As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Leões Indomáveis, em campo e na vida

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

19 de maio de 2014 | 20h03

Carles: Dois camaroneses tiveram especial destaque neste fim de reta europeia: Stépahne M’Bia que meteu o time dele, o Sevilla, na final da Europe League com um gol aos 94 minutos e o velho e bom Samu Eto’o, que chamou Mourinho de tonto. Essas duas figuras vão enfrentar o Brasil.

Edu: Poucas nações africanas são tão ‘futebolísticas’ quanto a República de Camarões e ainda menos nações possuem tantas características comuns aos vizinhos de continente quanto este grande território na área central ocidental – não à toa chamado de Míni África.

Carles: O futebol está presente na maioria dos projetos assistenciais e educacionais do país, principalmente nas grandes cidades do país, Duala e a capital Yaoundé. A modalidade se transformou numa ponte de integração social. Várias cidades europeias, da Espanha inclusive – existe um núcleo do Real Madrid em Yaoundé – , mantêm programas de apoio nas periferias, mas o que mais chama a atenção da garotada que vive no limite da miséria em bairros excluídos são as escolas da Fundação Samuel Eto’o.

Edu: O grupo que atua com o ex craque do Barça não se limita a montar centros de ensino, mas exerce uma espécie de função paralela onde o poder público não atua, agindo em centros de saúde, unidades prisionais e orfanatos como catalisador de recursos para atingir metas de formação social e literalmente resgatar da miséria e das ruas meninos e meninas de todas as idades.

Carles: Frank Bagnack de 18 anos e Jean Marie Dongou, de 19, integrantes dos Leões indomáveis’, estão desde moleques no Barça, depois de serem descobertos quando disputavam um torneio sub-12 em Barcelona, trazidos justamente pela fundação Samuel Eto’o.

Edu: O futebol africano não seria o que é sem os desbravadores de Camarões, as sociedades africanas veem refletido – nessa terra que conjuga paisagens áridas, núcleos de pobreza extrema e lindas regiões montanhosas e litorâneas – muito de seu perfil multicultural, de sua fragmentação política e dos fortes contrastes sociais, potencializados por décadas de exploração pelos colonizadores europeus. A mortalidade infantil é endêmica, a expectativa de vida ainda é uma barreira e mal supera os 50 anos de idade, mas há uma população predominantemente jovem – 70% estão abaixo dos 30 anos – que se encarregou de levar o país adiante depois do período de dominação estrangeira.

Carles: No caso dos camaroneses, o imperialismo atacou em dose dupla: até o início dos anos 60 o país era controlado em parte pela França e em parte pela Inglaterra (os territórios chamavam-se French Camerun e English Camerun), na prática, dividido em duas regiões com idiomas e sistemas educacionais e de saúde distintos. Nesse panorama de liberdades controladas com a velha justificativa de garantir a segurança diante dos conflitos tribais, as mazelas do país nunca puderam ser enfrentadas da forma como as sociedades locais propunham, ao passo que as parcas riquezas naturais eram, na verdade, divididas por três.

Edu: O contexto hostil formou uma sociedade de valentes batalhadores, responsáveis pela construção de uma nação que tem pouco mais de 50 anos e ainda não se desgarrou totalmente das influências imperialistas – nem da miséria que atinge mais da metade dos nativos e da corrupção crônica nas instituições públicas. Nascido no seio de uma população de bravos, não é por acaso que o time de futebol nacional é chamado de Leões Indomáveis’, desde que os míticos Roger Milla e Thomas N’Kono lideraram a geração que fez estragos na Copa do Mundo da Itália, em 1990, e iniciou a saga que se prolongou sob as ordens de herdeiros de sucesso na Europa, como Jacques Songo’o, Geremi Njitap e principalmente Samuel Eto’o.

Carles: O significado real para a juventude africana de vários países de nomes como Eto’o, Didier Drogba ou George Weah é impossível de ser avaliado com o devido distanciamento crítico  pelo Hemisfério Norte rico e branco. Mas é fácil perceber a importância do futebol em um país tão jovem, que busca seus caminhos de sobrevivência e crescimento e necessita de instrumentos de coesão social. A administração do futebol foi assumida como questão central desde a independência. O campeonato nacional é relativamente bem organizado e tem o pomposo nome de ‘Elite One’ (a segunda divisão é a ‘Elite Two’), mas, como em outros setores, também caiu em mãos equivocadas. Presidente da federação por muitos anos, responsável pela grande equipe que conquistou duas Copas da África (o país tem quatro títulos) e a medalha olímpica em Sydney 2000, Mohammed Iya transformou-se em personagem central de vários escândalos de apropriação indébita de recursos públicos e hoje cumpre pena numa das penitenciárias de segurança máxima do país.

