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Nada que não possa ficar ainda pior

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

22 de março de 2013 | 22h56

Carles: O nosso amigo Felipão é um testador compulsivo de volantes? É algum trauma da infância?

Edu: Traumatizados ficaremos nós, Carlão. A cruz é bem mais pesada do que a gente imaginava.

Carles: Realmente não é muito animador. O mundo do avesso, a Itália com a posse de bola e o Brasil à base de contra-ataques.

Edu: Bizarrices. A Itália pressionando, tocando a bola, conduzindo o jogo. E o Brasil só na recarga. E para piorar o técnico tira o sujeito que lançava o contra-ataque, Oscar. Acabou o jogo. Juro que faço um exercício diário de boa vontade para entender e digerir algumas coisas da Seleção, do Felipão, do Parreira, enfim, do cenário que temos aí. Entendo que é um início de trabalho, mas sou obrigado a reconhecer que é muito exercício a essa altura da minha vida. Não dou conta.

Carles: É muito pouca ambição, passar 90 minutos esperando o erro do adversário. E por falar em erros, voltamos a considerar o interesse do Bayern por Ralf, provavelmente para deslocar Javi Martinez para a zaga. O Dante não inspira confiança, inspira? Ou foi só um mau dia?

Edu: Ele joga bem mais do que aquilo, ainda mais no Bayern. E foi muito elogiado pelo Felipão no jogo contra a Inglaterra. Mas nem culpo os zagueiros, porque ali no meio foi o mais completo caos. Não tem coisa mais contraproducente do que o cara ter como filosofia blindar a defesa, o que traz um custo altíssimo para o resto do time, e no fim das contas não consegue blindar nada. Mas aí já sacrificou mais um jogo, já envolveu todos os jogadores nessa confusão e falta de ideias. Foi um mau dia do Dante como foi do Felipe Luís, o tal Fernando, Hulk e tantos outros.

Carles: O cara parou no tempo, definitivamente. Já nem é o caso de adotar uma filosofia defensiva, mas a forma como ele propõe (se é que propõe alguma coisa). Sem nenhuma mobilidade, à base de multiplicar cones por trás da linha da bola. Além do mais transmite uma insegurança nas próprias possibilidades da equipe. E fica esperando pelos lampejos de Neymar.

Edu: Prandelli, o técnico italiano, que considero um ousadíssimo personagem do calcio por tentar mexer naquela estrutura monolítica de jogo defensivo – do contrário nunca teria perdido de quatro numa final de Eurocopa – disse, espertamente, antes da partida, que o Brasil ainda era sempre favorito por ser o time mais imprevisível taticamente. ‘Imprevisível’ é uma maneira delicada de dizer ‘caótico’ e, ao mesmo tempo, diplomática de jogar a responsabilidade para o outro lado. Mas, taticamente, foi um bailado italiano, o tempo todo. Júlio César foi o melhor do Brasil

Carles: Não sei se vimos as mesmas entrevistas. Viu a do Parreira, exibida antes do jogo? Qual é a função real dele? Porta-voz? Capataz?

Edu: Desde o início me pareceu que o Parreira está ali numa função retórica e ao mesmo tempo deprimente, um para-raios, o que aliás já aconteceu com o Zico em 1998, à sombra do Zagallo. Certamente não será ele que dará o desenho tático, embora tenha uma obsessão por volantes bem parecida com a do Felipão. Tampouco é um cara de aparar arestas com os jogadores. Por enquanto, quase quatro meses depois da esdrúxula demissão do Mano Menezes, ele só confirmou o que imaginávamos da ‘nova’ comissão técnica: não acrescenta nada, rigorosamente nada que seja transformador. Mas não vi essa entrevista, o que ele disse?

Carles: O tempo todo procurou passar uma sensação de segurança, dizendo que eles não têm um plano B, o plano é chegar à final e não perder outra Copa em casa. Tentando demonstrar uma postura firme e segura muito pouco crível. Exibiram a entrevista logo após a do Prandelli, que também acompanhei, insinuando que ‘ao Brasil o que é do Brasil, o favoritismo’.

Edu: A proposta deve ser mesmo esta de posar como o ‘pensador’, o sábio da Seleção. Como o Felipão é bastante tosco em matéria de articulação, aí vai o Parreira, poliglota, com aquela postura olímpica, e despeja suas imagens com grife de quem já foi campeão do mundo. Papel bem deplorável…

Carles: Foi clara a intenção de não expor o Felipão, por isso perguntei sobre o papel do Parreira. E agora? Imagino que esse jogo não serviu muito para fortalecer a situação da comissão frente à oposição de grande parte da torcida. Ou não é assim, a torcida está dividida?

Edu: A torcida está sempre dividida em matéria de Seleção, mas como houve uma blitz festiva da mídia para dar suporte ao Felipão no início, talvez a desilusão seja proporcional – muito  maior do que no tempo do Mano. A questão é que, como você bem sabe, o brasileiro médio conhece futebol mais do que tudo. Não há idiotas nesse tema. Neste país, o sujeito pode fabricar um produto e vender gato por lebre, ludibriando muita gente por muito tempo. É assim em muitos segmentos. Mas se o assunto for futebol, ai de quem quiser enganar o consumidor. E tem esse gravíssimo fator que você destacou: tudo isso expõe os jogadores de forma cruel.

Carles: Bom, para o apreciador de futebol fica uma boa notícia, a tradicionalmente mesquinha Azurra tentando e conseguindo fazer bom jogo. Que volte o bom Brasil é sempre mais provável. Imagino que a última chance é que não se obtenha um bom resultado na Copa Confederações. Seria uma solução dolorosa, mas uma solução. Porque perder outra Copa do Mundo em casa seria quase irrecuperável para o país do futebol.

 

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