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‘La Roja baja la mirada frente al campeón’

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

30 de junho de 2013 | 21h41

Carles: As primeiras manchetes dos meios espanhóis falam do melhor Brasil e da pior Espanha. Foi como você viram aí?

Edu: O melhor Brasil desta fase de estiagem, sem a menor dúvida. E a Espanha esteve sufocada, mas pelas virtudes do adversário. Provou em alguns momentos do próprio veneno, o que de certa forma remete ao que conversávamos antes do jogo, que só era possível vencer com inteligência. Pareceu mais um Brasil da Baviera, foi uma repetição de Bayern-Barça…

Carles: Também acho que foi a pior Espanha porque foi o melhor Brasil, que jogou com a inteligência que você sugeria ontem. Vi o Felipão acenando desde a lateral pedindo para o time se compactar!!! Nunca é tarde para mudar, em outros tempos ele pedia para todo mundo voltar. A Espanha sobretudo demonstrou que não tem a malícia necessária para falar alto dentro do bloco de todo-poderosos. Pecou de ingenuidade. É a primeira vez que jogam em um ambiente tão hostil e acho que sentiram muito. Isso não pode acontecer com quem pretende revalidar títulos.

Edu: Foi uma das variantes que tiveram peso, a química do time brasileiro com o fator Maracanã, não só por incendiar os jogadores em campo como também para intimidar a ‘Roja’. Mas, sejamos justos, se há uma atividade humana que pode apresentar uma troca de papéis tão gritante, um conjunto tão grande de surpresas e inversões de expectativas, é o futebol. Um gol logo cedo, dois ou três dribles der Neymar e Oscar, um time turbinado chamando a torcida para o jogo. O panorama era complicado para a moçada de Del Bosque.

Carles: Muito complicado, mas é esse tipo de experiências que transformam. Foi, digamos, o batismo de fogo e logo contra um mito do futebol. Provavelmente, o ponto de inflexão de ‘La Roja’, que deve demonstrar maturidade diante do revés. Felipão consultou a bola de cristal dele e vaticinou o fim do ciclo, que o reinado da seleção espanhola duraria, no máximo, mais dois anos. Obviamente ele não viu a sub 21 da Espanha jogar. Continuo achando que existe um material humano todavia superior, mas, claro, tudo depende de que se faça uma gestão adequada desses talentos para que o futuro não dê a razão à pitonisa Scolari. Agora, mesmo diante de tamanha derrota, tem um vizinho nosso que, imagino, esteja radiante. Rosell viu como, numa noite, o que parecia uma estratosférica soma paga por Neymar transformou-se num grande negócio.

Edu: Pelo tom dos jornais da Catalunha, já estão fazendo as contas com os olhos arregalados. Só não concordo quando você diz que a Espanha ainda carece de malícia para entrar no bloco dos grandes. A Espanha já tem lugar cativo no bloco dos grandes pelo jogo que tem, e não se engane porque, nesta partida, Inglaterra, França e mesmo os coirmãos do continente teriam sentido a mesma pressão. A Alemanha talvez um pouco menos. Está claro: nem a Espanha deixou de ser o melhor time do mundo, nem o Brasil é tudo isso. Fez um jogo sublime, mas sabemos que não será sempre assim, porque o time ainda tem muito o que amadurecer. Ressalto, porém, as grandes atuações individuais em todos os setores. Não dá pra dizer se alguém teve um desempenho sequer regular. Julio César incluído.

Carles: Esse é o grande problema, mesmo quando se chega a fazer parte desse clube tão exclusivo de campeões, Itália, Brasil e Alemanha continuam tendo mais peso. E pelo vínculo afetivo dos espanhóis com o futebol, poderiam aspirar a fazer parte dessa crème de la crème, da que não fazem parte Inglaterra ou França, que você citou e não por acaso. A França, especialmente, teve, a certa altura, uma trajetória parecida à da atual Espanha, dominou o futebol mundial e continental, fez um jogo competitivo e estético, além de demonstrar ter talento de sobra em estoque. Apesar disso, não conseguiu se manter no topo. É a isso que eu me refiro quando digo que chegou o momento decisivo para o futebol da atual campeã do mundo. Claro que a liga espanhola está a anos luz da francesa e isso é um diferencial importante.

Edu: De qualquer jeito, insisto em destacar que não foi o acaso que provocou tudo isso ou simplesmente a falta de temperamento da ‘Roja’. Foi a Seleção Brasileira, com sua história pujante, que tem peso, mas também com uma disputa sanguínea pela posse da bola, uma forma de jogar que nunca, em nenhum momento, deixou a Espanha a gosto, como tem sido há cinco anos. Leio neste momento em alguns jornais espanhóis que chegou a hora de Del Bosque repensar algumas coisas, medir a importância de Xavi, que veio meio baleado para a Confecup, procurar alternativas de jogo. Pode ser. Mas ninguém vai tirar da Espanha o posto de uma das favoritas da Copa do Mundo. Não foi uma tragédia. E o mesmo ‘pé no chão’ que a Espanha precisa para mensurar o que ocorreu deve balizar as atitudes do Brasil para seguir crescendo.

Carles: Tragédia nenhuma. Provavelmente não teremos que aturar Alvarito na lateral direita nunca mais e isso, considerando que ainda não se garantiu a classificação para a Copa, é um grande alívio. Azpilicueta sem ser um cracaço tem, ao menos, condições de fazer parte desse time. Mesmo Montoya e principalmente Carvajal, destacado como um dos melhores laterais da última Bundesliga podem, sem alarde, fazer a torcida espanhola esquecer os traumas da avenida Arbeloa. Não é o único correção a ser feita, mas é a mais gritante.

Edu: Defina, então, em uma palavra, que será o título deste post, o que aconteceu no Maracanã. Dou algumas alternativas: ‘paliza’, ‘varapalo’, ‘pesadilla’, ‘repaso’.

Carles: Ninguém que tenha visto a partida duvida da superioridade do Brasil em campo hoje, só que eu sigo escavando nos aspectos psicológicos e sinto que a Espanha foi obrigada a olhar nos olhos da quimera e o resultado foi: ‘La Roja baja la mirada frente al campeón’.

Edu: Era em uma palavra, mas vou fazer essa concessão em respeito a sua cabeça inchada.

Carles: Pensei que ia ser pior, estou suportando bem. Mas aceito seu “saber estar”, semelhante ao que demonstrou Neymar, que fez questão de estender a mão a cada um dos vencidos. Claro, que ele é consciente do seu novo endereço a partir de agosto. Considerando que Marcelo e Alves vivem a mesma situação, desconfio que o menino é inteligente não só dentro de campo.

Edu: Neymar, enfim, concluiu a sua pós-graduação.

 

 

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