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Musicalidade e estética nos falsos lentos

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

21 de julho de 2013 | 07h32

Carles: Estive pensando que se tivesse que escolher um compositor a quem encomendar a trilha sonora de Iniesta se movendo pelo campo, sem dúvida seria Ennio Morricone.

Edu: Entre os contemporâneos seria uma escolha adequada, mas já vi gente comparando a harmonia de movimentos dele a algumas árias, de Bach a Vivaldi. Convenhamos, não é exagero.

Carles: Acho que Morricone é a cara de Iniesta. Já interpretou de uma forma particular os temas de Western enquanto Andrés demonstrou ser rápido e certeiro nos duelos decisivos. Por outro lado, Cinema Paradiso é a trilha ideal para um futebol romântico e cadenciado, mas que pode chegar a ser épico como em “A Missão”. Andrés é o representante atual desse estilo tão cinematográfico, mas já tivemos outros jogadores como Ademir da Ghia, Bergkamp ou mais recentemente, Riquelme, que podiam ficar bem com essas músicas de fundo.

Edu: Da Guia e Bergkamp são ainda mais sincopados, mais clássicos. Iniesta é mais improviso, se bem que essas pequenas explosões que dá, com mudanças de ritmo, nunca são tão espalhafatosas, por isso talvez seja mais ‘terreno’. Bergkamp quando surgiu era muito comparado com Ademir da Guia por aqui, tinha a precisão dos maestros, nada era improvisado, os movimentos eram todos lineares. E mesmo assim conseguiam surpreender. Eu diria que Iniesta é mais cinematográfico, Bergkamp e Da Guia eram mais musicais. Todos falsos lentos.

Carles:  Vince DiCola, que compôs várias das trilhas para a filmografia de Stallone, poderia muito bem sonorizar uma peça do futebol-força que ultimamente parece ter mudado de endereço. Mesmo assim, todavia devem existir remanescentes no futebol brasileiro que encaixem nesse ritmo de Morricone. Neymar talvez seja demasiado pragmático e vertical, apesar das suas improvisações, próprias de uma jam session. Quais os futebolistas brasileiros da atualidade, você diria, que se movem ao ritmo dos Da Guia, Bergkamp e Iniesta?

Edu: Difícil até de lembrar de alguém que tenha recentemente esse controle do ritmo. Ganso poderia ter sido, tinha todos os elementos, mas ficou no meio do caminho porque se transformou num lento real, não num falso lento. Danilo tem algo disso, sabe temperar o jogo, assim como Deco, mas não são caras que dominam o ritmo a ponto de acelerar quando preciso. O último deve ter sido Paulo Roberto Falcão, que além de manejar o ritmo se adaptava bem aos momentos de explosão. Neymar? Bom, esse eu quero no meu time, mas está mais pra Red Hot.

Carles: Falcão, junto ao Doutor, poderia ter encarnado Butch Cassidy e Sundance Kid baixo a batuta de Burt Bacharach. Talvez Zizou também tenha sido um digno representante dessa escola, salvadas as diferenças de estilo e ressaltadas as semelhanças, tais como a capacidade quase hipnótica de ficar invisível diante dos adversários e, num segundo, reaparecer na porta do gol.

Edu: Zidane viveu em um tempo muito mais complicado do que os clássicos e mesmo assim fez o que fez. Tanto que hoje é mais fácil surgirem outros Iniestas do que outros Zidanes. Özil é um deles. E há até um brasileiro que tem esse estilo e merecia ser mais valorizado do que é na Europa. É William, que saiu muito jovem do Corinthians, fez sucesso no Shaktar e está meio perdido no Anzhi da Rússia. William é um Oscar com mais jeito de meio-campista à moda antiga, mas tem cacoetes de Iniesta e de Özil.

Carles: Acho que Oscar e Özil pedem algo ‘tecno’ soando ao fundo, jogadores que provavelmente não caberiam em outro tempo, estão mais para as harmonias de um fusion da era pós-industrial com claras menções a ritmos étnicos. Mesut às vezes me parece a versão eletrônica de Overath. Quem seria o alterego de Oscar?

Edu: Não tenho dúvida: Dirceu Lopes, talvez o meio-campista mais injustiçado do futebol brasileiro. Aquele tipo de jogador que está sempre próximo ao momento decisivo, mesmo que não seja para concluir. É o generoso da orquestra, o cara que faz a base sonora.

Carles: Grande lembrança e ótimo paralelo. Tomara que a melodia para todos esses jogadores não seja a de um John Williams. Poderia significar que eles são, cada vez mais, os ETs do futebol.

Edu: Nem tanto. Os solistas da trupe continuam precisando desses artistas universais. Vejo uma revalorização crescente desse tipo de jogador por parte dos garotos que começam a gostar de futebol, apesar do esforço de técnicos retrógrados que só entendem de mecanização. Alguns centros da Europa têm muito a ver com isso. A influência do Barça e da Roja, o sucesso do Bayern, a mudança de postura da Itália e até alguns lampejos na Inglaterra. Nem tudo está perdido. Teremos cada vez mais ETs, esteja certo.

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