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No calcio, um purgatório sem fim

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

08 de maio de 2013 | 06h17

Carles: Será que a revalidação do Scudetto pelos “bianconeros”, sem pena nem glória, de forma muito menos vibrante que na anterior temporada, além do triste desempenho italiano nas Copas europeias são claros indícios do atual estágio que ocupa o calcio, frente ao resto da Europa?

Edu: Aquilo sim é crise endêmica. E por lá o futebol parece que pagou um pouco mais caro pelo efeito Berlusconi do que o futebol espanhol pelo efeito Aznar. No mínimo, a sociedade italiana puniu mais o calciodo que outros setores, também por causa da sequência de falcatruas e escândalos internacionais, graças a figuras que durante muito tempo dominaram a cena, como o indefectível Luciano Moggi, o homem que tinha uma dúzia de celulares – e usava todos.

Carles: A sombra do ‘Moggigate’ segue pairando sobre a confiança do futebol e da sociedade italiana. Todo o entorno parece hipersensibilizado. À mínima suspeita, saltam as alarmas temerosos de um novo escândalo. O próprio Antonio Conte, treinador campeão esteve exposto faz muito pouco tempo. Eu não chegaria a dizer que Berlusconi foi mais nocivo que Aznar, preocupado mais em alianças bélicas do que em orgias.  A aparente indiferença de “Il Cavaliere”parece magnificar essa imagem de permanente corrupção e impunidade.

Edu: Se há um padrão acabado de perda de credibilidade é o do calcio. O que vemos hoje são clubes despersonalizados, afastados até mesmo de suas raízes locais, estádios vazios, com raras exceções, e times que fizeram história penando para sobreviver. Aquele Campeonato Italiano sempre com alguma novidade para oferecer aos domingos é uma quimera. O curioso é que justo dessa fase obscura surgiu a mais atraente Azzurra das duas últimas décadas, comprovando que das crises costumam sair soluções criativas. E Antonio Conte é um dos técnicos em alta na Europa. Está na mira inclusive do perdulário PSG.

Carles: Pois é, nada mais propício ao renascimento da fênix que as cinzas. Dizem que a imprensa italiana foi decisiva durante as investigações do caso. Claro, por trás do clamor de transparência, parece, sempre existem outros interesses, contrários aos corruptores. Casualmente, Massimo Moratti, máximo acionista da Inter de Milão, foi fundamental nas denúncias, graças à amizade justamente com o dono da companhia telefônica à que Moggi deu tanto lucro com suas chamadas. Se traçarmos um paralelo entre Itália e Espanha, a grande diferença, talvez, seja que por aqui ninguém parece de verdade interessado em descobrir nada. À mínima suspeita, tudo se abafa. Nisso, é fundamental também a pouca neutralidade da imprensa, sempre ligada a algum grupo ou clube.

Edu: Apesar de a Itália também ter essas influências clubísticas sobre a mídia, agravada pelas diferenças irremediáveis entre Norte e Sul, de fato há uma parte da imprensa interessada em desvendar o que importa, acima dos interesses do futebol. E tem também a natural propensão do italiano a um bom escândalo.

Carles: Esse, creio, foi o ponto fundamental no caso em questão. Na escolha Entre o ‘amiguismo’ ou a afinidade regional e a possibilidade de esquentar as rotativas, não houve dúvidas. Quer saber? Depois de uma época de bonança esportiva na Espanha, o cheiro do fracasso começou a acirrar as disputas políticas internas. Tanto na casa ‘blanca’ como na ‘blaugrana’, as acusações começam a ser disparadas em fogos cruzados que a qualquer momento podem atingir inclusive a parcela esportiva. De momento, é fogo discreto, mas a tendência é que as oposições sintam-se reforçadas e motivadas para denunciar, pela falta de títulos e perda de hegemonia. E, como eu disse, nada como a diferença de interesses para desencadear os escândalos. Por aqui temos pendentes não só possíveis casos de corrupção arbitral, mas de dopagem. Salve-se quem puder.

Edu: Talvez essa seja uma visão um tanto catastrófica sua, em função da desilusão política e social, o que é compreensível neste momento. Mas a estrutura do futebol espanhol me parece menos vulnerável justamente pela força regional. Não quer dizer que esteja imune a falcatruas, muito ao contrário. Mas acho que o esporte espanhol tem uma blindagem um pouco mais sólida do que na Itália, onde muitos clubes são usados abertamente como prostitutas eleitorais, sem qualquer sutileza, e os atletas de vários esportes entram na dança. Observando à distância, não parece, ainda, que chegou a hora de o esporte espanhol entrar nessa espiral depressiva, mesmo convivendo com alguns escândalos de doping e corrupção.

Carles: É bem provável. À distância ou não, tudo na Itália parece mais descarado, parte das diferenças de caráter, pese a crença contrária. Os espanhóis de modo geral parecem desfilar com maior pudor, as podridões próprias da “trastienda”. Isso, em alguns casos, pode ser um grande risco para a tão desejada transparência. “Pero, estamos en ello.”

EduDe qualquer jeito, no ambiente do futebol, a Juve, por exemplo, é grandiosa demais para ser ignorada, apesar de seu envolvimento direto nos últimos escândalos. É um clube que ainda tem um enorme respeito dos adversários europeus, assim como o Milan, um pouco menos a Inter. A Itália, mesmo no purgatório, ainda tem o poder de despertar cautelas em qualquer adversário, seja qual for o Berlusconi da vida que estiver no poder.

Carles: Verdade, no fim das contas, os clubes ficam e os mafiosos passam. Ou pelo menos, mudam.

 

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