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Lição alemã, e é só o começo

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

23 de abril de 2013 | 22h24

Carles: Não é nenhuma novidade, mas acho que, hoje, assistimos ao campeão da Champions.

Edu: Sim, assistimos. E de um jeito alemão de jogar – com talento, mas alemão.

Carles: Os alemães estão se reinventando, inspirados no jogo dos baixinhos “jugones”, mas jogado por super-homens, capazes de mostrar talento, de bloquear e aguentar 90 minutos no mesmo ritmo. Forte, muito forte. Má notícia para o Barça, má notícia para ‘La Roja’, para o Madrid e para o resto dos adversários do próximo Mundial.

Edu: E essa originalidade/intensidade passa por contestar um emblema: o da posse de bola. Esse jogo foi significativo nesse sentido. A certa altura pouco importava para o Bayern ter a posse de bola, porque o domínio vinha com a segurança do que estavam fazendo mesmo sem ter a bola, a história muitas vezes repetida de não correr riscos ainda que diante de um time como o Barça. Além da receita germânica de marcação com massacrante superioridade física, uma virtude de sempre por aqueles lados.

Carles: Em parte. O segredo, acredito, não é a posse de bola, mas a rapidez para recuperá-la e nisso o time do Bayern foi irrepreensível. Se não chegou a uma porcentagem de posse de bola  superior, tampouco deixou o adversário desfrutar de ter a redondinha. Em resumo, o Bayern mostrou um coquetel ideal de várias fórmulas. Além da recuperação quase imediata da bola, a rapidez de circulação que têm mostrado os melhores antídotos ao Barça e a movimentação dos homens de frente. Muita, mas muitíssima mobilidade para variar rapidamente o desenho sobre o campo. Diversificando a postura para receber os ataques e para efetuá-los.

Edu: Ainda assim é preciso levar em conta algumas ‘facilidades’, incluindo uma forcinha básica da arbitragem em dois gols. Por exemplo, times mesquinhos como o Chelsea e mesmo o Real Madrid não abririam avenidas com tapetes vermelhos para Robben e Ribery desfilarem como fez o Barça. Se essa não é uma vocação do time catalão, o que é saudável, fica complicado quando não há alternativas em um dia que suas individualidades não funcionam. Estranhíssimas a passividade de Iniesta e a falta de criatividade de Xavi. E, agora, depois do jogo, fica fácil de dizer: foi um erro colocar Messi em campo daquela forma. Um castigo para ele e para o time.

Carles: Sem dúvida foi um erro escalar Messi desde o princípio, mas quem é o macho para decidir não escalar o argentino? E, pior, quem diria isso para ele??? Visível a falta de condição mínima de jogo. Inclusive, diria, prejudicou o resto do time, que acabou travando nele. Incrível dizer isso, mas acho que a presença de Leo prejudicou o jogo de Iniesta e Xavi, que se vêm sempre na obrigação de procurar o argentino para concluir a jogada. Quanto à arbitragem, evitei falar nisso para não parecer choro de perdedor, mas definitivamente, os homens que decidem o destino desse esporte tem que pensar em mudanças imediatas. Não que uma boa arbitragem tivesse mudado o destina da partida, mas o atual estado de coisas, além de acabar decidindo muitos resultados, acaba por irritar jogadores, treinadores… e o espetáculo fica distorcido.

Edu: O próprio Barça tinha sido ajudado pela arbitragem antes, com aquele pênalti obsceno do Piquet não marcado. Ok, juiz muito ruim, auxiliares péssimos. Mas o exagero da superioridade dos alemães vai deixar essa discussão em segundo plano até mesmo na Catalunha. É isso que assusta. Em certo momento pareceu um jogo de adultos contra sub-20. Só que era o Barça!!!

Carles: Mais que inferioridade do Barça foi a superioridade do Bayern (e a fragilidade defensiva do Barça, claro). Achei inclusive que o Barcelona em alguns momentos mostrou até mais lucidez que na ida contra o PSG, em Paris. Não vejo ninguém capaz de frear esse time alemão. E no ano que vem, reforçado pelo talento de Götze… imparáveis. Götze, aliás, que o Madrid já colocou em campo contra seu próprio time, utilizando o noticiário sobre a sua transferência. Uma estratégia habitual do “club blanco”.

Edu: Não sei se foi o Madrid, mas funcionou, porque o caldeirão de Westfalen não deve receber bem o garoto ‘traíra’ na semifinal contra o time do Mourinho. E na Copa, já veremos. Se a ‘Roja’ montou um Barça reforçado por Iker, Xabi Alonso e Ramos, a Alemanha terá o Bayern reforçado por Özil, Hummels e Marco Reus, além do Götze claro. Quero ver quem segura esses caras. Se tivesse que palpitar hoje, já escolheria minha finalíssima do Maracanã no dia 13 de julho do ano que vem: Alemanha e Argentina.

Carles: E se assim for, fora do estádio, o clima será parecido ao de um velório.

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