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Muitos tons de laranja

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

22 de julho de 2013 | 05h17

Carles: Talvez nenhuma equipe possa sintetizar de maneira tão vocacional o “quase” no futebol como a Seleção Holandesa. Assim mesmo, haveria que diferenciar as sensações deixadas por cada um dos vices mundiais conseguidos por eles. Sobretudo entre aqueles cabeludos de calção curtíssimo de 1974/1978 e a seleção de 2010.

Edu: Só vejo um componente que liga as duas turmas, além da camisa laranja – a falta de temperamento competitivo. A diferença técnica entre aquela geração de 70 e a que foi derrotada pelo gol de Iniesta no Soccer City é tão escandalosa que não permite um fio de comparação. Mas serviu para ampliar o estigma. É um time pipoqueiro? A falta de tradição tem peso? Não tem aquela fibra característica que está no DNA do futebol?

Carles: Provavelmente esta geração sofre as consequências dos mimos pelo prestígio conquistado por aquela Laranja Mecânica, considerados os responsáveis por um novo modo de pensar e de fazer o futebol. Sneijder é a viva imagem dessa patologia. O problema é que parece inevitável vincular as três finais sem vitória, mesmo tendo em conta que a última nem mesmos eles esperavam, não contavam com a colaboração da dupla Felipe Mello-Júlio César. Mesmo entre as de 74 e 78 existem diferenças fundamentais, apesar de ser o mesmo grupo e tendo ambas o reconhecimento da injustiça das derrotas. No caso do jogo de Buenos Aires, além da reincidência, é difícil não pensar na presença de Videla na tribuna e de que, no minuto 90, Rensenbrink esteve a ponto de estragar a festa do sanguinário ditador, arranhar a história política recente da Argentina e mudar a história do futebol holandês.

Edu: Rob Rensenbrink acertou a trave, é bom que se diga, antes que alguém veja poderes extrassensoriais no general dito cujo. Mas, se ignorarmos por momentos Sneijder e seu pessoal, para quem aquele vice campeonato foi lucro, pensemos na grande Holanda. Em 1974, com Cruyff, chegou como uma locomotiva na final e sumiu diante da imponência do estádio de Munique e da postura autoconfiante do Kaiser. Não há dúvida, o timaço de Rinus Michels amarelou. Em 78, já sem Cruyff, poderia até ter vencido aquela final se Videla não desse a piscadela estratégica para Rensenbrink na hora H, mas não fez um campeonato impressionante, ao contrário, foi um time pragmático. O problema é que outras Holandas vieram depois disso, com jogadores igualmente brilhantes e quase sempre terminou assim.

Carles: E, de alguma forma, Holandas premiadas, com a Eurocopa de 1988, reconhecimento a uma geração de jogadores brilhantes, um legado que se somaria ao do jogo coletivo, ao futebol total. Sem esquecer a grande contribuição sobretudo conceitual das equipes holandesas não só pela capacidade formativa, mas como uma espécie de passagem obrigatória para a adaptação de muitos dos jogadores que se consagraram em outros clubes europeus, como Romário ou Ronaldo. Claro que a Eredivisie é ideal para essa espécie de estágio, pelo seu nível competitivo de baixa pressão e um futebol estético. Mas provável que também graças à vocação para a formação de jovens jogadores. Aliás, tirando três medalhões, o trabalho de Van Gaal à frente a seleção Orange parece consistir nisso, um projeto a médio e longo prazo.

Edu: Pois então acho que chegamos ao ponto, o papel da Eredivisie, nome marqueteiro do campeonato holandês. É um torneio de formação, quase um campeonato cadete, não tem qualquer semelhança com torneios de ponta da Europa. Ronaldo e Romário quando jogaram ali disseram isso muitas vezes. Não pode ser sério um campeonato que a cada três ou quatro jogos tem um placar de 7 a 0 ou 9 a 1. Por isso volto à ideia do início, da formação do temperamento do futebolista. Mesmo jogadores de altíssimo nível como Gullit e Van Basten nunca tiveram tanto comprometimento com a Seleção da Holanda, exceto naquela Eurocopa de 1988. São caras com a cultura dos outros clubes europeus, consideraram muito mais o Milan como sua casa do que a Holanda. A Euro/1988 foi o auge técnico dos dois, de toda aquela geração e também a oportunidade de se reunirem com Rinus Michels, então um mito vivo. Depois disso, fizeram um papelão na Copa de 90 e caíram na semifinal da Euro/1992 contra a Dinamarca. São fatos em sequência que me fazem acreditar que a Laranja Mecânica foi mais um produto para exportação, muito bem aproveitado por técnicos inteligentes de outros centros, do que algo para consumo interno, para formação de uma cultura futebolística. Outras equipes, ao longo tempo, aproveitaram melhor aquela lição e de vez em quando vemos uma reedição por aí – como o Barça e o Bayern para citar os mais recentes.

Carles: Não estou de acordo com o seu conceito de seriedade. Eu falei em vocação e isso passa também por ter empatia pelas culturas e suas diferentes expectativas. Sempre pedi ter menos pressão no meu trabalho para ter a oportunidade de refletir. Por isso imagino que, desde a tranquilidade, os holandeses puderam pensar numa forma de jogo distinta que serviu de modelo para todas as equipes inovadoras. Eles desceram em suas naves alaranjadas em Barcelona e daí para a sede da Federação Espanhola; desceram em Milão e foram fundamentais para o trabalho de Sacchi. E contaminaram um montão de gente que hoje é formador de opinião e de jogo. Obviamente que o futebol holandês está mais para trampolim do que para piscina. Mas os caras mergulham e na maioria das vezes demonstram que a placidez da Eredivisie não foi suficiente para aplacar o seu espírito competitivo. Assim é o campeonato holandês, assim são os holandeses. Acho que antes de que os latinos exijamos que a frieza nórdica entenda nossa postura visceral, deveríamos fazer algum esforço para entender que a competitividade não é o único propulsor da excelência.

Edu: Se é assim, então estamos discutindo sexo dos anjos, porque os caras não têm, pela sua tese, a menor intenção de ganhar títulos mundiais. Se ‘assim são os holandeses’, não serão campeões nunca, ou seja, o ‘quase’ do início da sua argumentação é vida real para eles. O fato é que os caras só crescem no aspecto competitivo quando deixam o país e o retorno para a seleção tem sido decepcionante. Van Persie é intocável no United, Sneijder já campeão de tudo na Inter, Robben é essencial ao Bayern, mas eles juntos não funcionam, por algum motivo. Na minha visão, sua ideia de que o jogador holandês é de alguma maneira ‘formado’ sem pressão, podendo refletir à vontade, é justamente a razão de tudo. Talvez seja melhor disputarem um campeonato paralelo, no qual ganhar não importa. O que não garante em nada que jogarão bonito, porque não tem sido assim há muito tempo.

Carles: Nem acho que o jogador é formado sem pressão, nem que eles não queiram ganhar títulos, mas que têm assumido que a competição interna propõe diversão para os nativos e prefere não se corromper com as tentações de outros centros que, sim, têm “as melhores ligas do mundo”, mas o “canibalismo” entre clubes irmãos está na ordem do dia. Ligas em que os interesses comerciais chegaram a tal ponto que o desenvolvimento esportivo ficou em segundo plano e os jogadores que começam no infantil de um clube chegam no máximo ao time B e não servem para o principal. Reivindico a importância do futebol holandês no contexto mundial, tanto ou mais que muitas das seleções campeãs do mundo, pese à “falta de seriedade” do seu campeonato nacional. É, sem dúvida, um dos cinco centros mais importantes para o futebol moderno.

Edu: Então, por favor, quando você assistir ao último show de bola de algum time ou seleção da Holanda me avise com urgência, porque saio à procura do vídeo. Não tenho habitado esse planeta ultimamente, no qual os jogadores são puristas, os esquemas táticos são maravilhosamente ofensivos e a ganância esportiva não existe. A última vez que vi isso num time de camisa laranja, aliás, já se vão 25 anos.

Carles: Para ser justos, há 18 anos o Ajax foi campeão da Champions e neste mesmo milênio o Feyenoord ganhou a Copa da Uefa. Isso só dá razão aos seus argumentos. Se contabilizarmos os títulos, é muito pouco para uma nação que pretende ser importante no contexto mundial do futebol. Tem mais, a UEFA rebaixou o futebol holandês à nona posição do ranking continental que agora está por trás de Portugal, Rússia e Ucrânia, enquanto Turquia, Bélgica e Grécia se aproximam perigosamente. E quando o futebol heleno estiver à frente dos holandeses no ranking, poderemos dar razão a quem acha que o negócio deles é mesmo cultivar tulipas. Não como os talentosos futebolistas gregos.

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