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Madrid leva a Lisboa 110 anos de orgulho e rivalidade

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

23 de maio de 2014 | 20h27

Edu: Decisão de Champions em Lisboa travestida de Madrid. Durante as últimas três semanas ficou evidente que a preocupação dos dois rivais da capital era jogar a pressão para a casa alheia. Nos últimos dias, porém, o Real Madrid assumiu essa pressão, tanto que uma pesquisa do jornal mais madrileño do planeta, o Marca, apontou que para quase 90% dos torcedores não ganhar ‘La Décima’ será um fracasso, não importa que do outro esteja o campeão da Liga. Quem vai para a final com mais apetite, o gigante milionário que não suportaria o tamanho da frustração, ou o vizinho modesto e batalhador, que, em tese, já teve sua missão cumprida na temporada mas pode chegar ao paraíso?

Carles: Já comentei outro dia que, provavelmente, a tendência é de que Cholo and fellas considerem o dever cumprido e isso pode significar o relaxamento que permite jogarem tranquilos, sem demasiado peso nas costas ou nas pernas. Mas também tem o risco de tirar-lhes algo de ambição. Contudo, se a lição das ganas totais, do jogo a jogo estiver bem aprendida, eles podem surpreender e jogar mais este como se fosse o último das suas vidas, e assim, o próximo… e o próximo… Do outro lado, é até compreensível essa sensação endogâmica, indiferente aos pares, acostumado a relacionar o sucesso ou fracasso somente ao próprio desempenho sem ter em conta o bem fazer dos outros. Normal em quem está acostumado a uma vida de relação com o poder. Mas também tem outro dito popular que avisa: quanto mais alto, mais forte o tombo. É assim, se não me engano, não?

Edu: Bom, não poderia esperar outra posição, mas não é possível que você não veja méritos apenas esportivos na forma como essa equipe chegou à final da Champions. Esqueça, por favor, por uns poucos segundos sua secular posição sobre o centralismo de Madrid, o superego de Florentino, o poder econômico opressivo da capital e responda: aquela surra no Bayern em Munique não é algo para os compêndios futebolísticos? O ‘time do poder’ é ou não um supertime que, no balanço da temporada, reúne as melhores credenciais para levar o título?

Carles: Posso não ter me explicado bem: méritos esportivos, todos! E as minhas restrições nem são com relação ao time, nem ao clube. Bom, talvez um pouquinho só. Mas viver de perto qualquer situação decisiva envolvendo o Real Madrid pode ser desesperante, principalmente do ponto de vista informativo. Como disse antes, até se entende, porque parte dessa mídia cega faz décadas que ganha o pão graças às glórias do clube branco. Desta vez, inclusive, devo reconhecer que as crônicas, comentários e manchetes são bem menos triunfalistas. Talvez porque todos desconfiam de até onde possa chegar esse Atleti mordedor, ou talvez porque são os dois clubes grandes da cidade e ninguém quer se arriscar a angariar a antipatia de uns ou de outros. Afinal toda essa gente compra jornal, lê portais, consome, vai a restaurantes e vota, inclusive para prefeito. Por isso a alcaldesa madrileña tem ido tomar todos os “cups of café con leche” possíveis com os rojiblancos, fazendo questão de recordar sempre publicamente que o marido – o mais poderoso símbolo da direita, vivo – está sofrendo com a conquista da décima orejuda pelo time do coração.

Edu: Não poderia ser diferente, é uma final com nuances políticas e sociais até a medula, porque blancos e rojiblancos fazem dessa cidade um fervilhante palco de discussões e divisão de espaços que, embora desigual pelo poderio econômico de um, nunca deixou de lado os apelos em favor do outro, nem que seja para ser do contra, como consta do DNA espanhol. O Atlético, aliás, você bem sabe, tem verdadeiras facções conservadoras, o que por definição não lhe garante o privilégio de representar as classes populares. Madrid é uma cidade do futebol por excelência, essa é a verdade, ninguém está indiferente, e os componentes políticos, a diversidade enfim, são o tempero dessa disputa. Mas não tenha dúvida de que Ancelotti e Simeone mantiveram seus rapazes alheios a tudo isso, mesmo porque grande parte do pessoal que estará em campo vem de fora, não viveu esse enfrentamento que em outros tempos dividia a cidade em trincheiras, praticamente.

Carles: Tem razão, Zé, por gênese, inclusive, o clube rojiblanco poderia ser considerado o mais conservador dos dois. Até mesmo por história, as governanças e desgovernanças dos Gil y Gil, a mais chamativa, também não são nada abonadoras. Por outro lado, o Real Madrid tem uma história de popularidade tão arrebatadora que o acabou transformando em um suculento instrumento de controle popular. Bom, mas essa é uma velha história – a popularidade que o oportunismo político transforma em populismo, frequente não só no futebol -, que demandaria páginas e páginas e nem assim conseguiríamos chegar a uma conclusão. Também tem razão que o jogo se joga em outro campo, no gramado e com gente alheia a tudo isso, mesmo porque muitos nem são espanhóis. Diego Costa enfrenta a defesa do Madrid da mesma forma que enfrentaria a do Barça ou do Chelsea. Cristiano Ronaldo nem sabe direito quem foi Franco. O jogo tem tudo para ser fervido até pelas características das duas equipes. Sem Xabi Alonso nem Pepe, talvez sem Diego Costa e provavelmente com Arda Turan. Mas com Simeone e Ancelotti, dignos finalistas.

Edu: Se você quer saber, é o tipo de jogo cascudo em que o vencedor será o vencedor de fato, legítimo. Real Madrid e Atlético jogam de forma transparente, têm estilos marcados, com características próprias. Há craques por todos os lados, o clima não é de grande animosidade e, nas entrelinhas das manifestações, até mesmo os 110 anos de rivalidade não escondem o orgulho espanhol por fazer uma final continental. Não acho que Cholo arriscará com Diego Costa, mesmo porque fez algumas partidas excepcionais sem ele, principalmente aquela do Calderón contra o Barça. E Pepe pode até fazer mais falta ao Madrid do que o hispano-brasileiro ao Atlético. Sem falar em Xabi Alonso. Ainda considero que, sem pressão, o time de Simeone pode causar um grande estrago.

Carles: É a primeira final continental da história entre clubes da mesma cidade. A disputa começou na escolha do tipo de aeronave que levaria cada uma das equipes a Lisboa, quem optou pela menor, com menos oba-oba e menos veloz e quem foi de Airbus (adivinha!). Também presenciei chamadas anunciando o jogo na TV Catalã em tom épico. Claro ‘la pela es la pela’ e na hora de vender uma transmissão esportiva que se dane o sentido de pertencimento. Quanto aos estilos marcados certamente representam claramente as respectivas vozes dos donos. O Atlético conta com a desvantagem de ter sido mais exposto ultimamente, enquanto o adversário, já há uns dias fora da disputa local, pode observar e tramar alguma surpresa à italiana. Provavelmente será um jogo para gente como Modric, Gabi e quem sabe, o renascimento do velho e bom instinto ganhador de David Villa. Um justo prêmio ao conjunto da obra e um digno começo do fim para a carreira do ‘El Guaje’.

Edu: Enfim, por la décima o por la primera e em um campo que tem um dos codinomes mais sublimes do mundo do futebol: Estádio da Luz.

 

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