As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Jovens talentos, péssimos negócios

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

24 de janeiro de 2014 | 20h05

Edu: Sabe quantos titulares do Corinthians, que é o time mais rentável do país, segundo um desses levantamentos de consultorias divulgados nesta semana, foram revelados nas escolinhas do clube?

Carles: Gil? Pelo menos é jovem…

Edu: Não.

Carles: Nem ele né? Pois é, acho que quinze finais e oito títulos de Copa São Paulo poderiam estar bem melhor aproveitados, ou para alimentar o plantel ou o caixa.

Edu: O aproveitamento de jogadores formados em casa pelos times grandes brasileiros precisa ser tema de dissertações de mestrado ou de uma junta médica. Só assim pode pintar uma luz. O Corinthians foi campeão de uma em cada cinco edições da Copinha! Por algo deve ter sido. E hoje, a rigor, tem como prata da casa no plantel inteiro só o segundo goleiro reserva Danilo e o lateral Fagner, que por sinal saiu do clube com 17 anos, rodou o mundo, e voltou agora, aos 24, emprestado pelo Wolfsburg. É ou não é um case para cientistas?

Carles: Entra fácil, sai fácil… provavelmente, e falo sem demasiado conhecimento de causa, o Corinthians forma bons times de base porque a marca Corinthians (como diria meu amigo Mariano) atrai a moçadinha para as peneiras, mas o mais provável é que, desde o clube, haja mesmo descaso com esse fabuloso patrimônio. E falo em patrimônio para não ficar só no aspecto esportivo, que já deveria ser suficiente justificativa para um seguimento e um projeto sério que pudesse conduzir talentos desde o dente de leite até o time principal.

Edu: Para que a gente não caia na conclusão de sempre – falta de estrutura -, é bom lembrar que para a maioria nunca houve estrutura e os craques continuaram a ser formados do mesmo jeito. Ou seja, não é todo mundo que tem um centro de formação como o do São Paulo, mas pode sair um Neymar ou um Willian de outros lugares nada sofisticados, simplesmente porque o material humano existe. É bem anacrônico, mas é o que temos.

Carles: Ok, vamos evitar cair no diagnóstico de sempre, encontrar alternativas e inclusive, considerar o anacronismo como processo de seleção natural. Neymar e Willian é muito pouco, se bem que ambos me pareçam grandíssimos jogadores. No caso do jogador do Chelsea, esteve a ponto de se transformar em mais um desses casos em que grandes talentos acabam desaparecendo em algum recôndito próximo à Sibéria, mas à última hora, a moeda caiu do lado certo. O acaso muitas vezes acaba sendo mais justo que o excesso de planejamento, mas não é possível que ao menos a ambição pela venda de jovens craques não ajude a regular um pouco esse processo normalmente fortuito.

Edu: Ambição sempre tem, mas nunca é parceira da inteligência. É claro que os times formam jogadores e pensam imediatamente em resolver seus problemas financeiros vendendo um garoto desses, mas aí entra o lado mais estúpido do processo: sabem formar craques mas não sabem fazer negócio, outro anacronismo. O Corinthians recebeu três milhões de euros por Marquinhos e um ano depois a Roma o vendeu ao PSG por 31 milhões de euros. O São Paulo precisou ir à Justiça para conseguir 15 milhões de reais do Inter de Porto Alegre por Oscar, que logo o repassou ao Chelsea por 25 milhões de libras, o que é mais de 100 milhões de reais. Para o Inter foi um negocião, mas o time que revelou o jogador dançou nessa história.

Carles: O Corinthians não recebeu nada dos 31 milhões que o PSG pagou por Marquinhos? A legislação não considera uma retribuição por direitos de formação? No caso dos clubes espanhóis, conseguiram que isso fosse regulamentado pensando em proteger a “cantera”, como parte do patrimônio, além de ser uma forma de recuperar o investimento em infraestruturas, centros de treinamento e equipes técnicas. Mesmo assim, existe algo de jurisprudência em que se conseguiu anular o efeito dessas cláusulas sob a alegação de que o trabalho infantil – no caso de menores de idade, claro – não está contemplado no país. Se os dirigentes do futebol brasileiro decidirem pensar em sério no assunto, pode ser uma boa oportunidade de dar exemplo de respeito aos direitos infantis no país, antes de considerar essa moçada talentosa mera mercadoria.

Edu: Existe essa salvaguarda legal, sim, mas muitos clubes brasileiros, no desespero por fazer o negócio, abrem mão da cláusula. Certamente é o que ocorreu com o Corinthians. Só que precisamos ponderar um pouco: perto do que era há duas ou três décadas, melhorou bastante, incluindo a regulamentação desse tratamento aos garotos desde a formação escolar até as peneiras. Mas é pouco, ainda fica circunscrito à elite e mesmo assim ocorrem essas bobagens como a do Marquinhos. Nos centros pequenos, então, é um Deus nos acuda. O fato é que, como disse uma vez Rudi Voeller, quando veio aqui sondar algum reforço para o Bayer Leverkusen, existem no Brasil algumas minas de ouro no que diz respeito a talentos futebolísticos, mas ninguém sabe direito o que fazer com elas.

Carles: Se a gente considerar que quando alguém, em qualquer lugar do mundo, pensa em jogador de futebol, lembra-se imediatamente do Brasil, podemos concluir que essa é uma profissão que pode servir de paradigma de respeito a todos os trabalhadores do país. Por isso, para começar, os clubes poderiam pensar em seguir investindo na formação dos garotos, mas não só na educação esportiva, mas também intelectual e cidadã. Claro que tudo isso é muito importante para a sociedade brasileira, mas seria de grande ajuda para os jovens que têm que sair do país para melhorar profissionalmente. Para aprender a se defender de tudo e de todos.

Edu: Em tempo: um dos clubes que mais tem dado oportunidades a seus jovens outra vez comprovou o sucesso de sua política de revelação de talentos. O Santos acaba de conquistar mais uma Copinha, vencendo justamente o Corinthians na decisão (2 a 1). Não por acaso, vocês estão aí com a maior revelação do futebol brasileiro nas últimas duas décadas. Agora, a sensação (guarde este nome) é Stafano Yuri.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: