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Na final dos simbolismos, Benfica não supera sua maldição

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

14 de maio de 2014 | 20h25

Edu: Turim é tida pelos italianos e por místicos do mundo todo como a cidade dos feitiços, da cabala, dos mistérios, e, a partir de agora, com a ressurreição de Béla Guttmann, será também a cidade das maldições para os portugueses do Benfica. Mas o Sevilla não tem nada com isso e foi campeão da Europa League com um herói português na decisão por pênaltis (4 a 2). Requintes de crueldade.

Carles: O consolo do Benfica é já ter cumprido 52 anos da pena. Só faltam 48. Um jogo cheio de simbolismos, com dois portugueses para cada lado nas escalações iniciais e outra vez um Benfica melhor e mais incisivo durante os 120 minutos, insuficiente para evitar a maldição de Guttmann, o húngaro que teria introduzido o 4-2-4 no Brasil e que treinava o São Paulo campeão paulista em 1957. Depois disso, veio a famosa fila de títulos para o tricolor que só voltou a ser campeão com aquele timaço dos anos 70 (deve ter sido uma praga das pequenininhas). E por falar em brasileiros, para variar, em grande legião do lado luso…

Edu: Há um ano atrás, exatamente, o rival era outro, o Chelsea, e a derrota foi tão dramática quanto, com um gol no finalzinho. Mas essa sina do Benfica está sempre cercada de algo sobrenatural, não palpável. Só isso explica tantos gols perdidos, principalmente no segundo tempo, e as defesas de Beto (ex-Porto) nos pênaltis, de forma nitidamente irregular. Na primeira defesa ele se adiantou mais de dois metros. E, praticamente anestesiados, os jogadores do Benfica sequer reclamaram, como que conformados com mais um revés contra o destino.

Carles: Não imagino Cardozo reclamando, paralisado provavelmente pela inevitável lembrança de Ellis Park, 2010 e Casillas, nas quartas de final da Copa 2010 contra a Espanha. E mais uma vez o paraguaio não converteu uma penalidade máxima decisiva. Dizem que também Jorge Jesus, o treinador dos encarnados, já estaria com a cabeça em Mônaco, seu novo destino profissional. Antes, neste fim de semana, disputa sua quarta possibilidade de título da temporada, a final da Copa de Portugal. Por enquanto, só perdeu o título de hoje, o que não é pouco. O Sevilla entra para o clube exclusivo de tricampeões da Europa League, a antiga Copa da Uefa, junto com Juve, Inter e Liverpool.

Edu: Curioso esse Sevilla, hoje sem nenhum brasileiro mas com importantes ídolos recentes na história de suas conquistas – Dani Alves, Luís Fabiano, Renato, Adriano. Neste ano, a partir das quartas de final, entrou como azarão contra o Porto e ganhou fácil no Sanchez Pizjuan, depois passou na bacia das almas contra o Valencia, em um jogo em que foi dominado, perdia por 3 a 0 e fez um golzinho salvador no Mestalla. E, hoje, optou pelo contra-ataque e viu seus zagueiros centrais, normalmente vulneráveis e bastante irregulares na Liga, resistirem bravamente à pressão. Mas não seria campeão se não tivesse dois pilares, ambos adversários do Brasil na Copa, o incansável camaronês M’Bia e, claro, o capitão croata, eleito o melhor em campo, Ivan Rakitic. O mínimo que se espera é que o staff do Felipão tenha registrado esse jogo.

Carles: Talvez hoje fizeram falta os brasileiros que ajudaram no bi, junto com Palop, Kanouté e Keita, além dos melhores Bacca, Gameiro, que jogou infiltrado, e Marco Marin que entrou aos 78 e foi substituído aos 14 da prorrogação, depois de perder três bolas numa zona perigosa do campo. Deu a impressão de que muitos dos jogadores sevillistas chegaram esgotados nessa final, menos, claro, os intermináveis M’Bia e Rakitic, corpo e alma desse time. O curioso é ouvir ao final do jogo o croata e o goleiro português Beto dando entrevistas com um carregado sotaque andaluz. Outra curiosidade dessa final tem a ver com a sede. Foram 12.000 torcedores espanhóis a Turim e outros tantos ou mais portugueses (o público passou por pouco dos 33.000 pagantes). O curioso é que a cidade não tinha se preparado, os visitantes  encontraram pouca comida e bebida, tiveram que improvisar para conseguir gelo para a cerveja e muita dificuldade para encontrar banheiros públicos. Será que tudo isso foi porque a Juve foi desclassificada na semi pelo Benfica?

Edu: Não tenha dúvida, anticlímax total no Piemonte. Acima das dificuldades físicas dos dois times, ambos sentindo a extenuante temporada, foi uma final bastante digna. Só que mais uma vez os brasileiros não puderam assistir em canais abertos e mesmo nas tevês a cabo, apesar de dez sul-americanos estarem em campo, com oito jogadores que virão ao Mundial. Só viu quem fuçou na web. Sendo que, até a semi, todas as rodadas tiveram a transmissão de ao menos uma partida, e na primeira fase até três jogos por dia. Vai entender…

Carles: Muito estranho mesmo, mas se eu tivesse que arriscar um palpite sobre o motivo, diria que times espanhóis e portugueses não dão audiência no Brasil. Os atuais torcedores (não me refiro aos mais veteranos, mas aos filhos da TV), preferem a Milan, o Bayern ou o Chelsea…  E olha que este ano as duas taças continentais importantes vêm para El Reino de España. E como a conversa vai de superstição, quem sabe não é um presságio para o outro título internacional importante do ano.

Edu: Se depender de reza, simbolismo e superstição, aqui vocês estarão mal parados.

 

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