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Madrid, uma máquina trituradora de alemães

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

26 de fevereiro de 2014 | 20h30

Carles: Ontem cravávamos a coluna 2 nos últimos dois jogos da rodada de Champions – Ancelotti confirmou, enquanto Mourinho esteve a ponto. Na verdade, dentre todos os mandantes, só o Olympiakos conseguiu guardar os três pontos em casa.

Edu: Às custas do moribundo United. Foi de impressionar a máquina trituradora de Madrid em plena Veltins Arena, se descontarmos a fragilidade do adversário, embora o placar de 6 a 1 resuma tudo. Temos aí um sério candidato a pegar o Bayern numa final.

Carles: Sem dúvida, um time bem posicionado, sem invenções, um meio de campo muito ativo e com uma enorme potência na frente, a “BBC”, segundo a tietagem da imprensa madrileña. Três atacantes multiplicados por dois gols igual a seis, simples assim. O Schalke nem viu de onde veio o caminhão que o atropelou. E o “reserva” Casillas tomou o primeiro gol do ano mas fez uma defesaça fundamental com o placar de 0 a 1.

Edu: Não sou fã dos times de Ancelotti, mas é preciso reconhecer que ele sabe dar confiança a seus jogadores preferidos e tem muita habilidade para trabalhar com temas delicados. Basta ver o que fez com Di Maria, enfrentando o clamor da imprensa madrileña por Isco. Deu moral ao argentino, o transformou em fundamental no esquema e calou os críticos. O mesmo com Casillas. A rigor, manter o revezamento com Diego Lopez é a mesma coisa que Mourinho tentou fazer, só que o português não teve a menor habilidade e o mundo lhe caiu em cima. Praticamente é o que acontece com Bale e Jesé, ambos jogando muito bem e ao mesmo tempo disputando posição. Isso de dar moral a seus caras de confiança e definir quem é e quem não é titular é o que falta a Tata Martino no Barça, diga-se.

Carles: A espetacular evolução de Benzema que fez um partidaço ou a forma como se vem dando o relevo de “delfin” Arbeloa, sem nenhum alarde, são ambas obras-mestras de Ancelotti. O italiano às vezes dá a sensação de que não tem voz ativa, mas demonstrou, numa casa tão complicada como a do Real Madrid, que se pode liderar sem ser autoritário nem bajulador. Assim, conseguiu que o seu time seja candidato a tudo, mesmo que ele nunca seja recordado como um grande inovador. Já o Tata parece empenhado em querer agradar a todo mundo ao mesmo tempo e acaba por desagradar a grande a maioria.

Edu: Enquanto isso, no inferno turco, Mourinho transformou um jogo que estava sob controle em um empatezinho básico com sofrimento no final. Tudo porque entrou em pânico assim que sofreu o gol do 1 a 1 e resolveu trocar Schürrle por Obi Mikel para fazer uma trincheira à frente da zaga. Como os criativos do time não estiveram bem, nem Hazard nem Willian, os contra-ataques não saíram e o Chelsea teve que jogar com o resultado para decidir tudo na partida de volta, precisando do 0 a 0, especialidade do lusitano.

Carles: Não dá para negar os méritos de um  treinador com as conquistas de Mourinho, mas eu insisto que ele oferece um repertório muito pobre e que sempre depende demais de ter um talão de cheques na retaguarda. E é esse tipo de substituição que denota falta de recursos, de quem trabalha com um manual com muito poucos versículos. Assim mesmo, tem a classificação na mão, não imagino gente como Sneijder fazendo um esforço hercúleo para não perder, além de fazer mais de dois gols em Stamford Bridge.

Edu: A novidade de Mourinho é que Oscar, antes um queridinho intocável em seu time, é definitivamente um reserva de luxo. Hoje, mesmo com Willian mal no jogo e Ramires com um curativo no nariz depois de uma pancada no primeiro tempo, o outro brasileiro nem foi cogitado. Será que temos aí um novo Juan Mata?

Carles: Os bodes expiatórios são outra especialidade da casa. Não estaria demais estar preparado para uma crucificação de alguém que não pertença à corte de seguidores do “mister”, os que costumam dedicar-lhe declarações de lealdade e gratidão aos quatro ventos, como são os casos de Mikel, Eto’o, Essien, Arbeloa…

Edu: Só precisamos saber agora se o impacto da reserva vai mexer com o garoto, coisa que veremos na seleção em breve. Não sei se você concorda, mas me parece que seis dos oito confrontos estão virtualmente definidos na rodada da Champions que será disputada depois da semana dos jogos Fifa. Como envolve dois gigantes, Barça e City é um clássico em que tudo pode acontecer. E ainda resta uma pequena, minúscula, possibilidade de o United voltar a ser grande em Old Trafford contra os gregos. As outras partidas de volta são para cumprir tabela.

Carles: Barça e United enfrentam seus jogos em casa em circunstâncias opostas, mas com uma responsabilidade comum – são realmente as eliminatórias mais incertas, por razões distintas. Ambos são os que têm a obrigação de  superar esta fase, os catalães pela vantagem obtida e os ingleses pelo peso da camisa. E Michel tem a grande chance de dar um importante passo na sua carreira de diretor técnico. Se conseguir superar o desafio de Old Trafford pode até aspirar ao grupo de treinadores de elite do continente do momento.

 

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