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Mais fácil explicar do que justificar

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

19 de outubro de 2013 | 20h24

Carles: Pode parecer desculpa, mas o tal vírus Fifa parece mesmo afetar a Liga. Não tinha visto Barça e Atlético de Madrid errando tantos passes nesta temporada. Diego Costa, que não foi com nenhuma seleção, irritadiço outra vez e Neymar perdidinho em campo. Ou seja, o problema não foi só com os que chegaram da tensão de jogos decisivos com as suas respectivas seleções, mas o desencontro e a quebra de ritmo, reflexo da “data Fifa”, foi um efeito estendido e generalizado. À parte das possíveis contusões.

Edu: Neymar pareceu cansadão mesmo e não é à toa para quem foi até o outro lado do mundo. Ainda assim foi o único que tentou algo diferente, apesar de não ter dado um chute sequer a gol. Xavi e Iniesta estavam estranhos, errando passes, sem o comando do time como sempre têm. Com todos os argumentos, tenho ainda minhas dúvidas se esse vírus Fifa não é uma grande desculpa, porque, por exemplo, Montoya e Adriano só ficaram treinando e fizeram uma partida horrenda. E mais da metade do time do Atlético, que perdeu a invencibilidade para o Espanyol, nem esteve nas seleções.

Carles: Não é bem assim, Courtois, Juanfran, Godin, Mario Suárez, Koke, Turan, Cristian Rodriguez, todos eles estiveram com as suas seleções. Os que ficaram, treinaram sem o resto do time. Para que uma troca de passes seja eficaz e rápida tem que haver compenetração coletiva, correto posicionamento e coordenação. Insisto que mesmo para os craques, é um esporte coletivo, que depende do ajuste entre as peças. Mesmo assim, não tem desculpa, os clubes conhecem a maioria dos compromissos das seleções no inicio da temporada e tem a obrigação de planejar com antecedência e encontrar uma solução.

Edu: Ah Carlão, isso aí tem um jeitão do famoso ‘me engana eu gosto’. Esse caras jogam juntos durantes meses, anos. E uma semaninha sem treinar fez acontecer tudo isso? Esqueceram a cartilha? A explicação física eu até aceito, se bem que os convocados da Espanha fizeram dois jogos em casa pela Seleção, mas, enfim, há um  certo desgaste. Mas essa história de treinar? Por favor… E o time do Simeone perdeu toda aquela energia porque ficou sem meia dúzia de caras em um elenco de 20 e tantos por uns dias?

Carles: Os ritmos das competições são muito diferentes. Nem tanto no caso de Liga e Champions, como na parada das seleções. Tem o desgaste físico, tem a mudança de chip de um esquema para outro e tem o ritmo emocional. Tento explicar, não justificar, não tenho ações de nenhum clube e muito menos defenderia nenhuma federação. Mesmo eu estava meio de saco cheio de futebol e até preferiria um cineminha à rodada da Liga. Imagine os jogadores, principalmente os que tiveram jogos transcendentais. Pode ser que Neymar tenha começado tentando algo diferente, mas foi se esvaindo e começou a fazer tudo ao contrário. Notei que ele tem certa dificuldade em jogar à frente da linha da bola, na posição de centroavante, recebendo o último passe. Óbvio que é só um ínfimo detalhe para quem chega de atrás com a bola no pé como ele faz. Se teve alguém que fez a parte dele hoje, foi Busquets, correto e tendo que lidar com a habitual tropa de choque que costuma esperar o Barça no meio de campo de ‘El Sadar’.

Edu: Então aí a conversa é outra. Saturação, mudança de chip, esgotamento, necessidade de dar uma pausa… tudo isso faz sentido. Mas não o fato de que faltou continuidade ou entrosamento porque não houve treinamento. Mesmo o impacto negativo de uma parada no calendário não serve como desculpa porque os outros, os adversários, também pararam. É certo que o Osasuna ficou se preparando para esse jogo e deve ter contado com o desgaste do Barça, o que fez com muita competência. Mas, por exemplo, o Real Madrid, que não tem primado pela excelência técnica e também mandou quase todo o elenco para os jogos Fifa, resolveu relativamente bem seu problema contra o Málaga e foi afetado pelos mesmos problemas de Barça e Atlético. Não foi aquela maravilha, mas praticamente não sofreu para ganhar o jogo. E, no caso específico do Barça, acho que muitos jogadores atuaram com comedimento pensando na Champions (Milan no meio de semana) e principalmente no clássico de sábado contra o Madrid, isso sim.

Carles: Então me perdi. Explique-me o que é entrosamento se não são todas essas coisas e um pouco mais. Por isso os treinadores sérios falam em preparar um determinada partida. Os jogos foram feios de todos os lados e não só por parte dos grandes. Com o montão de interferências destes dez dias, ficou mais fácil que Osasuna e Espanyol conseguissem seus objetivos, que era basicamente, atrapalhar o jogo contrário. A grande diferença do Real Madrid (além de jogar em casa) foi a de conseguir converter as ocasiões em gols. Se Messi e Diego Costa tivessem feito um par de gols, o papo seria diferente, estaríamos falando de que os três resolveram relativamente bem seus compromissos. Ou como diz meu xará, o Madrid nem conseguiria jogar pior do que vinha fazendo. Estou de acordo que muita gente se poupou pensando na Champions desta semana. Mas sigo batendo na tecla de as equipes que contam com maioria de internacionais terem que encontrar uma alternativa. Para se ter uma ideia, o Barça já tem 14 jogadores que com certeza irão à Copa. E ainda faltam as repescas e a África. O número pode aumentar. Imagine o que vão economizar de água e energia nas instalações do clube, durante o Mundial.

Edu: Tudo bem, vamos combinar que aceitamos a explicação, mas não a justificativa. O que dá no mesmo. Parece aquele adolescente que se culpa por não ter falado nada do que sente para uma garota e também se culpa por ter falado para, em seguida, achar que foi uma bobagem. Vai sair perdendo sempre.

Carles: Não entendi muito bem. Talvez porque minha adolescência está a anos luz ou porque o vírus Fifa também me deixou fora de ritmo.

 

 

 

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