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‘Los Catrachos’, por dignidade e algo mais

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

24 de março de 2014 | 21h56

Carles: No dia 15 de Junho de 1969, o francês Jérôme Valcke era um menino de 9 anos de idade e, provavelmente andava muito mais preocupado com as iminentes férias escolares de verão do que com o conflito entre hondurenhos e salvadorenhos que eclodia a 9 mil quilômetros da sua terra natal. Ironicamente, umas quantas décadas depois, o mesmo Jérôme teve que cruzar o Atlântico para, com suas mãos de prestidigitador e algo de acaso, decidir que Honduras estreasse na próxima Copa exatamente no dia em que se cumprem 45 anos do início da que ficou conhecida como Guerra do Futebol. E contra quem?

Edu: Aquele conflito contra o vizinho El Salvador teve muito a ver com um dos flagelos que assolavam boa parte da América Latina na época – a dramática situação dos trabalhadores rurais. Não que hoje tenha melhorado de forma expressiva em muitos países da região, mas aquela conjuntura era especialmente nefasta para os salvadorenhos que cruzavam a fronteira atrás de emprego nos latifúndios hondurenhos. A guerra – chamada também de Guerra das Cem Horas – foi pontuada coincidentemente pela disputa nas eliminatórias entre os dois países, vencida numa melhor de três jogos por El Salvador, que fez sua estreia no México/70. Por uma longa década, os vizinhos ficaram purgando as cicatrizes daquela guerra, algo que certamente não afetou a infância bem nutrida de Monsieur Valcke. Hoje, Honduras atingiu um patamar futebolístico bastante superior ao dos salvadorenhos.

Carles: Uffff! final dos 70, tempos de duras lembranças para praticamente toda a América Latina, a macrorregião que se atreveu a despontar como candidata a celeiro do mundo, produtora de alimentos e habitat natural de camponeses e, por isso, de alto risco para os interesses do “mundo ocidental livre”, segundo os patrocinadores de quase todos os conflitos do tipo. Mais livre para uns que para outros, como pudemos comprovar nos seguintes anos. Para monsieur Valcke e para muita gente do “primeiro mundo”, pouca diferença existia entre Honduras, El Salvador, Panamá… Aliás, não sei se vocês conhecem uma história do tempo do aznarismo em que o então glorioso Ministro da Defesa espanhol, o ultracatólico Federico Trillo, saudou as tropas aliadas do exército de El Salvador no Iraque com um “Viva Honduras”, numa das mais vergonhosas pífias internacionais. Uma confusão imperdoável, até mesmo no futebol já que Honduras participa da sua terceira Copa contra aquela única de El Salvador, já bem distante no tempo.

Edu: Se para o sutil Reagan chamar o Brasil de Bolívia, e vice-versa, era uma gafe de rotina, por que o beato Trillo não poderia se equivocar? Depois daqueles tempos de sombras, o futebol hondurenho avançou muito, a ponto de aprontar uma roubada para ninguém menos de Luiz Felipe Scolari na Copa América de 2001. Nas quartas de final, o time que já tinha eliminado o Uruguai deixou também o Brasil pelo caminho e o treinador que seria campeão do mundo no ano seguinte com cara de tacho. Lembro bem de um gol contra do seu ex-vizinho Belletti e da cabeçada de Saúl Martinez que definiu a vitória hondurenha. O país terminou aquele torneio com a melhor performance internacional de sua história, terceira colocação, e com seu capitão, Amado Guevara, eleito melhor jogador do torneio.

Carles: Logo na sua estreia em Copas do Mundo de Futebol, na Espanha 1982, a seleção hondurenha arrancou um empate por um gol contra a dona da casa e repetiu placar contra a Irlanda do Norte, no segundo jogo. Só acabou desclassificada porque perdeu o terceiro jogo para a Iugoslávia pelo placar mínimo. Na sua segunda Copa, em 2010, e mais uma vez no grupo de La Roja, voltou a ficar pelo caminho e de novo fazendo um papel digno, sem receber nenhuma goleada humilhante. Muito pelo contrário, o 2 a 0 da seleção espanhola na África do Sul foi a única partida até hoje em que Los Catrachos tomaram mais de um gol numa Copa. E encara a aventura no Brasil desde o alto da 36ª posição no Ranking Fifa, não muito longe do outro latino-americano do grupo, Equador, que é o 23º, além da própria França, 17ª e da atual moradia de Jérôme, a Suíça, na sétima posição. Alguma chance de que os hondurenhos cheguem mais além de Porto Alegre, Curitiba e Manaus?

Edu: Ah, nenhuma, mas podem dar uma canseira em alguém. É um time com jogadores experientes, muitos com vivência em campeonatos cascudos, como um dos capitães, o lateral Maynor Figueroa, cem jogos pela seleção, que esteve cinco temporadas no Wigan e agora é destaque do Hull City, na Premier. Outro zagueiro, Arnold Peralta, é titular no Rangers escocês e caminha firme com o time que foi punido há dois anos, após sua falência, com o descenso à quarta divisão e que, gradativamente, está voltando à elite. Não vi jogar, mas falam muito bem de um garoto, 21 anos, Andy Najar, que esteve na Major League e foi contratado recentemente pelo Anderlecht. Aliás, muitos jogadores da seleção de Honduras atuam pelo futebol norte-americano, o que certamente ajudou na belíssima campanha que fizeram para conseguir uma das vagas da Concacaf, levados pelo técnico colombiano Luis Fernando Suárez.

Carles: Najar promete mesmo. Já em 2010, tinha sido eleito rookie do ano na Major Legue. Na sua estreia, nesta mesma edição da Champions League, aos 21 anos de idade (o sexto hondurenho da história) foi muito celebrada pelos seus compatriotas, principalmente pela sua participação decisiva no gol contra Olympiacos grego na eliminatória pela fase prévia. O Anderlecht acabou derrotado por 3 a 1 e foi eliminado. Por aqui, tivemos o Choco Lozano, contratado pelo Valencia muito jovem e atualmente cedido ao Alcoyano de segunda divisão. Além de Jonathan Mejía Ruiz, o ‘Jona’, de 25 anos, nascido em Málaga, filho de um hondurenho e uma espanhola e que optou por defender as cores de Honduras, atendendo a convocação de Suárez para um amistoso contra a seleção de Israel no ano passado.

Edu: O elenco ainda não está definido e, entre os amistosos de preparação, haverá um confronto contra a Inglaterra. Quem sabe esse mix de vivências não faz um conjunto hondurenho interessante para a estreia de Porto Alegre contra o país de Valcke? Não seria a primeira vez que a França se surpreenderia com um azarão…

Carles: Nesse caso, como diria meu avô, “os franceses seriam apanhados de calça curta”. Igualzinho ao Jérôme naquele 15 de Junho de 45 anos atrás.

 

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