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Libertadores, ou a arte de ser ‘cascudo’

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

12 de julho de 2013 | 07h20

Carles: É provável que o Galo tenha passado pela prova mais difícil, nesta semifinal. É favoritaço na final contra os paraguaios, não é mesmo?

Edu: Na Libertadores, falar em favorito pode ser uma armadilha, basta ver como terminou o eletrizante jogo contra o Newell’s. Mas por tudo o que o time do Cuca fez até aqui, sim, sem dúvida. A única coisa que o Olympia tem mais que o Atlético hoje é tradição em Libertadores, um título que já ganhou três vezes.

Carles: Verdade, e é um título inédito para o clube mineiro. Vocês são conscientes de que, brilhe quem brilhar nessa conquista, mesmo que Vitor seja capaz e defender todos os pênaltis, que Cuca arme esquemas vencedores, que o jovem Bernard faça chover ou Jô converta os gols decisivos, mesmo assim, por aqui certamente as manchetes serão mais ou menos assim: “Gaúcho leva o Atlético de Minas à final interclubes”. Até que ponto isso seria um ato de justiça?

Edu: Nesta última fase, a mais complicada, Gaúcho tem sido mais uma boa manchete para os europeus do que determinante dentro de campo. Não foi bem no jogo de ida e ficou devendo em Minas. Mas é um cara que ainda monopoliza as atenções dos adversários, o que ajuda o pessoal daquela região do campo. O primeiro gol da semifinal veio de um excelente passe dele para Bernard, mas foi só. É compreensível que, por aí, o pessoal ressalte o Gaúcho, mas não tem sido tudo isso. O Atlético é um time que aprendeu a jogar Libertadores, sabe que, às vezes, é preciso ter outras coisas além de técnica. Neste jogo, por exemplo, o Newell’s foi um time até mais ‘brasileiro’ que o Atlético, colocou a bola no chão, privilegiou a habilidade. Mas deu no que deu.

Carles: Eu vi o máximo do jogo que pude, na madrugada e entre um café e outro. Apesar de o gol decisivo sair no último minuto, foi importantíssimo o passe de Ronaldinho para abrir a lata, para que o time pudesse jogar com  tranquilidade para conseguir igualar a eliminatória. Pareceu-me que o campo estava em péssimas condições e que o Galo jogou não de forma desleal, mas duro. É esse o perfil dos times de Cuca? Esse Galo vai ser um digno representante da América do Sul se eventualmente passar pelo Olympia? Ou se parece mais a aquele Estudiantes de ‘La brujita’ Veron que dificultou as coisas para o Barça na final de 2009?

Edu: Nem tanto. É um time que tem suas virtudes técnicas e alguns jogadores importantes, como Tardelli, Réver e os que você citou, Jô e Bernard. Na primeira fase da Libertadores fez partidas excelentes, quando ainda não havia aquela pressão do mata-mata. Acontece que a febre da Libertadores nas últimas duas décadas foi de certa forma ‘educativa’ para alguns times brasileiros que chegavam um tanto faceiros para esses jogos. O Corinthians, mesmo o Santos de Neymar em 2011 e até o Fluminense, que ainda não conseguiu o título, tiveram um processo de aprendizado dolorido e não só nos confrontos contra os argentinos. Não é uma faceta muito abonadora da Libertadores, um torneio na verdade bastante ‘cascudo’, no qual nem sempre vence o melhor, e que envolve muitos outros fatores, como arbitragens hesitantes, pressões diversas, o peso da torcida etc. Mas não dá pra dizer que a final do Mundial de Clubes será uma barbada para o Bayern campeão europeu. Seja qual for o adversário. Os sul-americanos nessas horas se superam.

Carles: A desigualdade entre as diversas ligas nacionais faz que torneios como a Libertadores e mesmo a Champions obriguem os grandes clubes a passar fases poucos apetecíveis para poder chegar à tão desejada sobremesa. Acho que isso é mais gritante ainda na Libertadores, na que vejo times se arrastando pelas primeiras fases, preguiçosos ou pouco concentrados. Imagino como se aborrecem consigo mesmos, ao assistirem pela TV, a times batalhadores como o Olympia aspirando a ser campeões mundiais. Não seria necessário um trabalho de reeducação dos clubes brasileiros para realizar esse “sacrifício” inicial de uma forma mais aplicada?

Edu: Acho difícil, porque temo que a competição é cultuada justamente por oferecer esse tipo de dificuldades, fase a fase. É certo que alguns clubes agem de forma mais pontual e com planejamento específico. Mas a maioria sabe que terá que enfrentar situações nas quais a questão técnica fica sublimada e outros fatores ganham importância. Veja o caso do Corinthians neste ano. O time mudou pouco em relação ao ano passado, já tinha sua estrutura técnica pronta, e vitoriosa. Mas não foi para a competição com a mesma fome que na temporada anterior, achando talvez que a superioridade técnica iria se impor quase como num processo de rotina. Libertadores não é assim, definitivamente.

Carles: Pois é, justamente o caso daquele Corinthians tão mordedor que eu vi aí no Brasil ganhar o torneio em cima do Boca, e que neste ano parecia relaxado, com falta de concentração. É possível que os clubes brasileiros sigam sem priorizar a Libertadores ou depende de que a filosofia da direção técnica  seja “copeira”?

Edu: No fundo, capacidade de concentração, pegada, redução de erros, dedicação tática são coisas que fazem parte de um grande time para qualquer competição. A diferença é que você tem que ter tudo isso e ainda ficar ligado nas pressões extracampo, nas arbitragens terríveis (nesse jogo, um pênalti claríssimo para o Galo foi ignorado), nos critérios distorcidos de disciplina e tantas outras coisas que necessariamente não são componentes de um grande time. Esse é o fator Libertadores. Acho que o Galo aprendeu a lição.

Carles: Pois, torçamos por esse jeito mineiro de trabalhar. Eu, pelo menos, gostaria de ver um revivido Ronaldinho fazendo “virguerias” frente aos gigantes do poderoso Bayern. E enfrentando Pep Guardiola!!!

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