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Messi e Iniesta: genialidades de um clássico histérico

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

23 de março de 2014 | 21h18

Carles: Habemus Liga?

Edu: Já vi muito futebol nesta vida, mas poucas vezes um jogo tão histérico como este…

Carles: Como a maioria das finais, não? Geralmente carecem de qualidade técnica e os mais desaparecidos acabam sendo decisivos em algum lance fortuito.

Edu: Mas as finais são, em grande parte, travadas, estudadas, cautelosas. Este foi um clássico insano e caótico, a mil por hora, imprevisível e vetado a cardíacos. Até o juizão colaborou para o cenário ensandecido. Mas, que fique claro: o resultado final é cristalino, refletiu exatamente toda a loucura que se viu no Bernabéu.

Carles: As variações do marcador e o descontrole do time que normalmente ia ganhando, os gols quase todos proporcionados por erros… tudo isso te cobre de razão, mas eu não posso deixar de destacar um nome por cima do resto e que deu a impressão que estava lá, mas em outra dimensão e em momento nenhum pareceu afetado pelo clima: Andrés Iniesta. Partidaço do 6 da Roja.

Edu: Partidaço, ele foi Iniesta e mais um pouco, funcionou como um diapasão, sempre no mesmo ritmo e só mudando o compasso nas horas de pico. Bom, genialidades não são novidade na vida de Iniesta. Só que, na nossa análise pré-jogo, já havíamos previsto que havia uma chance de o Barça ganhar no Bernabéu se Messi fosse o verdadeiro Messi, com três gols e uma assistência. Logo, acrescento ao seu ‘um nome por cima do resto’ o sujeito mais decisivo em campo. Que seja: ‘dois nomes por cima do resto’.

Carles: Mas Messi foi Messi, decisivo sem a necessidade de ser brilhante, a ponto de transformar um tropeção de Neymar numa assistência de gol. E para que vocês não achem que no Barça estão com má vontade com o garoto, tem uma foto por aí em algum lugar do Iniesta apontando para Neymar depois desse passe involuntário, dedicando-lhe o mérito. Neymar jogou sim, mas com o papel que poderia estar reservado a Alexis ou Pedro, aproveitar as costas do Marcelo e assim saiu o pênalti e a expulsão de Ramos que praticamente decidiu o clássico. Para não ser injusto, na melhor jogada do brasileiro logo no início, ele já tinha sido derrubado por Pepe dentro da área, mas Undiano fez que não viu.

Edu: Teria visto, talvez, não fosse Neymar ter a fama que tem. É o osso que ele vai ter que roer a vida toda. O Neymar que conhecemos bem no Brasil também fazia partidas ruins, como essa, mas ao mesmo tempo conseguia ser decisivo, como aconteceu naquele que foi praticamente seu último lance em campo – e que acabou determinando a expulsão e o início da virada do Barça. Particularmente não gosto de Neymar pela direita, a não ser que caia por lá em um deslocamento espontâneo. Mas, na real, por ora, ele vai ter que se conformar em ser um coadjuvante. Ainda mais diante de uma demonstração dessas de Messi, maior goleador da história deste clássico a partir de hoje, e de Iniesta, este jogando justamente pela esquerda.

Carles: Claro, você tem razão, essa escalação do Neymar pela direita teve cheirinho de autogestão mesmo, porque Iniesta sente-se muito à vontade lá pelo outro lado e costuma combinar bem com Jordi Alba. Desconfio que a decisão não veio exatamente do gabinete de Tata e reconheço que foi uma espécie de sacrifício para Neymar. Talvez por isso Andrés tenha feito questão de retribuir a deferência na tal imagem. Então, fim de jogo, muito chororô do lado branco, principalmente por parte da imprensa-torcedora, enquanto os jogadores falavam mais em erros do time, oportunidade perdida… Passados uns minutos, os jogadores começaram a se manifestar em massa através das redes sociais culpando o árbitro pela derrota, talvez um pouco influenciados. O Barça volta a estar no páreo e, na próxima rodada, pega o Celta, enquanto o Atlético enfrenta o Granada, ambos em casa. O Madrid visita o irregular mas surpreendente Sevilla que nesta semana desclassificou o inimigo e vizinho na Europe League e, na Liga, alcançou a quinta colocação. Reviravolta à vista nas vidas dos recém-aterrissados Carlo, Tata e Neymar (Bale não conta)?

Edu: Mais loucuras, mais histeria e não só na Liga – muito mais dores de cabeça para Felipão, Del Bosque e Sabella, entre outros. É bom que a gente ressalte que o novo líder da Liga de las Estrellas é o Atlético, também rival do Barça na Champions e óbvio inimigo de sangue do vizinho rico de Madrid, que por sua parte é rival do Barça na final da Copa do Rei. O que significa dois meses de insanas escaramuças por títulos no fim da temporada, o que vai colocar em alto risco as canelinhas preciosas de alguns dos grandes nomes que estarão na Copa. Por sinal, por mais que os ‘brancos’ chorem com essa derrota, vou buscar amanhã as análises sobre o seu maior craque e uma das canelinhas preciosas. Cristiano simplesmente não esteve.

Carles: Saudade dos tempos em que os poderosos patrocinadores deixavam os grandes clubes desprezarem algum título e podíamos ver “célebres” finais da Copa del Rey com Valencia, Betis, Zaragoza, Depor, Espanyol, Athletic…? É o preço pela alta concentração de quilates em tão poucos clubes e que estabelece uma impressionante relação craque/quarto-finalista da Champions, como você mesmo chamava a atenção faz uns dias. Um desses craques, Cristiano, uma vez mais pareceu sucumbir ante a pressão do clássico. Mas também vai sobrar para Carlo por ter decidido substituir justo um grande Benzema (para variar contra o Barça) para repor a zaga, depois da expulsão. Claro, ele pensou, é hora de aproveitar a velocidade dos dois puro-sangue nas costas da adiantada linha defensiva culé. Essas teorias táticas antiquadas, na prática, costumam fazer água.

Edu: Essa salada de possibilidades, reviravoltas e incertezas responde com riqueza de argumentos sua pergunta lá do início. Não só temos uma Liga como temos um frenético ciclo de poucas semanas – com uma Copa do Mundo lá no final – que vai mostrar quem é quem nessa história. É coisa para poucos…

Carles: A última menção, se você me permite, gostaria que fosse para esse incansável líder, o Atleti que aguenta o forte ritmo dos dois todo-poderosos. Aliás, hoje a equipe colchonera assistiu ao clássico montados no AVE, o trem de alta velocidade de Sevilla a Madrid. Mais uma metáfora de uma Liga cheia de caprichos.

 

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