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Nada maravilhoso, mas convincente

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

15 de junho de 2013 | 19h53

Carles: Melhor começo impossível, não? Vitória, gols e Neymar quebrando o jejum…

Edu: Claro, bom começo, mas não exageremos. E mostrando o que será o Brasil daqui por diante: competitivo, antes de mais nada, do jeito que a Comissão Técnica gosta. Não deixa de ser um grande avanço em relação ao que vínhamos vendo.

Carles: Eu vi o mesmo time só que com muito mais entusiasmo, contra um adversário de muita pouca mobilidade e escassos recursos técnicos. Uma dupla de zagueiros sérios, alguns detalhes de Honda e pouco mais. É suficiente para começar a confiar na conquista dos títulos. Ou é só até encontrar com a Itália no caminho?

Edu: Será um teste mais completo já contra o México, antes mesmo da Itália. Mesmo assim, o Japão começou marcando à italiana, enquanto teve fôlego, só que o sistema foi prejudicado por um gol sofrido logo cedo. O que vi de evolução do modelo Felipão foi que os volantes cresceram, ambos estiveram muito bem, a entrega foi bem maior em relação à marcação/elaboração coletiva e o entusiasmo foi digno da torcida. Empolgou? Longe disso. Mas é um capítulo inicial convincente.

Carles: Verdade, Luis Gustavo e Paulinho foram os que mais cresceram com relação aos testes anteriores e os que se esperava fossem decisivos estiveram à altura, como Thiago, Marcelo e Oscar. Mas Júlio Cesar segue soltando muitas bolas, David Luiz mostrando insegurança, Dani errando passes e Hulk, para mim, é uma incógnita. Não lhe falta vontade, é verdade, mas a presença dele nesse time é para mim tão inexplicável, como Cesc para você na ‘Roja’. Destoa. Ou estou enganado?

Edu: Hulk é um jogador 100% europeu, tem modos de jogar e se movimentar com tonalidade europeia total. É só ver a opinião de muitos técnicos daí sobre ele. De fato ele se destaca por uma série de atributos de movimentação, força e marcação, próprios de jogadores intensos. Não orna com Oscar ou Neymar, destoa em um futebol de toque. Não é muito para o nosso gosto, mas às vezes ajuda. Quanto às falhas, foram as de sempre, como você lembrou. Um pouco demais para quem prega ‘erro zero’. Esses jogadores – David, Júlio e Dani – precisam de profundas correções técnicas, mais do que táticas. Se bem que acho que o Júlio, por exemplo, não tem mais como corrigir.

Carles: Não sei a que tipo de jogador europeu você se refere para definir o estilo de Hulk. Pelo menos não a um modelo de jogador europeu atual. Imagino que ele agrada aos técnicos europeus que buscam peças com um mero papel tático, o que ultimamente já não tem sido suficiente para a maioria dos grandes times. Ele foi jogador do Porto com relativo êxito, mais pela sua força e estilo rompedor do que pelo sentido tático e agora joga no Zenit. Dizem que Mourinho está interessado nele para o seu Chelsea. Não chega a ser um brilhante cartão de visitas. Até entenderia sua escalação contra um adversário com um lateral esquerdo ofensivo, mas não contra o Japão e em casa. Obviamente que um 3 a 0 e um jogo bastante movimentado tiram-me totalmente a razão. A evolução foi evidente, os gols serviram para que Neymar e Paulinho adquirissem a autoconfiança que não vinham demonstrando ter. Justo eles que podem se somar aos jogadores decisivos que já citamos. Aliás, pelo carinho ostensivo dos companheiros na comemoração o gol de Paulinho, senti que ele andava precisando desse reconhecimento.

Edu: Os europeus ortodoxos gostam muito do Hulk, sim. Não falo de Guardiola ou Klopp, que são seus favoritos. Mas de técnicos que prezam jogadores fortes e obedientes, do tipo que vocês têm muitos por aí. Por que você acha que Felipão e Parreira adoram Hulk? Até a torcida reconheceu o esforço dele na saída. Por outro lado, essa questão da confiança talvez tenha sido a grande conquista em um jogo de estreia. Também para que a aura da Confecup ganhe algum brilho nesses tempos de contestação no país. Tanto que não poderia faltar uma vaia à presidente num momento de muitas manifestações nas ruas por diversos motivos. Não foi uma vaia estrondosa, longe disso, mas foi um retrato do momento, uma demonstração de reprovação de parte da torcida.

Carles: Acho que até isso deu um colorido especial ao evento, atribuindo uma imagem de pluralidade à sociedade, de um país que até agora só tinha demonstrado sua capacidade de recuperação econômica. Pude perceber nas redes sociais esse gostinho pela participação. É possível que isso possa dar um caráter distinto a acontecimentos esportivos não suficientemente abrangentes e finalmente fazer que os extratos médios da sociedade brasileira saiam da letargia. Ou são só fatos isolados e orquestrados com o objetivo de desacreditar a organização?

Edu: Sempre há aproveitadores e orquestradores, mas o principal deste momento é o encontro da juventude brasileira com algumas proposições de cidadania, seu poder de gritar e se insubordinar. Há problemas, há precipitação, algumas causas são equivocadas, uns quantos vândalos se intrometem nas manifestações e a polícia continua irracional como sempre, insuflada por alguns governantes histéricos. Mas o importante foi sair da letargia que assolava os jovens brasileiros há uma década, pelo menos. No caso das vaias, claro, Dilma era a representante do poder ali e tinha que sobrar alguma coisa para ela. Ainda mais porque tinha, de um lado, Blatter e, de outro, Marin… Credo!

Carles: Mas eu tinha lido que ela não ia sentar ao lado do Marin. Boato? Provavelmente, protocolo é protocolo.

Edu: Claro, protocolo e nada mais. Ela fica visivelmente incômoda ao lado do cara.

Carles: Amanhã tem campeã do mundo em campo. E acho que joga o Hulk, quero dizer Cesc.

Edu: Pior, estão falando por aqui que joga Soldado. Será que veremos Soldado e Cesc no mesmo time de Xavi e Iniesta?

Carles: Um ou outro. Os dois não. Se jogar, o Cesc vai de falso 9 e então não entra Soldado.

Edu: Menos mal. Apesar dos problemas de organização lá no Recife, há uma imensa expectativa em torno da ‘Roja’. Temo pelo Uruguai.

Carles: Ontem o treino foi debaixo de uma tempestade tropical e Tabárez já começou o jogo de vitimismo dizendo que a Espanha está a anos luz da sua seleção. Isso não me cheira bem.

Edu: Mas, convenhamos, é a pura verdade.

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