Edu: A Europa, claro, continuará sendo uma grande meca. Da relação de 28 jogadores convocados previamente para a Copa no Brasil, apenas dois atuam em Camarões (o goleiro Loic Feudjou e o zagueiro Cedric Djeugoue, ambos do Coton Sport) e devem ficar de fora da lista final de 23. A força da equipe está no meio de campo, mais até do que no poderio de Samuel Eto´o, um jogador excepcional mas que já vive um período  de rendimento irregular por suas limitações físicas.

Carles: A referência no meio, por razões hierárquicas e de currículo, é o seu amigo Alex Song, que no Barça joga como volante defensivo mas que na  Seleção joga mais adiantado, armando o jogo, normalmente ostentando o número 10.

Edu: Mas o meio-campista em melhor forma do país é justamente M’Bia, que desclassificou o Valencia com aquele gol nos descontos e formou uma barreira junto com o luso Carriço na final de Turim para levantar a Liga Europa. A marcação no setor fica a cargo do jovem volante do Schalke 04, Joel Matip, enquanto o veterano Jean Macoun, do Rennes, cuida da conexão com o ataque, onde estarão Eto’o e provavelmente outro veterano, Mohammadou Idrissou, se bem que a concorrência do garoto Vincent Aboubakar, do Lorient, tem sido acirrada.

Carles: A defesa de Camarões continua sendo a linha mais frágil do time, com Aurelién Chedjiou, do Galatasaray, e a preciosa ajuda de Benoit Ekotto, que também atua pelo meio de campo no Queens Park Rangers. Camarões e Brasil jogam na rodada final do grupo, dia 23 de junho em Brasília. Vai ser a quarta vez que as duas seleções se enfrentam, duas vitórias brasileiras, 3 a 0 na Copa de 98, um 2 a 0 na Confederações 2001 e uma vitória por 1 a 0, gol justamente de Eto’o na Confederações 2003. Um torneio horrível para o Brasil que acabou desclassificado, como terceiro no grupo, enquanto o time camaronês avançou até a final contra a França. Na semifinal, os africanos ganharam da Colômbia por 1 a 0, mas perderam o meio-campista Marc-Vivien Foé, que morreu depois de passar mal durante o jogo o que acabou afetando muito a delegação. Os jogadores celebraram a vitória normalmente e só ficaram sabendo da gravidade do estado do companheiro nos vestiários, depois do fim do jogo.

Edu: A delegação, sob o comando do técnico alemão Volker Finke, vai se reunir só dez dias antes da viagem para o Brasil. Finke é um ex meio-campista de segunda linha, que atuou por equipes inexpressivas, e treinou o Freiburg, onde conquistou duas vezes a Série B da Bundesliga, por longos 16 anos. Foi o que o credenciou para assumir o time de Camarões em 2013 com pouco tempo para dar estrutura a uma equipe com jogadores radicados em diferentes centros e que sentem falta de disputar amistosos de peso.

Carles: Uma cadeira que já foi ocupada pelo nosso célebre Javier Clemente, vejam vocês, como substituto do francês Paul Le Guen que tinha perdido todos os jogos da fase de grupos da Copa 2010. Clemente não foi muito melhor que o predecessor e deixou o cargo com o time fora da Copa da África 2012. Aí chegou Finke, depois de um mandato tampão do autóctone Jean-Paul Akono.

Edu: Finke confia na última etapa de treinamentos em Vitória, no Espírito Santo, e também na facilidade de ambientação ao clima, embora seu elenco viva em terra europeias durante 11 meses do ano. A estreia contra o México, sob o sol de Natal (13 de junho), será como uma decisão para os camaroneses, já que uma sonhada classificação seria difícil se dependesse apenas do enfrentamento contra os favoritos do grupo, Croácia (em Manaus, dia 18) e Brasil (23 de junho, em Brasília).

Carles: Segundo os indicadores do último ranking Fifa a única seleção do  grupo que subiu foi o Brasil, do sexto ao quarto posto. Os outros três se mantêm como estavam: México 19ª, Croácia 20ª e Camarões 50ª. Complicado, como tudo na história desses africanos.

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: