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Na trajetória chilena, uma saga de orgulho e resistência

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

22 de maio de 2014 | 22h22

Carles: Num dos três relatos do filme dirigido pelo chileno Andrés Wood, “Historias de Fútbol”, de 1997, Pancho, um fanático torcedor de La Roja (segundo os chilenos, a verdadeira) está retido na ilha de Chiloé justo no dia em que a sua seleção enfrenta os poderosos alemães na Copa do Mundo. Só existe um aparelho de tevê no lugarejo e conseguir o sinal de televisão é puro milagre. Além do mais o aparelho pertence a duas irmãs solteironas que em troca do seu uso pretendem jogar um jogo muito mais íntimo com o rapaz, desesperado por ver a disputa. Na cena final, os habitantes do vilarejo em meio a uma tempestade, conseguem ver fragmentos da partida em que Rummenigge celebra um gol por baixo do corpo de Mario Osbén, então goleiro do ColoColo, time de Panchito. A sequência final alterna a tentativa de sedução de uma das irmãs com as estocadas da seleção chilena, entre chuviscos na telinha. O desfecho é até previsível com coincidências de ambos clímax. Um golaço de Gustavo Moscoso, que inclui uma bola no meio das canetas de um adversário, desencadeia uma das famosas narrações épicas e nacionalistas do continente, sobretudo naqueles tempos. No filme, o narrador, inflamado, chega a dizer que o Chile ganha o jogo e segue à frente no torneio, quando na verdade no enredo corresponderia ao empate e na dura realidade, foi o gol de honra na derrota por 4 a 1 na Copa de 1982. Farsa com valor simbólico de um dos povos mais massacrados pelos caudilhos latino-americanos?

Edu: O Chile é uma das nações com maior consciência cidadã da América Latina, tem uma sina de estar sempre batalhando pela própria felicidade, independente do que aconteça nos vizinhos do Cone Sul, ou mais ricos ou mais democráticos, dependendo da etapa histórica. Não importa, os chilenos têm uma lucidez plena de seu papel social e mesmo quando os mefistos estiveram no poder – em especial o maior de todos – nunca esmoreceram. No futebol, a sina é correr atrás de argentinos, brasileiros e uruguaios, uma luta insana para estar na ribalta da América do Sul. Mas em matéria de beleza natural, tradição e riqueza histórica, gastronômica e cultural não devem nada a ninguém, bem ao contrário.

Carles: Uma historia com dois momentos distintos mas não menos dolorosos, contados em Actas de Marusia, de Miguel Littin, 1975 e Machuca, do próprio Wood, de 2004, ambos filmes também muito recomendáveis. Na história do Chile aparecem acontecimentos como o de ter sido transformado no laboratório das teses liberais de Milton Friedman, da chamada Escola Econômica de Chicago  que conseguiram distorcer o modelo econômico e social chileno; ou o de dar lugar a uma das páginas mais negras da repressão, em que o Estádio Nacional de Chile acabou se convertendo na maior prisão política de todos os tempos. Mesmo assim, insuficiente para minar a resistência de craques como Carlos Caszely.

Edu: Nesse tempo de trevas, brilhou justamente a faceta politizada que o futebol chileno carrega até hoje. Tive a alegria e realização pessoal de entrevistar Caszely, ídolo nas décadas de 70 e 80, uma das poucas personalidades nacionais que peitou o general ditador publicamente, teve a mãe sequestrada pelo regime e, mesmo assim, não se calou. Foi um dos baluartes da campanha institucional pelo ‘No’, em 1988, que antecipou a queda de Pinochet (aliás, tema de outro filmaço, dirigido por Pablo Larraín). Caszely é de uma estirpe de grandes atacantes chilenos, que começou com o mito Leonel Sanchez, uma estátua de La ‘U’ nos anos 60, continuou mais tarde com Marcelo Salas e Ivan Zamorano e chegou aos tempos atuais com Alexis Sanches e seu vizinho Eduardo Vargas. Sem contar o excepcional Arturo Vidal, um pouco meia e um pouco atacante, por que não. Vidal, por sinal, é dúvida para jogar a Copa porque acaba de sair de uma artroscopia.

Carles: Vargas que também esteve por aí jogando no Grêmio, só vai seguir sendo vizinho se o milionário de Cingapura Peter Lim, novo dono do Valencia, resolver bancar e ele não tiver que voltar para a Itália, provável destino também de Alexis na era Luis Enrique. Na concepção dos chilenos, existe também uma lista de goleiros entre os mais grandes do seu futebol, a começar pelo legendário Sergio Livingstone, passando pelo extravagante Nelson Tapias e chegando até o conhecido da torcida brasileira Roberto ‘El Condor’ Rojas, que passou de inimigo público número um, durante as eliminatórias para a Copa 1990 a amigo e parte do tricolor paulista. Atualmente, nesse místico posto está Claudio Bravo, querido da gente de San Sebastian, surpreendentemente inquestionável e na sua oitava temporada na Real Sociedad. Apesar disso, de vez em quando ele costuma dar uma das suas cantadas, como se diz por aqui. David Villa que o diga. E esperamos que ele volte a fazer das suas dia 18 de junho no Maracanã, porque sem aquela saída no Estádio Loftus Versfeld, em Pretoria, acho que ainda não teríamos a estrelinha bordada em cima do escudo.

Edu: Bravo é uma legenda, segundo jogador que mais vezes defendeu a camisa chilena, com serviços prestados desde 2004. Na reserva há outro conhecido nosso: o incrível Johnny Herrera, que teve uma passagem deplorável pelo Corinthians e costuma fazer jogos inesquecíveis, pelo bem e pelo mal. O problema do Chile, definitivamente, não é o goleiro nem os atacantes ou o meio de campo, onde o palmeirense Valdívia deve ter lugar garantido depois da contusão que afastou Matias Fernandes da Copa. Há outros ‘brasileiros’, como o lateral Mena, do Santos, e o excelente meia Charles Aránguiz, hoje um jogador essencial para o Inter de Porto Alegre. O problema mesmo é na zaga, porque o técnico Jorge Sampaoli é adepto de um futebol bastante dinâmico, que expõe sua defesa, onde pontua um também conhecido de vocês, o nada delicado Gary Medel, ex Sevilla, hoje no Cardiff, mais zagueiro do que volante. Mesmo assim, Sampaoli conseguiu fazer uma grande eliminatória com esse time de atacantes efetivos que é, hoje, a meu ver, o principal adversário da Espanha no grupo, adiante da estropiada Holanda de Van Gaal.

Carles: Se é certo que Medel não põe a técnica, pelo menos a alma ele deixa sempre em campo. Já era assim nos tempos de Sevilla, onde ele jogava de volante, inclusive porque a sua estatura não é exatamente de zagueiro. Mas com Gary não tem crise, ele faz aquela expressão da homem mau e faz tremer o mais temível dos atacantes. Esse time de Sampaoli já deu uns sustinhos no do Del Bosque, mas parece que sempre acaba dando azar, como nos últimos amistosos, no ano passado em Genebra, com Jesus Navas conseguindo o empate no último suspiro. No anterior, em 2011, a Espanha ganhou por 3 a 2 depois de estar perdendo por 2 a 0 também com um gol de Cesc nos últimos segundos, batendo um pênalti duvidoso e com os dois times se estranhando. Nem vai ser fácil nem vai faltar tensão nesse jogo entre a primeira no Ranking Fifa e vigente campeã, e a 13ª. E crescendo!

Edu: A vantagem para os chilenos é que terão na estreia o docinho de leite do grupo, a Austrália, no calor de Cuiabá. O time fará sua preparação num dos centros de treinamento que é referência no Brasil, a Toca da Raposa II, e pode decidir a vaga no segundo jogo, no Maraca, contra os espanhóis. Se não der, ainda terá uma última chance contra a Holanda, em São Paulo. Serão dois jogaços.

Carles: Outro dia, numa entrevista, Claudio Bravo garantiu que a sua seleção chega melhor a esta Copa que em 2010, Temo que ele tem razão. Apesar disso, na África do Sul eles arrancaram com duas vitórias, enquanto a Espanha perdeu na estreia para a Suíça. O que parecia resolvido acabou virando uma ameaça de desclassificação que não aconteceu só porque Suíça e Honduras não conseguiram passar do 0 a 0 na última rodada. Uma dura metáfora da história desse povo sempre batalhador que, se quisesse, teria direito até de reclamar da sorte, algo que não parece constar da sua cartilha.

 

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