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Mais um capítulo do show de bizarrices que assola o Paulistão

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

17 de março de 2014 | 21h00

Carles: Lembro-me de ter estranhado e até cheguei a comentar aqui no 500 aC, antes do torneio começar, sobre a fórmula do Campeonato Paulista, com os integrantes de uns grupos enfrentando-se aos dos outros grupos. Justamente isso deu margem à situação de o São Paulo poder ter eliminado o Corinthians por controle remoto. Mas, claro, uma vez começado o campeonato e aceita a fórmula, Inês é morta… Teve mesmo o tal chororô alvinegro ou foi coisa pontual do hiperativo Romarinho?

Edu: A menos que o Corinthians tivesse se precavido e alertado os jogadores para evitar comentários descabidos no final, a manifestação de Romarinho é perfeitamente normal depois de uma eliminação. O que não é normal é Mano Menezes, supostamente o comandante do processo, querer dar importância ao que os outros fizeram e não àquilo que seu time fez, ou melhor, deixou de fazer. Não é elegante e muito menos inteligente a estas alturas, depois de ter ficado fora do grupo de oito principais times do emocionante Paulistão, o técnico disparar dardos venenosos por aí. O São Paulo é um convento? Claro que não. Muricy é santo? Também não. Não seria mais produtivo um esforço redobrado para ganhar os jogos fáceis e evitar uma situação dessas?

Carles: O tom do Muricy falando do terreno encharcado como dificuldade do seu time é um pouquinho cínico, até pelo jeito contido, pouco habitual nele. É óbvio que o único responsável pela desclassificação é o Corinthians. Não ouvi as declarações de Mano, mas não me pareceu normal Edu Gaspar na entrevista coletiva, explicando suas próprias responsabilidades e as mudanças táticas e técnicas. Acho que ele até pode dar razões genéricas, mas eu vi ele falando de três no meio, de praticamente uma zaga toda nova, de que não sei quem é canhoto… o Mano é mesmo o diretor técnico? Isso acontecia com Tite? E agora José? Tem algo de podre no reino do Itaquerão?

Edu: Existe um fato claríssimo: Mano perdeu moral. Não que o Paulistão signifique grande coisa, mesmo para a torcida. Mas começar uma renovação dessa forma, com o pires na mão e torcendo pelo São Paulo, não tem boa vontade que suporte. A pasmaceira do regulamento, a dificuldade com a troca de peças-chave do time, o episódio Pato no meio do campeonato – todos são motivos de pequenos tremores. Só que Mano, técnico experiente, agiu como um novato em muitas coisas, expondo problemas que normalmente Tite assimilaria e resolveria entre quatro paredes. Pode estar aí a razão da intervenção do seu amigo Edu Gaspar, visivelmente orientado pela diretoria a apagar um incêndio diplomático. Por outro lado, não me venha o São Paulo posar de paraíso da ética e Muricy mostrar indignação ao falar de 40 anos de história, de respeito e coisa e tal. Como só vi um compacto do jogo, que me deixou uma péssima impressão, conversei com dois amigos repórteres, gente de plena confiança, que estiveram no Morumbi e foram bastante claros: o São Paulo pode até não ter jogador para perder do Ituano, mas não teve a menor vontade de vencer. Daí a responsabilizar o adversário pela eliminação é pouco mais que uma piada.

Carles: Apesar de o São Paulo ser o maior interessado em não querer enfrentar o Corinthians na seguinte fase, por mais que o rival esteja em meio de uma crise, se a manipulação foi evidente, é passível de intervenção por parte da federação. Querer perder ou evitar vencer é punível no futebol profissional, que eu saiba. Claro, o Corinthians, imagino, estaria vexado de entrar com um recurso já que esteve longe de fazer seus próprios deveres.

Edu: Não teria cabimento nem argumentos jurídicos para um recurso. Foi uma partida aparentemente normal, com um resultado que não chama a atenção, 1 a 0, e sem nenhum fato acintoso que comprove fraude. A malemolência do São Paulo pode ser vista como um fato subjetivo. E acho que nem o mais fanático dos corintianos deixaria de ficar envergonhado de ganhar no tapetão depois de tanta incompetência em campo. Mesmo porque, friamente, deixar o Paulistão a essas alturas para melhorar o time que enfrentará a Copa do Brasil e as primeiras rodadas no Brasileirão pré-Copa não é mau negócio para uma equipe em reconstrução. A grande bobagem foi ter partido do comando do time o palavrório desenfreado sobre a atitude do São Paulo. Isso é coisa para os torcedores ficarem discutindo o resto da vida se for o caso, mas o clube tem que meter a viola no saco e trabalhar duplamente, depois do que fez em campo.

Carles: Sabe que até me passou pela cabeça essa história de que a desclassificação do torneio favorecia ao próprio Corinthians mais do que a ninguém? Sobretudo pelo desgaste do novo comando técnico para renovar um time desde a raiz em plena competição. Favorito o alvinegro não é, e perder mais lá para frente pode até ser mais daninho. Já se sabe que, no Brasil, acabar segundo ou último tem o mesmo valor. E longe das manchetes, Mano sem dúvida vai trabalhar mais sossegado e inclusive pode se dedicar a fazer sala na nova casa. Pode ter algo de suicídio nessa história?

Edu: Um suicídio calculado, né? Pode sim, tem grande chance de ser isso mesmo. E só vem coroar o show de bizarrices desse Paulistão.

Carles: Tem mais uma coisa a favor do Mano nessa história, outra das grandes tradições do futebol brasileiro: a amnésia. E mais com a Copa pelo meio.

Edu: Por essas e outras é que a Copa precisa começar logo, de verdade.

 

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