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Messi, entre algodões

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

24 de agosto de 2013 | 06h34

Edu: Os ‘hermanos’ têm uma preocupação imensa com Leo Messi neste momento. Algo acontece por aí que não sabemos?

Carles: Imagino que, mais do que nunca, os argentinos tem informação de primeira mão sobre o que acontece no Barça. Se eles estão preocupados não deve ser à toa.

Edu: Eles estão batendo na estatística mais chamativa, de que Messi fez só um jogo completo nos últimos 25. Desde aquela lesão muscular contra o PSG, na Champions. Os episódios de sobrecarga muscular se acentuaram depois de praticamente três anos sem nada acontecer e, claro, o medo deles é não ter Messi nas condições ideias para a Copa.

Carles: Pois é, um paradoxo que os grandes clubes tenham esses plantéis tão povoados, muitas vezes com mais de dois jogadores internacionais por posição e que sempre os mesmos acabem com sobrecarga de trabalho, com excesso de minutos. Os treinadores do Barça sempre alardearam de que Messi sempre quer jogar, o tempo todo. Acho que é obrigação justamente do corpo técnico saber dosar o desgaste das estrelas, mesmo que eles (ou seus patrocinadores) não queiram perder um só minuto para poder ampliar suas marcas pessoais.

Edu: E se sucederam episódios estranhos. Se Messi não estava bem, como fez tantos joguinhos promocionais durante as férias com a permissão do Barça? Por que participou de todas as atividades da pré-temporada, incluindo aquelas ‘pachangas’ na Ásia? Se a questão é comercial, o que é mais proveitoso para o time: ter o seu principal patrimônio em condições nas ocasiões sérias ou ganhar uns trocos nos amistosos sem nenhum sentido? E tem ainda o fato de o próprio Messi ter demonstrado um comportamento bastante inusitado desde que as contusões começaram. Está visivelmente irritado, é um Messi mal humorado.

Carles: Das duas uma: ou as dores musculares não deixam que ele jogue tudo o que quer e essa é o causa da irritação ou existe outro motivo misterioso que não deixa que ele jogue o quanto gostaria. Nesse caso, as contusões seriam uma desculpa. Até poderíamos começar a suspeitar das verdadeiras intenções do clube ao trazer Neymar, não como um complemento para o argentino, mas uma alternativa. Cansados da ‘messidependência’ e do poder que isso foi lhe outorgando.

Edu: Tivemos há muito tempo um caso com histórico parecido por aqui e você deve se lembrar: Zico. Claro, os tempos eram outros e os avanços da fisioterapia e de outros ramos da medicina esportiva hoje têm peso definitivo na formação de jogadores. Mas, como Zico, Messi passou por anos de trabalhos específicos de fortalecimento muscular, bem como ganho de peso e altura. É impossível dissociar esse avanço teoricamente artificial dos episódios de sobrecarga e rompimento muscular. Messi pode estar vivendo esse momento delicado de pagar as consequências dos excessos da adolescência. De certa forma, mesmo Ronaldo Fenômeno passou por algo parecido e viveu um inferno de contusões sérias ainda jovem.

Carles: Bem lembrado. É provável que o que mais tenha mudado, comparando os casos Zico e Messi, seja o aumento da ganância comercial, no caso do argentino. Nos tempos que correm, a pressa por obter rendimentos em cima de um craque que vale milhões, é enorme. Por isso e sem pestanejar, aplica-se todo o avanço científico e tecnológico para agilizar os processos de crescimento, mas dificilmente se dedicam a proteger a integridade física deles. Só se houver um empenho pessoal e abnegação, cada vez mais raro na esporte de alta competição. E não é só pensando em poupar o indivíduo para a futura vida civil dele, mas também preservar o atleta para a competição, para poder contar com ele durante mais tempo. Questão de inteligência, mesmo, que demonstram tipos como o uruguaio Óscar Ortega, ‘el profe’, da equipe de Simeone no Atlético de Madrid, um especialista na preparação física, venerado pelos atletas, graças aos seus métodos criativos de trabalho físico, sempre muito lúdicos, combinados com motivação e preparação psicológica.

Edu: A diferença entre aquele Leo Messi que começou a jogar ainda franzino, ao lado do Gaúcho, e este de agora é gritante – e nem faz tanto tempo assim. É impossível que o ganho impressionante de massa muscular não traga consequências e sobrecargas.

Carles: Existe uma história, decisiva nessa história, na que Messi e seu pai estiveram a ponto largar tudo e voltar para a Argentina. Em 2001, com 13 anos de idade, 1m48 de altura e circunstancialmente mudo, Messi era obrigado a enfrentar adversários com o dobro do porte físico. Jogava seu segundo encontro pelo infantil B do Barça, quando fraturou o perônio, justo da perna esquerda e teve de ficar três meses afastado dos gramados, perdendo o resto da temporada. Os Messi, pais, dois irmãos, uma irmã e Lionel estavam instalados num pequeno apartamento no bairro de Les Corts, cedido pelo clube. Inadaptados, um a um foram voltando para Rosário até restarem só o pequeno craque e seu pai. Com a perna engessada e num lugar estranho, Jorge Messi propôs que eles voltassem também, mas o garoto quis ficar e decidiu-se então reforçar o seu físico, única forma de poder competir. Nesse período, nem de longe contaram com a cobertura e presença do clube como se dá a entender nos lendários relatos sobre a chegada do craque a ‘La Masía’. Mesmo porque ele nem era a estrela do time, jogava com a 11 como um típico ponta esquerda.

Edu: Hummm, então eu diria que os amigos argentinos têm todas as razões para ficarem ‘mosqueados’. Um dos jornais de lá, Olé, pergunta se não é imperioso que Messi pare por um tempo, o que parece mesmo necessário. Nesse caso, obviamente vai sobrar para Neymar, o que pode ser uma grande oportunidade mas também uma tremenda fria, porque as comparações serão cruéis se o garoto vacilar.

Carles: Mas imagine o trauma para os culés se ficassem sem Messi durante um tempo e não pudessem contar com Neymar. Isso explicaria a incorporação paulatina do brasileiro, com todo o cuidado de não queimá-lo. Mesmo assim e nessa eventualidade, o peso da responsabilidade não será nada fácil.

 

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