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Navegar é preciso… e sobreviver também

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

27 de abril de 2013 | 14h44

Carles: Na semana de mais um aniversário da Revolução dos Cravos, o que você acha de falarmos desse incompreensível futebol português, que tantos craques produziu, mas que não consegue sair da sombra. Exceto por algum e escasso título continental das suas principais “equipas” e da proeza em Londres 1966, não acabam de se mostrar competitivos.

Edu: Antes de mais nada, é um problema sério de identidade futebolística, talvez ligado à própria história do povo português, sempre dividido entre o mundo exterior, as grandes conquistas navais, e seus dilemas internos mal resolvidos, tão bem descritos por caras dolorosamente geniais como Camões, Fernando Pessoa e Saramago. Mesmo a Revolução dos Cravos, que poderia ter se tornado um momento crucial de transformação (e de fato foi, mas só em parte), conseguiu de certa forma aprofundar algumas divisões internas. O futebol, como sempre, retrata um pouco isso: a dúvida entre um jeito mais universal de jogar, voltado para um mescla saudável com América do Sul e África, e a forma europeia clássica, próxima aos ingleses, mais mecânica.

Carles: Uma questão de identidade e não só futebolística, portanto. Mistura de celebração eterna e essa melancolia tão característica, a Revolução dos Cravos tem a fisionomia dessa bipolaridade tão característica da cultura portuguesa, conquistadora e, ao mesmo tempo, submissa. A mais conectada e tolerante com a proximidade entre Europa e África, talvez. O gosto pela miscigenação é um fato na vida dos portugueses, ligado obviamente ao colonialismo. Não é a toa que a maioria dos craques como Eusébio ou o próprio Cristiano Ronaldo tenham surgido das colônias ou das ilhas.

Edu: É o que se nota em qualquer conversa com o sempre muito hospitaleiro povo português quando se trata de se relacionar com os brasileiros, cuja conexão colonialista dispensa maiores detalhes. O futebol português, como a própria sociedade lusa, teria tudo para funcionar como uma mescla atraente de culturas, no fundo é assim, mas parece uma obra inacabada. Se o assunto é apenas jogar bola então, nem se fale. Entre Eusébio e Cristiano, houve muita gente boa, entre os quais os mais recentes Luis Figo e Rui Costa, representantes máximos de uma geração brilhante.

Carles: Inclusive Rui Costa é a própria expressão dessa dicotomia. Sempre desfrutei de vê-lo jogar e sempre decepcionou na hora de competir, de recorrer à alma, uma vez que se esgotam os recursos físicos. Essa parece a postura lusa diante de todos os momentos decisivos, “a alma a gente reserva só para a boemia”, para as jam sessions de fado regadas de vinho. Isso parece estampado no espírito da seleção de futebol. Inclusive naquela final contra a Grécia, na Eurocopa 2004 que eles mesmos organizaram e que tinha Felipão no comando. Navegar é preciso e essa proximidade ao naufrágio parece sempre um estímulo meio masoquista. Já nem sei quantas repescagens eles tiveram que disputar.

Edu: Era o que faltava para desmoralizar aquela geração, um técnico que tinha Deco e Rui Costa no time, mas fez o que fez. E ainda tem a cara de pau de comemorar até hoje ter sido vice-campeão jogando em casa e perdendo para os ‘poderosos’ gregos. Um pouco daquela decepção está refletida no time de hoje, um conjunto estranho de jogadores desfribados tecnicamente e ao mesmo tempo herdeiros de um modelo um tanto tosco de formação de volantes e zagueiros duros. Tanto é que o único organizador de jogo é um cara até habilidoso, mas inconstante, João Moutinho, que normalmente tem a companhia de tipos como Raul Meirelles, um trator. Sem contar a defesa também bastante irregular, onde estão os sutis Bruno Alves e Pepe, além do seu amigo Fábio Coentrão. Desse jeito, a situação fica mesmo muito complicada para Cristiano lá na frente, praticamente sozinho.

Carles: Esqueceu de Nani, outro exemplo desse eterno “quase” do futebol português. E olha que o rapaz tem ao alcance da mão o vovozão Ferguson, que pode ser o que for, mas, temos que reconhecer, foi fundamental para que um talento natural e indisciplinado como Cristiano Ronaldo se transformasse nesse jogador que é hoje, que sempre quer mais. Muito distante dessa idiossincrasia portuguesa, não?

Edu: É verdade, Cristiano é a síntese desse choque de ambições, um tipo insaciável, que não acaba de se encontrar ao lado dos companheiros de ataque da seleção, o desajeitado e grandalhão Hugo Almeida, que só funciona pelo alto, e um que vocês têm o prazer de apreciar aí todo fim de semana, jogando pelo Zaragoza, Elder Postiga. Além do Nani, que sempre teve habilidade e constância física, mas cuja máscara é muito maior do que o futebol. É dose. Por isso, temo pela próxima repescagem no caminho dos lusos nas eliminatórias, já que o grupo parece que terá a Rússia como campeã, sem maiores dificuldades. Sinto que não teremos fado e vinho verde por aqui na Copa do ano que vem.

Carles: Seria uma pena.

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