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Neymar tenta driblar o lamaçal

Carles Martí e José Eduardo de Carvalho

23 de janeiro de 2014 | 20h14

Carles: Sem a intenção de canonizar o antecessor Joan Laporta nem muito menos, já tinha advertido que o Barça estava condenado a mudar com a chegada de Sandro Rosell, e não para melhor. Processado no Brasil por negócios escusos, temerária associação com Teixeira e sei lá mais o quê, agora os tribunais espanhóis iniciam oficialmente o julgamento das negociações por Neymar. Associação perigosa do atual presidente do Barça com o esporte brasileiro?

Edu: Perigosíssima e sem surpresas em se tratando de Ricardo Teixeira. O pior mesmo é ter Neymar nesse olho de furacão – o garoto pode pagar pelas bobagens dos adultos. Pelo que tenho acompanhado, é um emaranhado de negociatas no qual Rosell quanto mais se mexe mais afunda. Ou é só um filé mignon bem degustado pelos colegas de Madrid?

Carles: Não descartaria nenhuma das duas hipóteses. A podridão ronda o negócio (e qual não?), mas não tenho dúvidas que os abutres da notícia, interessados em denegrir a causa catalã, não dormem no ponto. De todos modos, o processo de investigação judicial da contratação de Neymar pelo Barça responde a uma ação popular, impulsada pelos próprios sócios (torcedores) do Barça, inconformados, entre outras coisas, com ações de Rosell e sua diretoria como a de trocar Unicef por Qatar no espaço publicitário das camisetas do time.

Edu: Tudo anda meio nebuloso por enquanto, porque há acusações sérias, suspeitas mais sérias ainda e um empenho da Justiça em esmiuçar as andanças do Rosell, mas pouca coisa substantiva, objetiva, pelo que pude entender. Por aqui, a maior preocupação é mesmo com Ney, sobre como isso pode atingir o garoto, porque, parece, seu staff está envolvido até o pescoço.

Carles: Uma pena mesmo que tudo isso possa interferir no desempenho dele em campo, mas segundo Jordi Cases, farmacêutico de profissão e o torcedor responsável pela iniciativa, o único objetivo era permitir que a coletividade culé conhecesse os motivos de se pagarem 40 milhões ao pai do jogador, entre outros detalhes da operação, muito mal explicados. O juiz Pablo Ruz que aceitou a solicitação popular, mesmo sem ver necessidade imediata de chamar o cartola para depor, solicitou acesso à documentação que envolve o Barça, o Santos, Neymar “Senior” e a empresa detentora de parte dos direitos do jogador antes de ele vir para Barcelona, dona de um supermercado, se não me engano. E isso acendeu a mecha que acabou com a bomba da renúncia do presidente.

Edu: É a DIS, dona da rede Sonda, que, faz tempo, anda em pé de guerra com o Santos e com o futebol, a ponto de desistir do ramo. Para você ver como é esse universo paralelo ao que assistimos dentro do campo. O sociólogo escocês Richard Giulianotti, um lúcido estudioso das coisas do futebol, tem uma imagem muito real desse cenário: os negócios são feitos num sistema de ‘puxa e empurra’, um lado põe dinheiro para levar o craque a todo custo e o outro faz o maior esforço para empurrar o jogador-mercadoria. E mesmo assim as coisas saem tortas.

Carles: Mesmo que Rosell pouse de mártir, que alegue que o seu sacrifício visa salvaguardar a integridade e o bom nome do clube, ele não conta com suficiente credibilidade, nem junto à torcida, nem dentro do próprio clube. As suspeitas sobre ele e sobre seus negócios duvidosos somam-se a que, por aqui, vivemos um clima de tolerância zero à corrupção. Aliás, como deveria ser sempre.

Edu: Tenho muitas dúvidas sobre essa aproximação à tolerância zero. Parece mais um espasmo de rigor desses que de vez quando trazem alguma esperança, para depois o refluxo ser desastroso. É duro ser otimista quanto a limpezas éticas, principalmente porque esses processos são seletivos – valem para uns, não valem para outros. Alguns jornais catalães andaram sugerindo também investigação rigorosa sobre a transação Madrid-Bale. Tem cheiro de retaliação, mas não custa esmiuçar.

Carles: Era de se esperar. Bale e muitos outros. São sempre negócios envolvendo quantias extraordinárias e gente acostumada a ganhar muito. Não acredito que o negócio com o galês tenha sido muito diferente da contratação de qualquer outro galáctico, mas, claro, os catalães têm que mostrar que estão vivos e prontos para responder. Quanto à tolerância zero, refiro-me à sociedade, claro, cada vez menos disposta a pagar pelos caprichos dos mesmos de sempre. Os catalães costumam se mostrar muito críticos, desta vez dignamente representados pelo grupo de torcedores liderados por Cases.

Edu: Mesmo assim, ao menos enquanto a sociedade se movimenta, apesar de às vezes essa parcela pender para o lado duvidoso, estamos blindados, é possível manter esperanças intactas. O futebol, por sinal, só mantém a chama acesa porque um exército civil mundial continua combatendo a banda pobre, profana, com a arma da diversão, do lúdico. Do contrário, já teríamos sucumbido a gente como Rosell, Teixeira, Florentino e uma interminável lista do mal. Sou mais Messi, Neymar, Iniesta e Cristiano batendo uma bolinha…

Carles: A única coisa a se lamentar é que o programa de paródias Crackòvia, da TV Catalã,  perde um personagem bastante caricaturesco e histriônico.

 

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