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Neymar nunca vai ser Messi

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

24 de setembro de 2013 | 07h53

Carles: Sinto que vocês andam ansiosos para que o mundo inteiro possa comprovar que Neymar é um craque desses especiais.

Edu: Não acho que seja uma comprovação, mas um desejo de que ele possa fazer sempre o que sabe, porque já sabemos que especial ele é e que muita gente fora do Brasil também já percebeu isso sem precisar fazer muito exercício mental.

Carles: Já tinha dito que, antes de dar minha opinião sobre o jogo Neymar no Barça, preferia ver como ele iria atuar num campo pequeno, com menos espaço. Claro que ele acabou de chegar e vai melhorar muito em todos os aspectos, inclusive na hora de enfrentar adversários incômodos, mas provavelmente vai ser um cara para os grandes encontros, os grandes campos.

Edu: É provável que o que Neymar tenha de mostrar é seu apetite para jogar futebol, no campo que seja, em Vallecas ou Wembley. É um ‘fominha’, um guloso por jogar bem, fazer gols. Vibra com seu time como um torcedor. E nem vejo tanta dificuldade pra ele se adaptar aos campinhos, como Messi, aliás, que se dá bem em qualquer canto.

Carles: Esse é o ponto, às vezes, parece que Messi é meio “masoca”, busca a falta de espaço, se motiva por estar cercado por um mar de pernas adversárias. É um jogador de drible curto, que carrega a bola grudada no pé. Se você observar, ultimamente Messi tem sido mais decisivo contra adversários fechados, normalmente muito inferiores ao Barça e, no fim da temporadas passada, até andou meio escondido nos grandes clássicos.

Edu: Vai me desculpar, mas Messi, quando em forma, desmonta qualquer defesa, mais do que provou isso. O problema de Messi é que ele é dono do time, como um dia foi Neymar, em Santos. E pode jogar um pouco, muito ou mais ou menos que a repercussão não será tanta, porque todos sabem que nas horas em que o bicho vai pegar e ele aparece. Em suma, tem liberdade. Coisa que Neymar ainda não tem, nem mesmo pela posição restrita que é obrigado a ocupar em campo.

Carles: Também não entendo muito bem essa associação da posição mais grudada à lateral com um menor status no time. Grandes jogadores armaram seus times desde a ‘banda’, que pode ser uma zona estrategicamente interessante. Óbvio que o argentino tenta ao máximo marcar terreno (em ambos sentidos), mas, por enquanto, o maior obstáculo é a timidez de Neymar. Um aparente obstáculo que pode até ser uma garantia de vida, enquanto ele ainda não se impõe totalmente.

Edu: É claro que ele pode e vai decidir jogos pela ‘banda’ esquerda, mas o que não se pode é limitar a geografia para um tipo como Neymar, não é uma atitude inteligente. É como reduzir um cirurgião à função de um enfermeiro, sendo que o cirurgião será, obviamente, muito menos competente no ofício do que o próprio enfermeiro.

Carles: Mesmo sem jogadas pirotécnicas no jogo de Vallecas, sinto que os ‘culés’ estão muito satisfeitos com o garoto, inclusive porque costumam respeitar alguém que demonstra esse “saber estar” de Neymar, ele parece sem pressa de demonstrar tudo aquilo do que é capaz, logo no primeiro ou segundo jogo. Esse seria o tipo de ansiedade ou afobação que, historicamente, costuma dar errado.

Edu: Essa cautela dele no início está bem evidente e é um sinal de maturidade, de alguém que se preparou de verdade para estar num dos melhores lugares do mundo. Ansiedade por não marcar gols? Aí pode ser, porque qualquer jogador tem esse problema quando o gol não sai, seria assim com Messi ou Cristiano Ronaldo. O que o jogador mais querido do Brasil precisa é de liberdade, a única saída para fazer com que ele se sinta à vontade.

Carles: O que para mim é evidente é que Neymar nunca será Messi. Logo, logo ele será o Neymar do Barça. Têm ainda muitas dessas noites de sábado tão típicas, de ‘sopar entrepà’ no Camp Nou, além dos meios de semana pelos templos do futebol europeu. Só que tem muita jogo chato nas pequenas ‘bomboneras’, muito diferentes das grandes partidas daqui e mesmo das que ele jogou no interior do Brasil. Em cada estádio de ‘pueblo’ ou de periferia, o público faz o que pode para ajudar seus times pequenos, cada torcida com características culturais diferentes, normalmente sem amabilidade e sem nenhum glamour.

Edu: Acredite, Carlão, esse não é um problema para Neymar – campos pequenos, torcida adversária em cima, ambiente hostil, nada disso. E te garanto também que, por aqui, ninguém pretende que Neymar seja Messi. Só não queremos que impeçam Neymar de ser ele mesmo.

 

 

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