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Mais Neymar, menos Felipão

Carles Martí e José Eduardo de Carvalho

19 de junho de 2013 | 20h20

Carles: Visto que a torcida brasileira, ou pelo menos uma parte dela, decidiu repudiar simbolicamente o futebol como forma de protesto, imagino que quem mais está celebrando o jogo entre as seleções brasileira e mexicana é a gente do Barça. Como se já não bastasse o que fizeram em campo Iniesta, Xavi e Cesc no último domingo, parece que o melhor Neymar ameaça voltar. Só faltou uma equipe com uma filosofia mais associativa para que o novo blaugrana fizesse uma partida completa.

Edu: A torcida, ao contrário, mostrou para quem pretende usar o futebol como bode expiatório que é possível ter consciência, não virar as costas para os problemas do país e ao mesmo tempo desfrutar desse jogo. O futebol continua sendo um dos canais mais autênticos para se demonstrar descontentamento ou regozijo, desde que os oportunistas fiquem de fora. Eu diria que a torcida teria sido o grande personagem do jogo, não fosse o carinha da camisa 10. Imagino a reação do pessoal do Barça. Aliás, tivemos 80 minutos de Felipão e 10 de Neymar. O que funcionou melhor?

Carles: Seguramente Neymar, apesar do Felipão e dos desacertos defensivos de um esquema que se propõe a cuidar justamente da retaguarda. O melhor desse time segue sendo tudo o que ele oferece à frente da linha da bola e o pior, o posicionamento, com um enorme espaço entre as linhas. Imagino que já começou uma grande demanda pelas entradas para o próximo Troféu Gamper, na estreia de Neymar.

Edu: Para quem queria uma equipe com a cara de Felipão, aí está. Todos, literalmente todos os times que passaram pelas mãos do técnico da Seleção se especializaram em produzir e administrar sufocos. Ela adora esse tipo de coisa, estimula os zagueiros a dar chutões, prefere o tranco, a disputa corpo a corpo, prioriza os caras sofrendo em detrimento do toque. Tanto que David Luiz teria sido o melhor do jogo, não fosse o sujeito lá na frente ter feito o que fez. E nessa história de menosprezar o toque, quem saiu mal parado foi Oscar, que não é jogador de várzea, não sabe atuar com passes longos e nessa filosofia do choque, da dividida.

Carles: O chutão não permite valorizar o jogo de nenhum futebolista de qualidade, pelo simples fato de que é uma jogada em que se sorteia a posse de bola, que nem a lei das probabilidades recomenda. Cuidar da posse de bola consiste em distribuí-la com precisão, aproximar companheiros e setores da equipe e sobretudo treinar e mecanizar essa capacidade de combinação. Caso contrário, passa-se a depender de genialidades pontuais, que na história do futebol brasileiro costumam ser recorrentes, mas que é um fator demasiado imponderável para um esquadrão tradicionalmente poderoso.

Edu: Gostaria de ver um bate-papo seu com o Felipão sobre esse assunto, durante um churrasco, por exemplo. No mínimo ele te ameaçaria com o espeto. Nem pensar, Carlão, é uma blasfêmia em se tratando de Luiz Felipe Scolari. Nesta semana, em uma de suas aparições, ele soltou a frase mais reproduzida pela mídia nos dias seguintes: ‘Zagueiro tem que zagueirar’, ou seja, chutar para qualquer lado. Você deve ter percebido que até o Marcelo fez isso nesse jogo. E citei o Oscar porque ele estava visivelmente deslocado, em outra frequência, tanto que teve uma conversa com Neymar na saída do primeiro tempo, antes de entrar no vestiário, para tentar acertar algo. Como nada mudou depois, foi substituído até mais cedo que nos outros jogos.

Carles: Em alguma coisa o gaúcho tem que ser bom e não imagino outra especialidade melhor que um churrasco. Da minha parte ia espetá-lo com a seguinte pergunta: nem diversão nem inteligência, Scolari? Porque não vejo os times dele oferecer nenhuma das duas coisas. Imagino que ia tentar argumentar com os títulos conquistados e eu teria que recordar nomes como Rivaldo, César Sampaio, Zinho, Evair, Ronaldinho, Ronaldo, Deco, Figo, Rui Costa… Pior, craques de um tempo em que pelo menos o treinador me parecia com a suficiente humildade para não neutralizar a individualidade de talentos como são hoje Oscar e Marcelo, como você bem lembrou, e que vinham sendo destaques da Seleção. Eu diria que não só ele não entende de futebol, como acabou se isolando nas suas convicções.

Edu: Tenho dúvidas sobre esse isolamento. De certa forma, estamos perdendo parceiros nessa implicância com o Felipão, porque, muito habilmente, ele tem mandado mensagens de que o time não está entendendo sua proposta tática, apesar de elogiar todos individualmente. Depois da partida, criticou a postura dos jogadores por terem dado terreno aos mexicanos. Mas me recuso a acreditar que um grupo com vocação ofensiva tenha tomado por si só essa atitude. Enfim, o que ficou de melhor, mais uma vez, foram algumas individualidades. Neymar não vinha mostrando leveza e ousadia, coisas que fazem dele o fator de desequilíbrio. E desta vez mostrou com sobras. A defesa pareceu um pouco menos hesitante, se analisarmos cada jogador individualmente. Mas caras como Hulk e, principalmente, Fred continuam devendo.

Carles: Apesar de uma certa inconstância de Neymar, deu para perceber que, pouco a pouco,  ele vai tirando de cima todo o peso que teve a indecisão em torno de seu futuro. Boa notícia para a Seleção, melhor para o Barça.

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