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Mais do que figuras decorativas

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

20 de abril de 2013 | 15h12

Carles: Não sei se é impressão minha mas o Corinthians é, de uns tempos para cá, o clube brasileiro que mais presta atenção nas iniciativas de clubes europeus. Timidamente, Edu Gaspar é o Butragueño, o Zubizarreta, o Valdano, o Rummenigge ou o Di Stefano, ex-jogadores que hoje representam os interesses do clube. Alguns com maior poder executivo que outros, mas nenhum deles provavelmente estaria aí se não tivesse estado no campo, antes. É assim também com o Edu? Tem outros casos semelhantes por aí?

Edu: Pode ter sido uma coincidência, porque Edu Gaspar chegou ao cargo num momento de reforma de ideias dentro do Corinthians e provavelmente as coisas tivessem dado certo com ou sem ele. Mas é um caso raro no Brasil de ex-jogador, com experiência em diferentes clubes da Europa, que assume uma posição intermediária na gestão do time, uma espécie de ‘facilitador’, que sabe dos problemas do vestiário, mas tem sensibilidade para tratar com a direção. A maioria dos ex-jogadores daqui com vivência internacional quer mesmo é se tornar técnico ou comentarista. Acaso ou não, o fato é que Edu funcionou, ajudou muito na reforma do Corinthians por sua capacidade e também por conhecer demais as entranhas do clube, onde ele nasceu para o futebol.

Carles: Pelo que você está me contando, ele é um pioneiro. O cargo que ocupa é o de gerente, suponho. Por aqui é um cargo especializado, menos político que, por exemplo, o de Diretor de Futebol. Pelo menos na teoria, deve ser ocupado por profissionais com conhecimento e experiência suficiente e comprovada no futebol, além de capacidade de gestão. Gestão de material humano. Longe de ser um cargo burocrático. Provavelmente o Edu aproveitou a vivência dele na Europa. Por outro lado, é um erro pensar que um passado dentro de campo seja suficiente para ocupar o cargo. Di Stefano, por exemplo, no Madrid, nunca passou de um monumento vivo, é o presidente honorário e o único que se lhe exige é representar e desfilar um passado de glórias.

Edu: Digamos que Edu é pioneiro entre os bem sucedidos. Houve duas recentes experiências parecidas que não foram adiante. Uma com o Fernandão, no Inter de Porto Alegre, que começou como gerente e, depois, não deu certo porque virou técnico e ficou mais exposto. A mesma coisa aconteceu com o Cristóvam no Vasco, se bem que, antes de virar técnico e ser defenestrado, ele foi auxiliar do Ricardo Gomes e não gerente. Das experiências anteriores, o maior fracasso foi mesmo o de Zico, que nunca comungou com os desmandos no Flamengo e por isso não deu certo no cargo. Talvez o Flamengo tenha pensado nele com uma espécie de figura retórica, parecida com a do Di Stefano no Madrid, mas Zico não topou… E é preciso lembrar também do César Sampaio, que esteve no Palmeiras que foi rebaixado. No caso do Edu, não sei como foi a passagem dele pelo Valencia, mas os ensinamentos principais ele trouxe dos quatro anos em que conviveu com Arséne Wenger, no Arsenal. Esse tempo deu a ele uma visão bastante prática da área administrativa.

Carles: Ele viveu no Valencia o início do fim (do próprio Valencia, quero dizer), uma fase conturbada. Mas sabe como é a desconstrução – é um eficaz método de observação e aprendizado. O Arsenal, em que pese a falta de competitividade das recentes temporadas, sem dúvida, é uma escola de como administrar um clube.

Edu: O que importa é que conviveu com outra realidade nessa questão da importância dos ‘facilitadores’. Nos países que dominam o futebol europeu, o cargo de gerente, ou que nome for, tem essa relevância e acolhe ex-jogadores com uma formação pessoal acima da média e que, espertamente, preferem abrir mão dessa história de ser treinador, que aqui ainda é mais que um senso comum, é um obsessão. Há outros cargos efetivos nos clubes e o cara que se destaca tem sempre muito o que fazer. Txiki Begiristain fez um trabalho profícuo no Barça, algo próximo mesmo a um diretor de recursos humanos voltado apenas para o futebol, tanto que foi exportado para o City. E Valdano fazia mais ou menos isso em Madrid até trombar com o lusitano.

Carles: Valdano às vezes me dá nos nervos, mas tenho que reconhecer a sua valia e inteligência. Foi a primeira vítima do “rei sol” no Madrid e por isso, pego de surpresa, não teve nem chance de se defender. Acho que a gestão no clube só perdeu. Ganhou Jorge, que comenta o futebol espanhol com absoluta distância, desde seu retiro espiritual, em companhia da mãe, na sua natal “Las Parejas”. Outro nome a destacar nesse trabalho, talvez o mais brilhante durante um bom tempo, é o de Monchi, ex-goleiro e que foi o principal responsável por montar o Sevilla ganhador de Palop, Sérgio Ramos, Dani Alves, Adriano, Renato, Kanouté e Luis Fabiano. Grandes craques comprados por bagatelas e alguns vendidos a peso de ouro. O mais importante, contudo, foi a satisfação da torcida em poder ver jogar aquele time.

Edu: É bom ressaltar figuras discretas e trabalhadoras como Monchi, para que não nos enganemos com outras mais reluzentes. Por exemplo: Leonardo. Não discuto o preparo do Leonardo, seu poder de comunicação, sua inteligência. E suponho que seja um ótimo caráter. Mas, como dirigente, é um produto totalmente artificial. Parece que está ali só porque é poliglota. Quando vivia na sombra, no Milan, antes de se tornar técnico, tinha uma função muito mais útil. Mas agora só funciona com ribalta, com o apoio de grandes craques. E, claro, com o supersalário das arábias que tem no PSG. No fundo, está na dele.

Carles: Mas a Europa glamourosa valoriza muito essas figuras, poliglotas, com aparência eternamente jovial e no fundo rançosas. É a Europa dos Grimaldi. A do Big Brother que adora ver o Leonardo pedir a namorada jornalista em casamento durante o programa que ela comanda. E, pelo visto, ele sabe muito bem fazer esse papel.

Edu: Para dizer a verdade, Carlão, ele sempre foi um cara que gostou disso. Mesmo quando jogador tinha essa postura de ‘o articulado do time’. Insisto: Leonardo está na dele.

Carles: Pois vida longa aos Edu Gaspar e similares, então, para o bem do futebol. E que venham mais. Porque o Monchi, tenho sentido, ultimamente está desanimado e meio encostado (não necessariamente nessa ordem). Talvez queimado na fogueira das vaidades do chefe, José Maria del Nido, presidente do Sevilla, um frequente inconformado com o êxito alheio.

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