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Meritocracia

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

21 de abril de 2013 | 19h07

Carles: Relendo nosso papo “Com quantos grossos se faz um grande time”, de 31 de Março, fiquei pensando nessa história dos Arbeloas da vida que muitas vezes deixam de fora quem mais fez jus a estar. Atualmente, grande parte da juventude espanhola fugiu da crise para ocupar subempregos em cidades como Londres. Entre muitas coisas, eles estão aprendendo o significado a expressão “meritocracia”, em função do reconhecimento dos seus esforços nas empresas britânicas. Não que UK seja um poço de justiça. Provavelmente, sem explorar, os britânicos não alcançariam essas condições de estabilidade interna, baseadas no consumo. Mas, posto isto, ficam patentes as respectivas vocações, as dos latinos em dar valor ao QI, ou Quem Indica, e dos anglo-saxões em crer-se o umbigo do mundo.

Edu: Você pintou aí um pequeno quadro bastante lúcido de um pedaço da crise espanhola, projetada na crise europeia. Mas onde exatamente entram os Arbeloas nessa história? Você quer dizer que o futebol está forrado de caras que jogam em grandes times só porque têm cartucho, o ‘enchufe’, que lhes garanta? Quem são precisamente os grandes promotores dos cartuchos, os técnicos ou os agentes? Se for isso, eu diria que a ‘meritocracia’ sempre esteve de alguma forma presente no mercado, não só no futebol, assim como os promotores dos cartuchos – ou Quem Indica -, e não tem nada a ver com a crise. A menos que seja apenas uma deficiência espanhola, no que não acredito.

Carles: Na verdade, o Arbeloa foi minha inspiração na questão do merecimento. Seja pela mera fortuna de estar no lugar e na hora certa ou pela razão mais provável, do “enchufe” mesmo. Os diversos modos de ver a vida, os contrastes da Europa… tudo isso esteve aí este tempo todo, sim, mas a crise deixou mais evidente. Se não fosse a crise, os jovens espanhóis provavelmente não teriam despertado para a existência da tal ‘meritocracia’ e seguiriam aguentando as injustiças da seleção a dedo, sem se queixar. “Ver mundo”, dizem, é a melhor forma de aprendizado, é o que permite desenvolver o senso crítico. Estar longe de casa faz a gente ter saudade mas faz ver a casa da gente desde outra perspectiva. Quem parece nunca ser crítico é o medíocre. Provavelmente, o Arbeloa não questiona a sua convivência com os grandes craques. No outro dia, quando entrou em campo em Istambul em substituição ao contundido Essien, logo de cara fez uma falta grosseira, pelo centro e perto da área e ainda saiu reclamando. Desestabilizou o time que esteve a ponto de perder a eliminatória praticamente ganha. A humildade não parece santa da sua devoção. Ou, pelo menos, é o que dá a entender o comportamento dele e da maioria dos “enchufados”.

Edu: Com outras palavras, você de certa forma está me dando razão em uma divergência antiga nossa aqui por estas linhas: o peso específico do indivíduo e de sua fortaleza psicológica como elemento da construção de seu desempenho técnico para um grupo. Aberloa teve quase sempre apoio explícito dos treinadores que o comandaram, do contrário não teria essa empáfia toda. E claramente joga mais por mostrar essa ‘personalidade’ do que por seus atributos técnicos. Se estendermos a suposta segurança do Arbeloa para um sujeito que tenha competência técnica, estaremos falando provavelmente um grande jogador, com lugar garantido em qualquer time de ponta. Seria o encontro da ‘meritocracia’ com a personalidade forte, com a postura adequada, uma vez que, como temos visto repetidas vezes – e em qualquer segmento -, só méritos técnicos não garantem ninguém. Não deveria ser assim, mas é.

Carles: Se ter razão faz você feliz, não seja por isso… só que eu diria que mais do que personalidade é falta de autocrítica. É possível até que, diante da consciência de mediocridade, a adoção de uma postura intimidatória seja uma boa proteção, além do velho e bom cartucho, claro. Nem todos os que aparentam ter, dispõem realmente dessa fortaleza psicológica. Casos como Mourinho, Dunga ou Luxemburgo, para mim exemplos claros de insegurança enrustida. Quem está seguro das próprias possibilidades não tem a mínima necessidade de zombar do adversário depois de derrotá-lo, por exemplo.

Edu: Evidente que, nesse tipo de cara, autocrítica passa longe, até em função de a aparência de segurança funcionar como autodefesa, como forma de escapar de certos temas e de enfrentar as próprias fraquezas. Mas se o ponto central é ‘meritocracia’, aí temos que dividir em algumas dimensões os exemplos que você citou. Existem os caras insuportáveis e que de certa forma conseguiram algo em função do seu trabalho, embora os meios não sejam do meu gosto e a estética, então, pior ainda. E existem os metidos que simplesmente são metidos e vão avançando na vida, a ponto de só serem lembrados por isso (além do enchufe), como é o caso do Arbeloa. Dunga, que quando jogava nos deixava assustados, é ídolo de muita gente. O sujeito levantou uma Copa do Mundo e foi capitão do tetra, deve haver algum mérito nisso. Até como técnico tem admiradores. Mourinho então nem se fale – na Inglaterra quem não é adepto de Ferguson é adepto de Mourinho.

Carles: Os dois minutos de glória, em alguns casos, duram anos, é verdade. Os métodos não totalmente éticos ajudam a criar ídolos, sim, mas ídolos de papel, dos que duram apenas o suficiente para alimentar o imediatismo das rotativas. É a condição essencial para obter o reconhecimento público. É como dizia um tal Ruy: “de tanto ver triunfar as nulidades…” Mas o tempo põe (quase) tudo no seu devido lugar.

 

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