada que possa resistir muito tempo ao vil metal. O Brasil perdeu faz tempo essa batalha. Eu diria que até os sotaques regionais a Globo estigmatizou, que dirá de outros vínculos afetivos, mais frágeis ainda.

Edu: Não resiste mesmo. Na Itália, que sempre teve essas presenças locais muito pulsantes, a história dos símbolos já naufragou faz tempo. E mesmo aí perto, em Madrid, o “Special One” se encarregou de enterrar o último jogador-bandeira dos ‘blancos’, Iker Casillas. A rigor, acho que é um símbolo com os dias contados em qualquer canto do mundo do futebol. Aqui, os últimos foram dois goleiros, um que já parou, Marcos, e outro que já devia ter parado, Rogério Ceni.

Carles: O grande obstáculo na carreira de Casillas neste momento é justamente superar esse forte vínculo, o fato de ser o “buque insígnia” do madridismo. Marginalizado pelo zangado, não tem outra alternativa que sair do território espanhol, caso o treinador siga no clube.

Edu: Nem sei se o torcedor, hoje em dia, tem esses laços tão fortes com o capitão ou com o jogador que de alguma forma simboliza a história do time. Certamente isso começou a ser desmontado quando da Sentença Bosman, em meados da década de 1990, a lei que permitiu a livre circulação de todos os jogadores europeus dos países da zona do euro, como qualquer trabalhador. E o retrato mais fiel dessa transformação foi o time da Inter de Milão, várias vezes campeã da Itália a partir de 2005 e que quando conquistou a Champions não tinha um único italiano entre os titulares. Por coincidência o técnico era Mou.

Carles: Feito que ele esteve a ponto de repetir no Madrid faz uns dias, no jogo de volta contra o Galatassaray em Istambul, escalando um time com um único espanhol. Repito o que já disse algumas vezes, os jogadores de futebol são profissionais e nenhum torcedor tem direito a vetar a saída de um ídolo. Mas é de se agradecer que um polpudo cheque não seja capaz de acabar com tamanho idílio. Em Valencia tivemos um caso desse tipo, Albelda, jogador que se despede no final desta temporada e que, pese ter iniciado a carreira em primeira cedido ao Villarreal, é o jogador-bandeira do clube ‘che’. Outro dia reivindicou não só mais jogadores espanhóis no seu time, mas que os valencianos fossem em maior número. Isso não o impediu de entrar com um processo trabalhista contra o clube em 2008. Prova de que a sua lealdade não é cega.

Edu: Lealdade tem limites, ainda mais nestes tempos e nesse ambiente. Raulzito que o diga. Ao deixar Madrid – coisa que a torcida nunca imaginou que poderia acontecer -, poderia ter falado poucas e boas depois de ser relegado pelos galácticos. Mas a sua resposta foi simplesmente sair, quietinho.

Carles: Madridista porém correto. É um cara educado e deu provas do seu carinho pelo clube. O próprio Del Bosque e também Camacho, madridistas exemplares, comprovaram que a lealdade que eles dedicaram ao clube não foi recíproca. Coisa de grande capital. O apego muito mais visível em outras regiões do território espanhol, inclusive na segunda maior cidade, Barcelona, não é moeda corrente nos times da capital. Torres foi embora sem quase trauma para o Atlético de Madrid, clube que até a chegada de Simeone nunca hesitou em desfazer o plantel a cada fim de temporada.

Edu: Acho que esse é o caminho irreversível dos novos tempos mesmo. Pouco apego, poucos vínculos, renovação de símbolos. No Brasil, onde a principal saída dos craques que se destacam continua sendo o aeroporto, o jogador-bandeira é mosca branca, definitivamente. Mesmo os times mais populares não cultuam os craques por muito tempo. É a era do efêmero.

Carles: Só que quando chegam, contratados, dizem que são torcedores do clube desde garoto. Aí não é assim? Não né? Demasiada rotatividade ultimamente.

Edu: Já foi um dia… Hoje, ninguém é de ninguém.

Carles: Xavi e Puyol são ‘culés’ de carteirinha, passaram a vida deles no clube e realmente sentem apego ao clube, à terra. O clube também procura recuperar jogadores formados em casa, como Piqué, Fábregas e Jordi Alba. O Athletic de Bilbao faz o mesmo. Não é só uma questão política, mas de identidade com os valores locais. Identidade e identificação porque é importante reconhecer-se. Tanto para quem permanece no lugar onde nasceu como para quem sai para o mundo.

Edu: É bonito, saudável, poético. Mas mesmo nesses lugares com forte identificação local é difícil prever quanto vai durar. Você garante?

Carles: Garantir não, ter esperanças de que todos nós procuremos revalidar os valores regionais em troca da pasteurização da globalização, sim. E nem acho tão improvável.

Edu: Assim seja.

 

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