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Nas laterais, conversão à brasileira

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

17 de outubro de 2013 | 20h23

Carles: Não tenho dúvida de que o grande responsável pela mudança do futebol espanhol é o trabalho com os jovens nos clubes e nos centros esportivos municipais. Mas essa moçada teve alguns modelos, jogadores espetaculares que desfilaram pela liga espanhola. A última grande transformação por aqui foi o aparecimento de laterais esquerdos ao feitio de grandes craques brasileiros que foram passando pelos clubes espanhóis. Roberto Carlos é a grande referência, claro, mas antes já tinha passado Leonardo, atual clone de playboy, que jogou mais avançado no Valencia e, agora, temos o lateral titular da Seleção Brasileira, Marcelo. Se considerarmos que os bons laterais esquerdos espanhóis começaram a surgir depois da Eurocopa de 2008 e da Copa da África do Sul, é de se imaginar que, com eles, soma-se um novo trunfo. Jordi Alba, o garoto do Sevilla, Alberto Moreno que estreou o outro dia na Roja e que deixou seu lugar na Rojita para o valenciano Bernat. Os três são os chamados ‘carrileros’, começaram jogando lá na frente e marcam essa nova fase da posição, com clara inspiração brasileira.

Edu: Se foi mesmo assim, posso te garantir que os alunos estão superando os mestres, porque já há uns bons quatro ou cinco anos que não surgem laterais ofensivos por aqui, na esquerda e na direita. Muito por ‘culpa’ da Espanha e de outros países europeus, que fizeram uma rapa nos garotos daqui. Num rápido flash de memória temos, além do Marcelo, que foi com 18 anos para Madrid, Adriano, contratado pelo Sevilha quando tinha 21 anos, Guilherme Siqueira, ex-Granada e agora no Benfica. Do lado direito também, porque Dani Alves saiu daqui com 20 anos e Fabinho, ex-Madrid, agora no Mônaco, com 18. Na Inglaterra, os gêmeos do Fluminense, Rafael e Fábio, também chegaram ainda menores de idade. E Maicon, mais um lateral de Seleção, foi para a Europa aos 23. Ou seja, a década de 2000 foi uma sangria de laterais brasileiros, esquerdos e direitos, sem falar em Maxwell, Rafinha, Mariano, Dodô e vários outros. Acho que vocês esgotaram a mão de obra e se apoderaram do nosso know-how, porque hoje somos totalmente dependentes dos laterais que estão na Europa.

Carles: Por enquanto, me interessa falar do lado esquerdo, porque no outro, considero, ainda não fizemos a conversão, infelizmente. Desde o princípio reconheceu-se a conveniência desse tipo de perfil para os esquemas dos times espanhóis, quase sempre baseados num 4-4-2 e com necessidade de abrir o campo. Os clubes que não podiam permitir-se ter um lateral esquerdo brasileiro procuraram no próprio plantel um cara canhoto, ágil, rápido, habilidoso, com jogo profundo e capacidade de finalização. Para azar da zaga e dos médios que tiveram que começar a cobrir as costas desses loucos baixinhos. Mas valeu a pena, pelo colorido do jogo, pela alternativa ofensiva e pelo fator surpresa. A seleção não demorou em adotar os “laterais brasileiros”. Aliás, a participação de Jordi Alba tem sido muito mais decisiva na ‘Roja’ que no Barça, inclusive com um gol na final da última Eurocopa contra a Itália. Para não ser completamente injusto, já faz uns anos, guardadas as devidas proporções, tivemos um projeto de lateral “brasileiro”, Sergi Barjuan, lateral do Barça, bem ao estilo de Adriano Correia.

Edu: Alba pode ser mesmo o paradigma da tal conversão, porque ultimamente a ‘Roja’ se tornou um pouco dependente de seu jogo, basta ver as dificuldades quando ele não está. O Barça, idem, se bem que Adriano quebra o galho com louvor. E essa mudança de estilo fica mais evidente se você lembrar que a lateral esquerda do time campeão do mundo tinha um cara extremamente conservador, Capdevila. Alba encarna o que há de mais moderno em matéria de laterais, unindo habilidade e explosão física, o que talvez explique também suas contusões em excesso. Mas certamente é uma tendência, tanto aí quanto em outros países europeus. Basta ver o papel do garoto Alaba (quase um trocadilho) no Bayern e a importância tática dos veteranos Ashley Cole e Patrice Evra para Chelsea e United. Mas ainda tenho a impressão de que a Espanha está alguns passos adiante, principalmente porque os dois gigantes valorizam muito essa posição.

Carles: Iniesta e Alba costumam reviver o overlapping do glorioso e saudoso Claudio Coutinho. Gosto de ver o Adriano jogando, ele é meio dispersivo, mas de vez em quando surpreende e cumpre quase sempre. Muito simpático o Capdevila, não posso evitar lembrar dele dando uma entrevista e confessando que, na vida, tinha começado a ler um só livro e não tinha terminado. Deveria ser sobre tática. Tem também o alemão Lahm que pôde se aposentar da árdua tarefa de “correr la banda”, graças à evolução de Alaba, que deve aumentar ainda mais sua capacidade ofensiva com Pep. A verdade é que, tanto Barça quanto Real Madrid parecem ter adotado a ideia dessa constância ofensiva pelas laterais, tendência ameaçada agora com a chegada de Carlo que parece disposto a cortar um pouco as asinhas do Marcelo, limitando seu jogo a simples ida e vindas verticais, sem aquelas prodigiosas diagonais. Naturalmente, isso dura até que o time não encontre alternativas para penetrar só com os atacantes. Nessas horas, nada como um bom lateral esquerdo se infiltrando de surpresa. E vocês, apesar da fase pouco fecunda, indicariam algum jovem lateral brasileiro que não conheçamos por aqui?

Edu: Neste momento, definitivamente não. E muito por culpa dos vilões de sempre, os técnicos, que vivem aqui uma maré de conservadorismo. Muitos treinadores ainda não se deram conta da função pedagógica de um bom lateral ofensivo. É o tipo de jogador que pode determinar várias mudanças ao longo de um jogo – de ritmo, de proposta ofensiva, de posicionamento do meio de campo. Teremos que reaprender com vocês…

Carles: Então, juntando duas de suas informações, poderíamos concluir que Felipão é o treinador mais moderno do Brasil, já que ele prefere recorrer aos laterais que jogam na Europa e manter essa vocação nacional, enquanto nos clubes a visão segue conservadora. Ou isso, ou a Seleção é o único time capaz de bancar um craque também nessa posição. Quanto à questão do reaprendizado, a minha sensação é que o clima pré-Copa e a obsessão com os preparativos de infraestrutura para evitar possíveis problemas estão adiando um monte de coisas por aí, inclusive a necessidade de evoluir dentro de campo. É só uma impressão desde a nossa perspectiva?

Edu: É uma condescendente visão olímpica de um europeu que conhece o Brasil. E Felipão não tem alternativa, os laterais são esses ou esses. Mas, na verdade, o que temos em relação aos treinadores por aqui é bem mais mundano, é medo de perder o emprego mesmo. E isso parece que seguirá assim, com Copa e sem Copa.

 

 

 

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